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Salvador Dalí: Mergulho visual no Surrealismo

Artista catalão organizou, sob as ruínas do teatro de Figueres, sua cidade natal, museu com o maior acervo de sua obra

TEXTO E FOTOS AUGUSTO PESSOA

01 de Setembro de 2013

Na fachada, há esculturas em formato de ovos e pães

Na fachada, há esculturas em formato de ovos e pães

Foto Augusto Pessoa

Fechando levemente os olhos, como que imitando orientais, homens e mulheres pelejam para decifrar o imenso quadro à sua frente, enquanto jovens quebram a cabeça para descobrir o que significa um Cadillac preto, 1942, cheio de água, estacionado no jardim. Salvador Dalí viveu e foi sepultado num teatro espanhol transformado, por ele, em museu.

Muito mais que um patrimônio arquitetônico, o conjunto exposto na pequena cidade espanhola de Figueres oferece um mergulho visual no universo surrealista de um dos mais polêmicos e criativos ícones da arte contemporânea. Através de escadarias que não levam a lugar nenhum, somos surpreendidos a cada esquina com os delírios visuais do gênio da pintura, da excentricidade e da provocação. Segundo o próprio Dalí, o objetivo não era colocar peças dentro de um prédio, mas, antes, fazer da própria construção uma obra de arte.


Há também nichos com imagens oníricas femininas

Qualquer dúvida quanto ao sucesso da ideia é rapidamente dissipada quando percorremos essa que é umas das duas maiores coleções do pintor catalão. A fachada do prédio é a primeira instalação. As paredes estão repletas de esculturas em forma de pães e o telhado abriga dezenas de ovos gigantes. Nas janelas, emolduradas por plantas, esculturas femininas parecem flutuar. O Museu-Teatro Dalí foi inaugurado em 1974 e foi construído sobre as ruínas do antigo teatro municipal da cidade, destruído durante a Guerra Civil. Poucos artistas tiveram a chance de organizar o próprio museu, como teve Dalí. Tudo lá dentro foi pensado por ele, que fez peças especiais para a instituição. A coleção de mais de 4 mil obras é gerenciada pela Fundação Gala-Salvador Dalí e inclui pinturas, esculturas, instalações, fotografias, móveis e joias.


Museu foi arquitetado pelo próprio artista, nos seus últimos anos de vida

Algumas dessas coleções possuem a qualidade de lançar um novo olhar sobre a vida e a obra do pintor, e colocar um pouco mais de lenha na fogueira de polêmicas que desde cedo acompanhou a obra do artista, a exemplo da exposição Aliyah, the rebirh of Israel, que traz uma série pouco conhecida de 25 litografias coloridas, produzidas entre 1967 e 1968 para comemorar os 20 anos de fundação do Estado de Israel.

Além de impressionar pelos traços, os desenhos levantam perguntas até hoje sem respostas. Será que Dalí teria antepassados judeus? Ou sua intenção era simplesmente explorar o tema para benefício comercial? As dúvidas surgem quando especialistas apontam certo fascínio do pintor por ditadores como Hitler e Franco, o que teria causado sérios problemas entre seus colegas surrealistas. Talvez a verdade esteja mais próxima da interpretação de David Blumenthal, professor de estudos judaicos: “Eu acho que Dalí não era ideologicamente racista, antissemita, comunista, socialista, fascista ou qualquer coisa. Ele era um artista. Ele absorveu tudo, transformou e depois nos devolveu com arte”.

OBRAS
Esse poder de reinvenção dos surrealistas ganhou, com Dalí, a máxima expressão na montagem do seu museu particular. A partir de uma pintura a guache, produzida na década de 1930, sobre uma fotografia da atriz americana Mae West, Dalí concebeu a ideia de um apartamento onde os cabelos seriam a cortina, os lábios o sofá, o nariz uma lareira e os olhos pinturas fixadas na parede. Na década de 1960, com a ajuda do arquiteto espanhol Óscar Tusquets, Dalí reproduziu a pintura em três dimensões, sendo essa uma das mais visitadas salas da instituição e um exemplo claro da fixação surrealista do pintor levada às últimas consequências.


Algumas obras foram criadas em relação com o espaço, que
também abriga acervo de épocas distintas

Já o imenso quadro Gala contemplando o mar revela o aspecto enigmático da obra do artista. De perto, vê-se claramente uma mulher – sua esposa – à janela, apreciando o mar. Mas é só recuar alguns passos e cerrar levemente os olhos, que a pintura se transforma num nítido retrato de Abraham Lincoln. Quem não quiser pagar o “mico”, é só depositar alguns centavos e verificar a transformação através de um binóculo fixo.


Sala Mae West foi projetada por Dalí, a partir de pintura do rosto da atriz americana

Numa das janelas externas do prédio, surge um escafandrista em tamanho natural, uma alusão aos anos 1930, quando Dalí compareceu à Exposição Surrealista Internacional de Londres vestindo um escafandro. Até o quarto do pintor virou atração, seus móveis, roupas e objetos pessoais. Além de obras de arte originais, muitas peças espalhadas pelo museu são apenas referências à vida e à obra do pintor, compondo um mosaico de instalações biográficas que contam um pouco da história do Surrealismo e tentam explicar o que para muitos é conceitualmente inexplicável.


Coleção inclui mais de 4 mil obras, entre pinturas, esculturas, instalações, fotografias, móveis e joias

CLIMA DA CIDADE
Pelas ruas de Figueres, o clima surreal dá o tom. Vacas coloridas nas varandas de hotéis e restaurantes são cenas tão comuns quanto esculturas fixadas no alto de uma pilha com dezenas de pneus. Antes de voltar à vida real, no entanto, a dica é passar pela Livraria Surreal, que funciona em anexo ao museu e que oferece livros, réplicas de pinturas e objetos mais prosaicos, como camisas com reproduções de obras de Dalí.

Um dos artistas mais célebres e reconhecidos do mundo, mas também um dos mais controversos, Salvador Dalí é ainda admirado por ter montado, ele mesmo, o próprio museu. Organizar um acervo tão diverso, de uma forma que fosse minimamente racional, não parece ter sido tarefa das mais fáceis e preencheu cada segundo dos últimos anos de vida do artista.


Cidade espanhola de Figueres exibe nas ruas a influência do surrealista

Vivendo numa época em que a pintura parecia ameaçada pela fotografia, pelas instalações e pela arte conceitual, Dalí se colocou na vanguarda, assumindo essas novas expressões e reunindo-as num único lugar, transcendendo e mantendo vivo o poder expressivo da pintura e a relevância da loucura para a arte.

Para Sigmund Freud, o surrealismo de Dalí teve o poder de modificar sua visão negativa acerca do movimento. Numa famosa crítica, ele elogia o pintor catalão e finaliza dizendo que: “de qualquer modo, ele tem sérios problemas psicológicos”. 

AUGUSTO PESSOA, fotógrafo e jornalista.

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