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Fenelivro: A relação 'tecnologia e literatura'

Primeira edição da Feira Nordestina do Livro, que acontece no Centro de Convenções, a partir do dia 28 deste mês, terá como um dos temas centrais a discussão sobre o livro digital

TEXTO Maria Eduarda Barbosa

01 de Agosto de 2015

Foto Divulgação

Em uma época na qual as palavras download e delete caracterizam bem o que o sociólogo Zygmunt Bauman conceitua como modernidade líquida, um período de fluidez onde algo pode ser rapidamente substituível, há incertezas e inseguranças acerca do futuro de determinados segmentos, como o editorial. Em 2013, a Câmara Brasileira do Livro (CBL) realizou a primeira pesquisa Mercado do Livro Digital no Brasil, na qual constatou-se que 68% dos entrevistados já estavam inseridos na comercialização de livros digitais. Em contrapartida, 58% dos que ainda não participavam desse cenário alegaram motivos técnicos, como insegurança em relação ao formato, por exemplo. Já 85% revelaram que as editoras onde trabalham estavam preparadas caso as vendas de livros digitais tornem-se superiores à de impressos.

Diante desse cenário, surgem os questionamentos: qual será o livro do futuro? E o futuro do livro? Essas indagações estarão em debate na primeira edição da Feira Nordestina do Livro, que será realizada entre os dias 28 de agosto e 7 de setembro, no Centro de Convenções, em Olinda. Com iniciativa da Companhia Editora de Pernambuco (Cepe), da Associação do Nordeste das Distribuidoras e Editoras de Livros (Andelivros) e apoio da Câmara Brasileira do Livro (CBL) e da Associação Brasileira de Difusão do Livro (ABDL), o evento promoverá a discussão da temática acerca da tecnologia e literatura com a presença de convidados como o diretor do site PublishNews Carlo Carrenho. O acesso à Fenelivro será gratuito.

O Governo do Estado tinha o interesse de retomar o protagonismo na realização de feiras literárias em Pernambuco. De acordo com Ricardo Leitão, presidente da Cepe, a parceria com a Andelivros e o apoio da CBL e da ABDL criaram condições de atrair editoras do país inteiro e realizar uma feira focada na literatura nordestina, mas sem se isolar das questões nacionais. “Tanto que a temática do evento é focada no livro do futuro. Estamos esperando uma participação de aproximadamente 150 mil pessoas na Fenelivro. Eu acredito que esse evento vai se consolidar e vamos realizá-lo todos os anos. Nossa expectativa está sendo bastante positiva em relação a isso”, destaca Leitão.

O segundo semestre de 2015 marca um período de grandes eventos literários no Estado. A Feira Nordestina do Livro chega para completar a tríade, formada em conjunto com a Bienal do Livro de Pernambuco, que ocorrerá em outubro, e da Festa Literária Internacional de Pernambuco (Fliporto), em novembro. Com o tema O livro do futuro, o futuro do livro, o evento, que será realizado anualmente no Estado, contará com estandes, debates, mesas-redondas, lançamentos, atrações musicais e também um café literário para um bate-papo informal.


Nesta primeira edição, um dos homenageados é Louro do Pajeú. Foto: Reprodução

LITERATURA NORDESTINA
Além da temática envolvendo o futuro do livro, a Fenelivro promove um diálogo permanente com o Nordeste e sua produção literária. O evento fará uma discussão sobre o regionalismo nordestino em áreas como cultura, política e vida social, tendo como ponto de partida para os debates a obra que completa 90 anos em 2015: Nordeste, publicado em 1925 por Gilberto Freyre. O exemplar é uma coletânea que aborda ícones da cultura nordestina como o vaqueiro e a literatura de cordel, realizada através de colaborações de pessoas da região. “São textos que, de algum modo, antecipam o que ele faria em 1926 com o lançamento do manifesto regionalista”, completa o curador da feira Evaldo Costa.

Em sua primeira edição, a Fenelivro homenageia dois grandes pernambucanos: o escritor e historiador Evaldo Cabral de Mello, que sucedeu neste ano o lugar de João Ubaldo Ribeiro na Academia Brasileira de Letras, e Lourival Batista Patriota, conhecido como Louro do Pajeú, grande poeta nascido em São José do Egito que faria cem anos em 2015. Para celebrar o legado do repentista e manter viva essa tradição nordestina, haverá uma noite dedicada à poesia popular.

Ao todo, serão dez dias de feira. O evento terá início com uma abertura formal e segue com cada noite sendo dedicada a um estado do Nordeste. A Fenelivro contará com a presença de escritores nordestinos, cujas histórias carregam características regionalistas como em obras de nomes como José Lins do Rêgo e Rachel de Queiroz, mas com percepções da atualidade. Na feira, os autores convidados debaterão sobre a relação do lugar e suas obras. “A gente quer essa confluência: que o Nordeste se encontre na Fenelivro, que se atualize sobre as tendências, sobre as coisas novas que estão acontecendo no mundo editorial e no mundo da cultura”, revela Evaldo Costa.

Ao todo, serão mais de 120 estandes com participação de mais de 200 editoras, incluindo a Cepe. Entre os autores confirmados, estão o angolano José Eduardo Agualusa e os brasileiros Xico Sá, Gerson Camarotti, Marcelino Freire, Augusto Cury, Mary Del Priore e Guilherme Fiuza. O evento terá também a presença de autores internacionais, além de promover uma oficina literária com o pernambucano Raimundo Carrero, cujas inscrições serão gratuitas.


A Fenelivro também reverenciará o escritor e historiado Evaldo Cabral de Mello.
Foto: Divulgação

Com orçamento geral estimado entre 900 mil e um milhão de reais, a Fenelivro investe em uma programação que possa abranger diversos estilos literários. “É uma feira altamente democrática onde todo mundo vai se ver, vai encontrar diálogos dentro daquilo que gosta”, enfatiza o curador Evaldo Costa. O evento ocupará cerca de 10 mil metros quadrados do pavilhão central do Centro de Convenções, além de utilizar o teatro Beberibe. A infraestrutura da feira fica a cargo da Cepe, enquanto a Andelivros é responsável pela comercialização dos espaços junto às editoras.

“Pelo tamanho da programação que estamos organizando, pela quantidade de nomes expressivos, pela própria temática que nós vamos debater em discussão, nós acreditamos que colocaremos Recife como a meca do mercado editorial brasileiro nesse período”, enfatiza Evaldo Costa. Sobre o tema principal, ele revela que haverá algumas demonstrações práticas como um estande dividido ao meio, proporcionando ao visitante experiências sobre novas formas de publicações, enquanto a outra parte indaga sobre o futuro do livro impresso. “É possível que esse livro, que a gente conhece hoje, tenha um futuro parecido com o LP na época do lançamento do CD. É uma questão aberta que a gente vai colocar em discussão durante o evento”, pontua o curador.

A Fenelivro também buscará a participação intensa de professores e alunos de escolas públicas e privadas. “Os professores da rede estadual terão um desconto de 10% na aquisição de qualquer livro durante qualquer dia da feira”, ressalta o presidente da Cepe Ricardo Leitão. Além disso, haverá disponibilização de transporte para que alunos da rede estadual pública possam visitar a feira.

A Feira Nordestina do Livro marca também a celebração dos 100 anos da Imprensa Oficial do Estado. A Companhia Editora de Pernambuco é sucessora de um conjunto de repartições públicas que faziam as publicações oficiais há cem anos. “A Cepe tem esse papel de ser responsável pela publicação do Diário Oficial do Estado, mas também tem um papel importante da cultura de Pernambuco. Aquelas publicações relevantes e importantes, que não chegariam ao público através do mercado, chegam através da Cepe”, ressalta Evaldo Costa que destaca a presença da editora na primeira feira literária de Pernambuco. “Esse é um evento que não vem de hoje. É uma história que começa em 1997, quando a Cepe capitaneou a realização da primeira grande feira de livro de Pernambuco”. As publicações oficiais do Estado também estão alinhadas à temática tecnológica da Fenelivro. Isso porque o Diário Oficial deixou de ser impresso este ano para ser disponibilizado no formato digital assim como a revista Continente e o Suplemento Pernambuco que, além do formato impresso, também estão acessíveis digitalmente. 

MARIA EDUARDA BARBOSA, estudante de Jornalismo e estagiária da revista Continente.

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