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Cláudio Ferrário: um eterno zombeteiro

Ator, que comemora seus 40 anos de carreira este ano, ingressou nas artes cênicas como Mateus do cavalo-marinho, dedicou-se à TV e à comédia e agora volta aos palcos com texto de sua autoria

TEXTO Ulysses Gadêlha

01 de Setembro de 2015

Cláudio Ferrário

Cláudio Ferrário

Foto Renata Pires/Divulgação

Tudo começou com o Mateus do cavalo-marinho, no Bairro de Afogados, no Recife, em 1975. Cláudio Alberto Ferrario de Carvalho Filho, ainda estudante de Letras na UFPE, pintava seu rosto, botava a roupa colorida e, com a bexiga de boi na mão, saía pelas ruas da capital pernambucana, como Mateus do Boi, no Bumba Meu Boi da Boa Hora. O Mateus se impregnou de tal maneira em Cláudio, que todos os personagens que se seguiram em sua carreira de quatro décadas de teatro não perderam o espírito zombeteiro do personagem popular. Hoje, conciliando sua arte entre a rua e o “palco da burguesia”, o ator de 58 anos imprimiu sua marca com a voz estridente, o humor aguçado e a presença enérgica e performática.

“O Mateus é um personagem completo. É um personagem que me ensinou a dançar, a cantar, a interpretar, a rebolar, a improvisar, que é um elemento-chave para o ator”, definiu Cláudio, em entrevista recente aoJornal do Commercio. Filho do advogado Cláudio Ferrario e da professora Mirta Magalhães de Carvalho, Cláudio despertou para o teatro por acaso, quando sua turma criou a Semana de Arte Moderna do Colégio de Aplicação, na Cidade Universitária, em 1972, para comemorar os 50 anos do evento que iniciou o modernismo brasileiro. “Houve um grupo que decidiu se apresentar com música, de onde nasceu aquela banda Flor de Cactus; outro optou por literatura. E eu fiquei no grupo que não sabia o que fazer. Acabamos escolhendo teatro. A minha primeira peça foi O santo inquérito, de Dias Gomes, em que fui o iluminador”, recorda o ator.

Cláudio participou de outras duas edições da Semana de Arte Moderna do Aplicação. Em 1973, atuou pela primeira vez no espetáculo Frei Serafim, escrita por um amigo dele, Jorge Tarcísio. Em 1974, deu vida ao personagem Euclião, na peça romana Aulularia, do dramaturgo Plauto. “Foi junto com esse pessoal que entrei para o cavalo-marinho. Nós não tínhamos nome, aí chamamos de Grupo Companhia e criamos o Bumba Meu Boi da Boa Hora. Foi quando conheci o Capitão Antônio Pereira, dono do Boi Misterioso de Afogados, que era uma referência pra gente. Mesmo com 80 anos de idade, fazia tudo e nos ensinou muito”, relata.

Com o Bumba Meu Boi da Boa Hora, durante cinco anos, ele saía pelos bairros da periferia do Recife se apresentando por diversão. O grupo tinha um apelo popular e um certo discurso político mais alinhado à esquerda. “Aquela era a época da ditadura militar. Tinha uma história da fila do gás, em que o pessoal reclamava que quando ia comprar gás, nas comunidades, fazia-se uma fila no pé do morro para o povo ir buscar os botijões, mas, para os bairros ricos, o vendedor entregava na porta. A gente pegou essa história e botou no brinquedo”, relembra o ator. Cláudio conta que, na caracterização do Mateus, ele chegou a participar da confecção das bolas utilizadas pelo personagem, feitas de bexiga de boi. “Uma vez, nós fizemos 40 bexigas de uma vez. A gente pendurava no quintal de um amigo nosso. Quem vinha da rua já sentia o cheiro ruim da bexiga apodrecendo, mas fazia parte do processo”, diz ele, aos risos.

Na década de 1980, Cláudio se profissionalizou como ator, e deu início à parceria com o diretor João Falcão, com quem compartilhou cerca de oito espetáculos. Já em 1983, Ferrario participou da primeira montagem do musical infantil Caxuxa, que foi remontado duas vezes, em 1991 e 2012, sempre como sua presença no elenco. Outro espetáculo importante para a sua carreira foi Guarani com Coca-Cola, dirigido por Fernando Limoeiro, no qual contracenou pela primeira vez com a atriz Magdale Alves. Simultaneamente, Cláudio trabalhava como professor de Português, primeiro na Escola Novo Recife, no Bairro da Várzea, depois na Escola Parque do Recife, em Boa Viagem. A Escola Parque, que tem a mãe de Cláudio, Mirta Magalhães, como uma das fundadoras, foi o lugar onde Ferrario passou mais tempo lecionando, cerca de seis anos.

BRIVALDO, O REPÓRTER
Já em 1984, no fim da ditadura militar, surgiu em Olinda a TV Viva, e Cláudio foi convidado pelo diretor Eduardo Homem para fazer um programa de jornalismo voltado para o público popular, inserindo essa vertente de humor de rua. Ferrario criou o personagem Brivaldo, “o seu repórter de vídeo e áudio”, que fazia parte do programa Bom-dia, Déo. “Déo era o dono do bar que tinha no Largo do Amparo, em frente à sede do Vassourinhas. Bar do Déo era onde a gente ia na madrugada e amanhecia o dia. Eu era o câmera e o personagem oculto Dagoberto”, conta o cinegrafista Nilton Pereira, que trabalhou com Cláudio em todas as gravações do Brivaldo, cerca de 300 vídeos e documentários, realizados durante 10 anos.


O cinegrafista Nilton Pereira e Cláudio Ferrário (ao centro) trabalharam juntos em todas as gravações do personagem Brivaldo, o repórter. Foto: Reprodução

Conta Nilton Pereira que as pautas de Brivaldo eram escolhidas pelo coletivo da TV Viva, que chegou a reunir com 25 pessoas, já em meados da década de 1990. “A TV Viva produzia, a cada 15 dias, um programa de variedades que era exibido em telões nos bairros mais populares e populosos do Grande Recife. Nesses programas, popularizou-se a figura de outro conhecido repórter trapalhão, o Brivaldo, interpretado pelo ator Cláudio Ferrario. Na mesma linha do antirrepórter, adotada pelo Ernesto Varela, criado pela Olhar Eletrônico, Brivaldo era um tipo gozador que se fantasiava de acordo com o tema da reportagem e não se acanhava em disparar perguntas desconcertantes aos entrevistados”, registra a professora de Comunicação Yvana Fechine, no livro Made in Brasil: três décadas do vídeo brasileiro, organizado por Arlindo Machado.

A abundante produção com o repórter Brivaldo levou a TV Viva a ser premiada no III Vídeo Brasil, em 1985, com o vídeo Amigo urso, programa temático de humor sobre a figura do corno – o traído. “Aonde íamos, sempre se formava uma roda para ver e participar das gravações. Sempre com muito humor e abordagens de duplo sentido. Tudo dependia da intuição e do improviso. Se a gente se divertisse, certamente o público também”, relembra Nilton Pereira. O cinegrafista conta que os programas costumavam abordar comportamento ou conjuntura política. “Como Todo homem tem seu preço, que foi saber sobre a cultura da corrupção. Imagine que isso rolou no início da abertura política, culminado com a campanha das Diretas Já, eleição de Collor. Fomos ameaçados de processo por Marcos Maciel, Joaquim Francisco e Gustavo Krause, com muito orgulho”, rememora, sorridente.

Para Cláudio, a graça da história era a novidade e, mais uma vez, o Mateus do cavalo-marinho despontava como seu marcante traço teatral. “Você chegar numa Conde da Boa Vista, vestido de cupido, de qualquer coisa, e fazer comunicação num momento que ninguém conhecia isso. Fazíamos rodas enormes, cheias de gente, o povo enlouquecia, querendo ver que danado era aquilo e a gente tirando onda, fazendo roda, era o Mateus com a câmera”, diz Ferrario. Ainda na TV, Cláudio realizou o curta O homem da mala, sobre um eleitor fanático de Miguel Arraes, que percorreu o Sudeste fazendo campanha para o político pernambucano. O vídeo foi filmado assim que Arraes chegou do exílio na Argélia, na época da ditadura militar.

Na cena cultural surgia então um novo jeito de se fazer reportagem de rua. O ator Aramis Trindade se uniu a Cláudio e, juntos, produziram curtas para a TV Viva, no quadro Puxa Saco & Baba Ovo. “O ator é um radar para captar tudo que vê e ouve. O Claudinho absorve muito bem esse radar da vida, para transformar em personagem. Aprendi muito com esse formato que ele tem. O programa era uma brincadeira nossa na época do Collor, quando a gente ia às universidades, às ruas. Tinha um jingle de Zé da Flauta, que virou a música-tema”, conta Aramis Trindade.

Depois disso, Cláudio ainda produziu para a TV programas que tinham clara inspiração no formato Brivaldo, como o Greia Geral, suas participações no Casseta & Planeta, além de entradas para o Domingão do Faustão, da Rede Globo. Posteriormente, Ferrario se destacou no contato com grandes públicos e apresentações ao ar livre, em coberturas de prévias do Carnaval pernambucano.

FAMÍLIA EM CENA
A primeira remontagem de Caxuxa, em 1991, contou com um elenco peculiar: Claudio contracenava com a atriz e, à época, esposa Lívia Falcão, que estava grávida de Olga, hoje colega de cena do pai em A invenção da palavra. O musical ficou em cartaz até novembro – em dezembro, Olga nasceu.


O quadro Puxa Saco & Baba Ovo, da TV Viva, era protagonizado por Aramis Trindade e Cláudio Ferrário. Foto: Fernando Chiapeta/Reprodução

O casal atuaria junto também em 1993, na comédia Mamãe não pode saber, texto do diretor João Falcão que foi sucesso de público, lotando o teatro por temporadas longuíssimas (hoje impensáveis no contexto do teatro local). A peça foi encenada durante quatro anos nos teatros Valdemar de Oliveira e de Santa Isabel, com passagens de dois meses no Teatro Ipanema, no Rio de Janeiro, e no Teatro Paulista, em São Paulo.

Mamãe não pode saber foi uma alegria muito grande, a gente apostou muito e se surpreendeu com tanto sucesso. Foi a primeira vez que a gente viveu um sucesso no teatro. Sessão extra, público dando volta na entrada. A gente se perguntava o que aconteceu, mas a peça era ótima”, recorda Lívia Falcão, com nostalgia. O texto tem 12 personagens, numa história em que cada um tenta tirar vantagem em cima do outro, como diz Cláudio, numa brincadeira com os elementos do próprio teatro. Além de Ferrario e Lívia, o elenco contou com as atuações exemplares de Aramis Trindade, Magdale Alves e Chico Accioly.

Na plateia da comédia estava a atriz Fabiana Pirro, que assistiu à Mamãe não pode saber três vezes, muito por conta de Cláudio Ferrario. “Ele me abriu os olhos para o palco. Lembro quando assisti Mamãe não pode saber com ele fazendo Armando; eu achava o máximo a presença, a voz, o tempo dele. Um amigo meu brinca dizendo que eu imito Claudinho em cena. Acho que nós temos em comum a doidice e a voz forte. Aprendi com ele a simplicidade de atuar e estar no teatro. Ele não tem frescura nem glamour, faz na raça”, afirma Pirro.

A filha do ator, Olga, reforça essa característica, dita brechtiana, no teatro de Cláudio. “Meu pai é produtor até o último instante. Ele se preocupa com todos os detalhes. Quando chega na hora, simplesmente sobe no palco e faz”, conta a jovem atriz, de 23 anos. Segundo a irmã de Cláudio, Fernanda Ferrario, essa preocupação é fruto da história dele com o teatro. “Antigamente, as peças dependiam de público para levantar cachê, por isso Claudinho se envolve muito na produção. Hoje em dia, com as leis de incentivo, o teatro depende menos do público. Mas Claudinho ainda mantém a mesma preocupação, que é natural com o trabalho dele. Ele sempre foi muito responsável”, afirma.

INSTITUCIONAIS
Com o tempo, Cláudio acabou se afastando da atividade teatral para trabalhar com televisão, em produtos institucionais e comerciais. Foi já nos anos 2000 que ele partiu para São Bernardo do Campo, em São Paulo, para trabalhar como assessor cultural do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema. “Eu fazia porta de fábrica que só a gota- serena. Foi telão, porta de fábrica, entrevistava a peãozada; era meio Brivaldo, mas em São Bernardo”, conta.

Em 2004, Cláudio começou a apresentar o projeto Sesi Bonecos do Brasil e do Mundo, no qual é mestre de cerimônia dos espetáculos, que têm uma temporada de três semanas por ano. “Eu fico cinco horas de pernas de pau, falando. Vai chegar uma hora que o corpo vai dizer: ‘meu irmão, dá pra tu mais não’. Agora, tem que aguentar. Digo verso, falo bastante, apresento os espetáculos, tiro onda, fotografo”, relata o ator, que aprendeu a andar com pernas de pau em 1981 para participar de uma peça com atriz Marilena Breda.


O ator viveu Armando na celebrada peça Mamãe não pode saber.
Foto: Fred Jordão/Divulgação

Durante uma década, a única ligação de Cláudio com o teatro foram as leituras dramatizadas produzidas pelo grupo Duas Companhias, de Fabiana Pirro e Lívia Falcão, em projetos para o Centro Cultural dos Correios. A volta dele aos “palcos da burguesia”, como diz, ocorreu este ano, com a peça de sua autoria, A invenção da palavra, construída num intercâmbio artístico em Fafe, Portugal.

A encenação é do diretor espanhol Moncho Rodriguez, hoje radicado em Portugal, sendo a primeira vez que pai e filha contracenam. “As ideias nascem das leituras dramáticas. Foi lá nos Correios que Lívia deu a ideia de a gente montar o texto d’A Invenção, que eu tinha escrito há uns 10 anos. Eu sempre quis fazer esse texto com Olga. Aos 40 anos de carreira, poder dividir o palco com uma filha me rejuvenesce”, afirma Cláudio. Além d’A Invenção da palavra, ele também escreveu a peça As sete chaves da sobrevivência, vencedora na categoria Textos Teatrais do Prêmio Funarte de 2014, ainda não montada.

Com pequenas participações no cinema, como nos filmes Árido movie (2005), de Lírio Ferreira, e Kuarup (1989), de Ruy Guerra, Cláudio está produzindo, junto com sua atual esposa, a cineasta Dea Ferraz, o documentário Mateus, no qual percorre diversos lugares em Pernambuco para registrar o personagem Mateus do cavalo-marinho, que marcou sua vida.

A bordo de um fusca, Cláudio e Dea saíram visitando pequenos municípios, formando rodas do brinquedo, nas quais ele teve a oportunidade de retornar a esse personagem dos folguedos populares. Assim como a peça agora encenada, o doc teve orçamento aprovado pelo Funcultura.

Hoje, Cláudio vive no Bairro do Espinheiro, na zona norte do Recife. Ele é pai de seis filhos, entre os quais Olga e Leo Ferrario, que estão ligados ao teatro. Sem contribuir com o INSS, Cláudio não pensa em se aposentar. Ele deseja trabalhar até o fim da vida, seja atuando ou escrevendo. “O bom é você tentar fazer coisas em que você acredita. Nunca fiz nada que eu dissesse ‘rapaz, eu tenho que fazer’. Por isso, quero trabalhar até morrer”, assevera.

DISPUTA FILOSÓFICA ENTRE DEUS E O DIABO

A invenção da palavra
, primeiro texto do ator Cláudio Ferrario a ser encenado (o seu As sete chaves da sobrevivência ganhou, em 2014, o Prêmio Funarte, na categoria Textos Teatrais), seria a história do Diabo cobrando os seus créditos na criação divina. E Cláudio, em sua construção filosófica com elementos da tradição popular, imputa à palavra a gênese da existência humana. A riqueza do texto rimado, que casa com uma atuação pautada no gesto minimalista, a música instrumentalmente poética, traz para o palco um espetáculo que leva a imaginação do público à transcendência. A peça esteve em cartaz durante todo o mês de agosto, no Teatro Capiba, no Sesc de Casa Amarela, e inicia setembro com curta temporada no Teatro Hermilo Borba Filho, no Bairro do Recife.


Cláudio Ferrário e a filha, Olga Ferrário, em cena na peça A invenção da palavra.
Foto: Renata Pires/Divulgação

O bom acolhimento da peça, que agradou ao público e à crítica, é fruto de um processo vivido por cerca de 10 anos. Inicialmente, o texto era maior, chamava-se A peleja dos mil anos e contava com cinco personagens, sem música. No projeto de leituras dramatizadas do Centro Cultural dos Correios, o espetáculo foi posto à prova pela primeira vez e motivou Cláudio a investir na montagem.

Num intercâmbio artístico que durou 45 dias na cidade portuguesa de Fafe, o ator modificou o texto e construiu a estrutura necessária para montá-lo. A encenação foi realizada pelo diretor espanhol Moncho Rodriguez, que inseriu elementos do cenário, da música (feita pelo português Narciso Fernandes e pelo paranaense Rafael Agra) e criou o gestual minimalista. “Deus e o Capeta, sobre um tapete que se entrelaça debaixo dos seus pés, pisam palavras escritas, impressas e transformadas numa trama falsa de palha, imperceptível para o espectador, porém significativa para as personagens”, afirma Moncho.

É marcante a voz histriônica de Cláudio, que é um Deus monumental, manuseando o trigo da vida com a malícia travestida em benevolência, enaltecendo seus feitos e sublinhando-os com uma suposta modéstia. Já a atuação vibrante de Olga Ferrario, filha de Claudio, é marcada pela sátira, entregando um Capeta debochado, que assume sua vilania, mas que rivaliza o tempo todo com o divino à base da ironia e do escárnio, proporcionando bons momentos de reflexão e riso à plateia.

“Com esse texto, tenho a intenção de questionar essa religiosidade louca que vivemos hoje. Por outro lado, uma coisa que me inquieta, enquanto ateu, é Deus ter todos os louros. Eu sou muito fã da dialética, acho que tem uma parte do Capeta nessa criação incrível”, explica o autor. 

ULYSSES GADÊLHA, estudante de Jornalismo e estagiário da Continente.

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