Clique ao lado para visualizar o sumário da nova CONTINENTE.

Arquivo

A cidade dos mortos e os processos de favelização

TEXTO Amanda Martinez Elvir

01 de Janeiro de 2014

No Cairo, 1 milhão de pobres usa as sepulturas como residências

No Cairo, 1 milhão de pobres usa as sepulturas como residências

Foto Divulgação

Há 42 anos, o arquiteto norueguês Christian Norberg-Schulz falava que a casa continuava sendo o lugar central da existência humana, o espaço em que a criança aprende a compreender sua existência no mundo e o lugar de onde o homem parte e regressa.

Neste momento, a construção de um edifício de apartamentos está sendo concluída. Uma família está se mudando para uma casa, enquanto outras famílias se preparam para sair em busca de uma. Os processos de urbanização nas grandes cidades geram enormes quantidades de complexos habitacionais, vendendo o sonho da casa ideal para milhares de famílias. Na publicidade desse sonho, o lar está rodeado de áreas verdes e dos elementos que constituem, na sociedade atual, a moradia ideal para formar um lar.

Aqueles que não têm recursos suficientes são forçados a abandonar as áreas urbanizadas e se lançar à moradia ilegal. Os expulsos, na sua maioria desempregados, migrantes, pessoas sem documentos, são levados a habitar na periferia das cidades, nos morros e, no caso deste relato, nos cemitérios.

A Cidade dos Mortos, no Cairo, é a maior necrópole do mundo. Nela, 1 milhão de pobres usa as sepulturas como módulos habitacionais. O teórico urbano Mike Davis cita o pesquisador da American University do Cairo, Jeffrey Nedoroscik, no que este observa: “Os invasores adaptaram os túmulos com criatividade para atender às necessidades dos vivos. Os cenotáfios e placas fúnebres são usados como escrivaninhas, cabeceiras, mesas e estantes. Barbantes amarrados entre as lápides servem para secar a roupa”.

O Cairo já foi uma cidade de 29 sinagogas, e grupos menores de invasores ocuparam cemitérios judaicos abandonados. Numa visita a essa cidade, na década de 1980, o jornalista Max Rodenbeck escreveu como encontrou um jovem casal com quatro filhos instalado com todo o conforto num sepulcro neofaraônico de especial esplendor. “Os moradores do túmulo tinham aberto o clumbário e viram que era um prático armário embutido para roupas, panelas e um televisor em cores”, disse.

Conforme o cemitério foi sendo povoado, surgiram pequenos prédios ao redor das tumbas. Logo apareceram padarias, cafés, um mercado, escolas para as crianças e oficinas mecânicas.

Por fora, as tumbas são vistas apenas como um espaço vazio, onde descansam os restos mortais de seres humanos. Por dentro, milhares de famílias ocupam esses espaços, criando neles um lar no qual os vivos moram com os mortos.

Segundo a tradição cairota, os antigos cemitérios eram construídos com quartos e terraços para receber as famílias dos falecidos. Por essa razão, aqueles que fugiram do alto custo do aluguel e da vida urbana foram povoar aquele cemitério. Em algumas tumbas, chegam a dormir 10 pessoas.

Entre o ano 2007 e 2009, o cineasta português Sérgio Tréfaut realizou um documentário sobre a Cidade dos Mortos, e entrevistou alguns de seus moradores. Dentre os relatos capturados por Tréfaut, observam-se distintas posturas e reações sobre a vida num ambiente fúnebre.

Uma mulher que foi levada para morar no cemitério, quando ainda era uma adolescente, fala como seu coração foi ficando duro, ao conviver com enterros na cotidianidade do “bairro”. A mulher conta que há ocasiões em que o cheiro nas tumbas é insuportável.

São várias as razões pelas quais esse cemitério está povoado. Algumas famílias moravam no centro do Cairo ou em prédios caindo aos pedaços. Muitos foram expulsos das suas antigas moradias, pelo perigo que representavam ou por causa dos projetos urbanos que embelezavam o centro da cidade e encareciam o custo de vida, de serviços e de aluguel dos seus antigos moradores.

No entanto, morar no cemitério não foi a opção mais econômica ou mesmo gratuita. Alguns proprietários permitem que as famílias vivam sem custo em seus mausoléus, mas nem todos tiveram a mesma sorte, pois há os que cobram aluguel. O problema foi que, depois das expulsões, ninguém encontrou lugar para morar na região. A ocupação da necrópole é ilegal. Por causa disso, centenas de moradores vivem sem eletricidade, água potável e serviços públicos, como esgoto ou coleta de lixo.

SEGREGAÇÃO
A professora Ermínia Maricato, da Universidade de São Paulo, explica que, com o pretexto do saneamento e da modernização das cidades, são expulsas massas de população, que constroem moradias em terrenos irregulares, como morros, beiras de rios e, como vimos, nos cemitérios. “Esse processo segregacionista que expulsa diversas camadas sociais da cidade formal não só ocorre nas camadas mais pobres. Empregados de indústrias também se veem forçados a morar em favelas e assentamentos irregulares, já que os salários pagos pela indústria e as políticas públicas de habitação não são suficientes para garantir as necessidades de moradia desses grupos sociais”, disse a urbanista.

Por motivos semelhantes, o cemitério de Navotas, em Manila, Filipinas, está habitado. Suas ruas são delimitadas por linhas de tumbas e, nelas, entre uma alta acumulação de lixo, nascem pequenas casas de papelão.

O Brasil não é uma exceção, no que diz respeito aos pobres construírem moradias ilegais e em condições adversas. Em outubro de 2013, um jornal gaúcho publicou matéria sobre um grupo de moradores de rua que invadiu um cemitério em Sapucaia do Sul, na região Metropolitana de Porto Alegre. “Para escapar do frio do inverno gaúcho, homens e mulheres fizeram dos jazigos e túmulos uma casa improvisada”, dizia a notícia.

Como descreveu, em Planeta favela, Mike Davis: “As cidades do futuro, em vez de feitas de vidro e aço, como fora previsto por gerações anteriores de urbanistas, serão construídas, em grande parte, de tijolo aparente, palha, plástico reciclado, blocos de cimento e restos de madeira. Em vez das cidades de luz arrojando-se aos céus, boa parte do mundo urbano do século 21 instala-se na miséria, cercada de poluição, excrementos e deterioração”.

A professora Maria de Lourdes Zuquim, da Universidade de São Paulo, explica que o problema da moradia dos pobres nos países periféricos guarda semelhanças e diferenças. Entre as diferenças, podemos observar os processos de construção social e histórica do Egito e do Brasil. Ainda que diversos, os países se assemelham ao gerar condições de pobreza que convertem um cemitério numa grande vizinhança. A doutora em Arquitetura diz que basta olhar para as dinâmicas de exclusão à terra urbanizada e moradia digna. Se consideramos a informalidade e a precariedade como características da ausência do estado de bem-estar social, poderíamos concluir que essa situação se agrava quando operários recebem baixos salários em troca de prolongadas horas de trabalho em empresas e indústrias que não reconhecem a dignidade dessa produção.

Noberg-Schulz afirma que o interior de uma casa funciona como um lugar próprio para os seres humanos somente quando o lar é aquele espaço que sustenta nossos mundos particulares. A Cidade dos Mortos e as milhares de favelas do mundo desafiam esse conceito. Apesar da pobreza a que tem sido condenada grande parte da população urbana, surgem testemunhas das tentativas de transformar a cidade e criar um espaço digno nos lugares mais impensáveis. É como se essas populações reinventassem o espaço, em que a tumba já não é só um lugar no qual descansa o morto, mas também onde nasce uma criança, constrói-se uma família e, dentro do ambiente fúnebre, cria-se também um lugar de convivência tal como uma grande sala de estar para passar os domingos. 

AMANDA MARTINEZ ELVIR, arquiteta, formada no México e nos EUA.

Publicidade

veja também

Polytheama: O cinema à espera de espetáculos

Lanzarote: A ilha de Saramago

Jean-Louis Comolli: Os limites do visível

comentários