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Biografia: A dilatação dos limites do gênero

A tradicional definição de "relato da vida de alguém" não dá conta dos temas biografados em títulos recentes

TEXTO Rodrigo Casarin

01 de Setembro de 2015

Ilustração Hallina Beltrão

Um dos maiores jogadores de futebol de todos os tempos. Nascido em Pau Grande, no Rio de Janeiro, atuava com a mesma irresponsabilidade que encarava a vida. Os dribles que dava nos gramados, seja pelo Botafogo, seja pela seleção brasileira, também executava fora deles. Parecia fácil passar por qualquer zagueiro, mas acabou sendo marcado de perto e perdendo a bola para o álcool. Garrincha, o gênio em questão, foi biografado após sua morte por Ruy Castro, no livro Estrela solitária.

O Fusca surgiu em 1938, apresentado no Salão do Automóvel de Berlim por ninguém menos que Adolf Hitler. O nazista prometia que aquele seria um carro do qual todos poderiam desfrutar. O objetivo foi atingido com extremo sucesso e o veículo se tornou um dos mais vendidos, famosos e benquistos do mundo. O automóvel também foi biografado. Sua história está em O carro do povo – A biografia do carro mais popular do planeta, de Bernhard Rieger.

Uma das personalidades mais complexas da história do Brasil, Getúlio Vargas, ex-presidente, ex-ditador, é o alvo de uma trilogia biográfica extremamente respeitada, escrita por Lira Neto. O trabalho mais recente das historiadoras Lilia Moritz Schwarcz e Heloisa Starling também já nasceu cercado por respeito e admiração dignos de um indiscutível clássico. O título bastante direto da obra não deixa dúvidas sobre o que ela é: Brasil: uma biografia. Ou deixa?

Livros que se declaram biográficos, mas trazem vidas ou “vidas” de personagens tão díspares como um jogador de futebol, um carro, um político e um país podem ou devem receber o mesmo rótulo de biografia? No caso de Garrincha e Getúlio, não há dúvidas de que sim, mas eles servem de parâmetro para contrastarmos com as outras duas citadas.

Jornalista, professor, especialista no assunto e autor de estudos transformados em livros como Biografismo Biografias & biógrafos, Sergio Vilas-Boas considera, em um primeiro momento, que qualquer “indivíduo, vivo ou morto, cuja inter-relação vida-obra seja interessante para um público heterogêneo e leigo” de uma biografia.

Instado a um olhar mais vertical na questão, mostra-se um pouco mais aberto, aceitando, ainda que de maneira crítica, personagens que não sejam exatamente indivíduos. “Sinto que, no mundo de hoje, quando se trata de popularizar, viralizar, vender alguma coisa, tudo é válido. Se eu, particularmente, acho válido? Acho. Contudo, soa-me como um maneirismo ingênuo e marqueteiro. Eu não adotaria essas nomenclaturas assim, indiscriminadamente. Por exemplo, preferiria ‘O carro do povo – uma história do carro mais popular do planeta’”, considera, enfatizando a palavra história no lugar de biografia.


Fusca, que já foi o carro mais popular, biografado por Bernhard Rieger. Foto: Reprodução

Indo além, Vilas-Boas explica que Garrincha, por exemplo, é um indivíduo com vida, personalidade, atitude e carreira próprias e apreensíveis, enquanto o Fusca é um objeto material, funcional e inanimado. “Qualquer narrativa em palavras sobre um fusca é fruto de uma interpretação humana. O Fusca não possui linguagem, uma trajetória e estética, por si próprio. Pode-se biografar qualquer outra coisa que não possua forma e linguagem humanas, mas, ao fazê-lo, entra-se deliberadamente no território específico e diferenciado da ficção, no qual tudo é possível, inclusive a invenção desbragada. Animais ou coisas não têm a linguagem que lhes atribuímos. Tudo o que dissermos sobre eles individualmente tende a ser pura idealização. Já na biografia sobre um humano, há uma reciprocidade que possibilita uma interpretação defensável e plausível.”

Mas o que outros biógrafos pensariam da questão? Dentre eles, parece não haver grandes problemas, talvez porque também tenham suas obras que narram vidas, digamos, não humanas. O próprio Lira Neto, por exemplo, autor de Getúlio, acredita que lançamentos como o livro sobre o Brasil e sobre o Fusca evidenciam a força e o interesse do público pelo gênero biográfico.

“É sintomático notar que um monumental livro de história como Brasil, escrito por duas conceituadas historiadoras, chegue às prateleiras das livrarias com o subtítulo de ‘uma biografia’. Por muito tempo, a biografia foi considerada, nos meios acadêmicos, um gênero menor, tratado com desdém, quando não até mesmo com certa repulsa. Tal lançamento é uma demonstração de que o gênero biográfico se afirmou como uma produção bibliográfica válida e relevante do ponto de vista da produção do conhecimento histórico”, opina Lira. Ele também lembra que as biografias não precisam ser, necessariamente, sobre personalidades públicas. “Um dos livros mais deliciosos que já li é O segredo de Joe Gould, de Joseph Mitchell, uma espécie de perfil biográfico de um sujeito anônimo e maltrapilho que vivia pelos becos e esquinas de Nova York”, exemplifica.

Já Ricardo Gozzi, autor da biografia de Kid Vinil e de livros-reportagem sobre a Democracia Corintiana e a banda Velhas Virgens – que, segundo ele, também poderiam ser rotulados como biografias –, tem uma visão semelhante à de Lira, mas com a ponderação crítica de Vilas-Boas. “Em princípio, não vejo motivo para que países, movimentos relevantes ou coisas não possam ser considerados dignos de biografia, ainda que se tratem de construções coletivas sobre as quais o sujeito da história carece de autonomia para tomar decisões por si. Ainda não li esses livros e, portanto, não tenho como emitir juízo sobre eles. Talvez soe esquisito chamar de biografia, ou ser rotulado como tal, e rótulos servem mais aos interesses do mercado do que aos do autor ou aos do leitor.”

Celso Campos Junior, autor de obras biográficas sobre Adoniran Barbosa e Marcos, ex-goleiro do Palmeiras, também adentra na questão mercadológica, olhando para o uso do termo “biografia” como um possível catapultador de vendas, que amplia o número de potenciais compradores de uma obra, por conta do gênero já ser familiar para um grande número de leitores e ter boa aceitação do público.

“Evidentemente, o rótulo não pode ser aplicado a qualquer biografado, digamos, inanimado. É preciso que o objeto do estudo tenha uma espécie de identidade marcante, quase uma personalidade mesmo, que o destaque entre seus pares, sejam eles carros, países ou mesmo doenças, como é o caso de O imperador de todos os males – Uma biografia do câncer, premiado livro de Siddhartha Mukherjee. Quando o escritor se debruça sobre um objeto assim, encontra tantas e tão multifacetadas histórias, que a comparação com uma vida humana acaba sendo, mais do que compreensível, inevitável.”


Mesmo sendo personagem fictício, vivido por um cachorro, Rin Tin Tin  ganhou biografia. Foto: Reprodução

Campos Junior considera “especialmente importante em biografias que não se referem a pessoas” que o autor não se limite à história contada em si, mas vá além do personagem e dê ao leitor um panorama da época e do ambiente no qual o protagonista em questão se insere. Isso, destaca, amplia as possibilidades de compreensão do leitor, sendo algo fundamental também para que se tenha sucesso ao biografar um personagem humano.

VERBETE ATUALIZADO
Mas, então, quais seriam os limites da biografia? Voltemos às ideias de Vilas-Boas, que considera apenas dois os delimitadores. “Os limites da forma biográfica, na minha visão, são a necessidade de exatidão factual, o que impede certas experimentações artístico-literárias, e a necessidade vital de que a pesquisa honre o princípio fundamental de lançar luzes sobre a relação entre vida e obra de um indivíduo humano imperfeito”, diz, voltando à questão da necessidade humana. “Um texto biográfico deixa de ser biográfico quando o autor minimiza a história pessoal do personagem central com vistas a atingir outros fins, como a defesa de interesses específicos. É o que chamo de biografia que não biografa, e, sim, milita em prol de alguma hipótese pré-determinada e fechada”, continua.

Quando tratamos com os autores, no entanto, novamente encontramos uma flexibilidade maior. Campos Junior cita o livro Rin tin tin – A vida e a lenda, de Susan Orlean, como um exemplo de biografia feita “como manda o figurino”, ainda que se refira a um personagem fictício animalesco interpretado, se é que podemos utilizar a palavra neste caso, por diversos cachorros. “A autora conta a história de mais de 10 gerações do famoso astro canino da televisão e do cinema e aborda também aspectos cruciais da indústria do entretenimento, da Segunda Guerra Mundial, da relação do homem com os animais de estimação, entre outros temas que envolvem o personagem principal”, resume.

Ao ser questionado se toparia, então, fazer algo nessa linha, diz que, na verdade, já o fez. É que considera o livro Nada mais que a verdade, que escreveu junto dos jornalistas Denis Moreira, Maik Rene Lima e Giancarlo Lepiani, a respeito da trajetória do Notícias Populares, uma biografia do jornal, que enxerga inclusive com uma personalidade bem-definida, sendo amado pelos leitores e odiado pelos críticos. “Seus casos envolvem comédia e tragédia, esperança e desconsolo, como acontece na vida de todos nós. No livro, não falamos em fundação ou fechamento do jornal, e, sim, em nascimento e morte. Aliás, por execução, bem ao estilo dos casos tantas vezes retratados por ele”, brinca.

Já Lira conta que, coincidentemente, neste momento escreve um livro histórico que não se refere a um indivíduo, mas que já comunicou a seus editores da Companhia das Letras que, ainda assim, pretende publicá-lo com o nome “biografia” estampado na capa. “Ainda não posso entrar em detalhes sobre o objeto da pesquisa, mas aprovaram a ideia.”

O dicionário Houaiss traz a seguinte definição para o verbete “biografia”: “s.f. 1 relato da vida de alguém 2 livro, filme etc. que contém esse relato”. Pelo visto, a partir do que o mercado vem ditando e pela maneira que os profissionais da área encaram a abrangência do termo e, por que não do gênero, logo os organizadores do Houaiss terão que rever a primeira definição. “Relato da vida de alguém ou de alguma coisa” poderá ser mais adequado. 

RODRIGO CASARIN, jornalista, atua como freelancer escrevendo sobre literatura, livros, escritores e afins.

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