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Congadas: Uma celebração a São Benedito

O município de Aparecida, no interior de São Paulo, famoso pela romaria dedicada à padroeira do Brasil, realiza também festa dedicada ao santo negro

TEXTO E FOTOS MÁRCIO RM

01 de Junho de 2015

Tendo ao centro o rei e a rainha, o cortejo segue em direção ao Santuário Nacional

Tendo ao centro o rei e a rainha, o cortejo segue em direção ao Santuário Nacional

Foto Márcio RM

A cidade de Aparecida, em São Paulo, é conhecida nacionalmente pela festa da padroeira do Brasil, que acontece em outubro na Basílica de Nossa Senhora Aparecida (também conhecida como o Santuário Nacional de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, segundo maior templo católico do mundo). Maior centro de peregrinação religiosa da América Latina e tida como a Capital Mariana da Fé, recebe anualmente mais de 11 milhões de visitantes.

Ela é popularmente conhecida como Aparecida do Norte, por causa da construção da Estrada de Ferro do Norte (depois Estrada de Ferro Central do Brasil), na segunda metade do século 19, quando os passageiros iam de São Paulo para lá e falavam: “Estou indo para o norte, para Aparecida”.

A cidade também é palco da Festa de São Benedito, que é o maior encontro de congadas no Brasil e uma das mais tradicionais festas populares do estado de São Paulo, que acontece anualmente no período pascal. A celebração faz 105 anos neste 2015, já que foi realizada pela primeira vez em 1910, após a fundação da Irmandade de São Benedito em Aparecida. Durante os três últimos dias da festa, a cidade acolhe em média entre 100 e 120 mil visitantes, recebendo em torno de 100 congadas de diferentes estados do país (90% delas de Minas Gerais, mas também de outros estados, como São Paulo, Espírito Santo e Goiás).


Folguedo se apresenta nas proximidades da Igreja de São Benedito

A congada é uma manifestação cultural e religiosa afro-brasileira, um cortejo com danças e músicas. Reúne elementos das tradições tribais de Angola e do Congo, com inspiração ibérica na parte religiosa, e recria a coroação de um rei congolês. Elas encantam com as suas cores e cantorias, sendo que a sua pluralidade cultural representa perfeitamente a rica diversidade brasileira.

A cada ano, 30 congadas são trazidas com despesas custeadas pela festa, mas dezenas delas vêm por conta própria ou com apoios locais. A comida é doada pelos hoteleiros, sendo preparada na cozinha da prefeitura com um cardápio elaborado especialmente por uma nutricionista, pensando no desgaste físico que os congadeiros terão.

A festa é, junto com a de Nossa Senhora, responsável pelo maior fluxo de visitantes a Aparecida, lotando não só os hotéis locais, como também de municípios vizinhos, como Cunha e Roseira. A celebração é um ponto de encontro para muitos fiéis e também de reencontro de familiares e amigos, já que muitos aparecidenses que não moram mais na cidade a visitam nos dias da festa. Na região, Aparecida é o único lugar que manteve todas as tradições dessa festa. A sua preservação se deve ao fato de a essência ser a mesma: o doce, a cavalaria, o leilão de gado e a procissão. Outras atividades, como a Missa dos Idosos e a Gincana Escolar, por exemplo, também possibilitaram agregar a sociedade ao longo das celebrações.

O professor José Luiz Pasin, que foi um importante historiador do Vale do Paraíba, escreveu: “A Festa de São Benedito é mais tradicional das heranças da cultura e do sincretismo afro-brasileiro nas cidades vale-paraibanas, desde o século 18, com suas congadas e moçambiques, cavalaria, mastro, bandeirinhas, distribuição de doces, corte do rei e da rainha e dos ‘irmãos’, com suas opas e caixas pelas ruas da cidade pedindo esmolas para o santo, e convocando o povo para as cerimônias religiosas, relembrando dias e tempos do cativeiro e arrastando um pedaço de África, Angola e Moçambique, na maior manifestação de fé e religiosidade da gente aparecidense e vale-paraibana”.


Membro de congada pede bênção à Nossa Senhora de Aparecida

ORIGENS
Influenciados pelos portugueses, os negros africanos começaram a cultuar Nossa Senhora do Rosário, conhecida como Nossa Senhora dos Homens Negros (devido à semelhança entre o rosário e o fio de contas usado nas religiões de matriz africana). A devoção a ela foi trazida para o Brasil e, posteriormente, associada a São Benedito (santo negro e descendente de escravos). Por isso as congadas trazem as suas bandeiras (estandartes) com referência aos dois santos.

Benedito é um dos santos mais populares no país. Adorado primeiramente pelos portugueses e depois pelos escravos, que se identificavam com a cor da sua pele e sua origem africana. Passou a ser amado por boa parte do povo brasileiro por conta da sua humildade e caridade, tendo sido escolhido como padroeiro por várias paróquias e capelas. Benedito, que significa bendito ou abençoado, seguiu a profissão de seus pais lavradores descendentes de escravos, tendo uma inabalável fé na dedicação aos pobres. A criança nos seus braços é um menino que estava numa carroça, tombou e faleceu. O santo ressuscitou-o, sendo este um dos seus milagres. Também se relata a multiplicação de alimentos por ele realizada.

“São Benedito tem os mesmos tipos de milagres que Jesus Cristo. Ele era pouco cultuado na Itália, mas, aqui no Brasil, precisava-se de um santo negro para trabalhar a identidade da sua gente. O povo olha para um santo negro no altar e pensa ‘se ele é negro, pobre, analfabeto e pode ser santo, eu também posso’. Aproxima a santidade do povo”, declara Felício Murade, pesquisador da cultura imaterial e professor da Unitau, na vizinha Taubaté.

Apaixonado por essa celebração (foi rei em 1989) e estudioso de São Benedito, Murade é uma das pessoas na linha de frente na procissão do mastro. Décadas atrás, acompanhava o tio nos leilões da festa, e há 30 anos carrega o mastro. Ele prepara um projeto de registro da festa como patrimônio cultural brasileiro junto ao Iphan, e está finalizando um filme, uma das exigências para o tombamento dela.


Participantes concentram-se no último dia da festa, com a missa solene

Desde o início, a festa era um grande encontro social, com vários moradores envolvidos, e se tornou mais que um ponto de reunião, sendo um momento de diversão e religiosidade. As comunidades de todos os bairros dela participam, o único evento da cidade que une as três paróquias locais (Nossa Senhora, Santo Afonso e São Roque). A preparação começa ao término da festa no ano anterior. Existem 39 comissões de organização, trabalhando cada uma com vários voluntários (quase mil, no total, contabilizam). O coordenador de cada comissão geralmente é um morador que atua no comércio local, e acaba envolvendo os seus familiares e funcionários nos preparativos.

“O importante é não perder o elo, valorizar tanto a fé quanto a cultura. Trabalho com a minha equipe há 15 anos, e ela é a que tem mais jovens. Conheci crianças que começaram com 9 anos e já se casaram, ajudei no casamento delas e elas permanecem como voluntárias. Muitas pessoas iniciaram com uma promessa e, ano após ano, continuaram, envolvendo os seus parentes. É um momento de união da família que se mobiliza”, conta Maria Rita Sampaio, aparecidense e coordenadora de uma das comissões de Liturgia.

Anualmente, são escolhidos os novos festeiros, que serão o rei e a rainha da festa (não necessariamente um casal). Eles serão responsáveis pela organização geral e mobilização da comunidade, sendo a venda de 2 mil rifas o primeiro compromisso deles. Para cobrir os gastos da realização da festa, são feitos vários eventos ao longo do ano. O primeiro, que acontece em agosto do ano anterior, é o Jantar de Massas. Também conhecido como Noite Italiana, já se tornou uma tradição local. Neste ano, foi feito um baile beneficente antes do Carnaval, com marchinhas antigas.


Integrante de cavalaria passa em frente ao templo de São Benedito

Com o dinheiro arrecadado e a renda do aluguel das barracas é possível cobrir os custos gerais da festa, que ultrapassam meio milhão de reais. Todos os bairros trabalham para acolher as congadas, e várias famílias as recebem em suas casas, ficando responsáveis também pela sua alimentação. Uma dessas famílias é a de Dona Zizi Macedo (a mais antiga rainha viva do evento), que recebe pelo menos 10 grupos a cada edição.

Bela com a sua decoração de milhares de bandeirinhas, a pequena igreja de São Benedito se torna alvo da atenção e do olhar de vários fotógrafos (profissionais ou não), recebendo a maior parte das celebrações. A festa inicia oficialmente no domingo de Páscoa com a abertura da Novena. Ao longo da semana acontecem as primeiras atividades, como as gincanas escolares e o leilão de gado, além da novena diária.

Na manhã do sábado seguinte à Páscoa, com o Acolhimento das Congadas no Santuário, têm início as principais atividades da festa. Na tarde desse mesmo dia, é celebrada a Consagração das Congadas na frente da Basílica Velha, um momento de grande emoção para todos que participam e a assistem. Após a celebração externa, elas entram na basílica, uma de cada vez, para receber a bênção de Nossa Senhora.

O domingo começa com a Missa Conga, um grande ritual a céu aberto na frente da Igreja de São Benedito. De tarde, acontece a procissão do mastro, que começa na casa do Capitão do Mastro, responsável por sua preparação, com uma nova pintura a cada ano. O capitão acompanha os reis e a Irmandade de São Benedito à frente do desfile, seguidos por dezenas de congadas. Este cortejo é uma demonstração de fé e agradecimento pelas conquistas atingidas no ano. Carregado pelas mãos e nos ombros de pelo menos 50 devotos (além de milhares de pessoas que caminham junto), o mastro é levado até a frente da igreja de São Benedito, onde será depositado. Esse é o ponto alto da festa, que simboliza a ligação da terra com o céu, quando ele é fincado ao chão. A sua importância pode ser medida pelas congadas que ficam esperando para benzê-lo. Todas o fazem, além das pessoas que escrevem nele e ficam ali, rezando.


A cada ano, são escolhidos os regentes, a exemplo da rainha

“A cada ano vem aumentando a quantidade de bilhetes e sacos de sementes que são depositados no local que recebe o mastro. Só uma das escolas locais envia uma caixa cheia de bilhetes”, destaca Ernesto Elache, presidente do sindicato de hospedagem e alimentação, e voluntário há quase três décadas no levantamento do mastro. Após o levantamento do mastro, a cavalaria sobe pela rua lateral da igreja até a Basílica Velha e, na descida, passa na frente da Igreja de São Benedito, homenageando-o.

Um dos destaques da festa, principalmente para as crianças, são os bonecos Maria Angu e João Paulino. Semelhantes aos bonecos de Olinda, foram trazidos de São Luiz do Paraitinga para Aparecida no ano de 1974, sendo uma presença marcante nas congadas, desde então.

São representações tradicionais das figuras masculina e feminina, sendo Maria Angu o símbolo da mulher bem-vestida, contente e festiva e o João Paulino, o homem que escolhe sua melhor roupa para a festa. Surgiram outros bonecos, como a Miota (a loira fofoqueira) e a Bruxa, sempre horrível e assustadora, que vem lembrar as pessoas tristes, que não gostam de festas e, por isso, sai espantando as crianças na volta para casa. Para marcar a presença dos animais, foi criada a Vaca Louca, que mais parece um boi-bumbá de São João.


Após procissão, mastro é fincado em frente à Igreja de São Benedito

Chamada de Dia da Grandiosa Festa, a segunda-feira é feriado municipal. Às 5 horas, acontece a Alvorada na frente da Igreja de São Benedito, e o mastro é reverenciado pelas congadas e moçambiques. Na porta da casa dos reis da festa, prepara-se uma grande e larga mesa, na qual é servido o café da manhã para as congadas. Após o desjejum, os reis saem em direção ao palco montado na frente da igreja para a Missa Solene, que é sucedida pela Benção dos Doces e a sua distribuição (mais de 10 toneladas no total).

Antes, as cerca de 10 mil toneladas de doces distribuídas eram produzidas em Aparecida, mas desde o início deste século são fornecidas por fábricas, que entregam os três sabores (abóbora, mamão e batata). Uma equipe com mais de 100 pessoas organiza as porções em embalagens. Junto com os doces, são entregues 10 mil imagens do santo e 10 mil pães. A fila dá voltas em quarteirões, já que a maioria dos devotos acredita que o Doce de São Benedito pode curar doenças e melhorar a saúde.

A procissão final acontece no meio da tarde, em louvor ao santo. Trata-se de um grande desfile, com a corte dos reis e andores, além das congadas e diversas alas de moradores. De noite, para fechar a festa, o público aproveita para comer um saboroso sanduíche de linguiça, numa das várias barracas na praça da Igreja de São Benedito. Momento de descanso das atividades do dia, no qual se relembram os momentos vivenciados ao longo das celebrações. 

MÁRCIO RM, fotógrafo, com projeto de mapeamento das festas populares.

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