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Mercado: Fábrica nacional de quadrinhos

Roteiristas, desenhistas, coloristas e diagramadores que integram nova geração de profissionais das HQs brasileiras vislumbram cenário alternativo e promissor para a nona arte no país, hoje

TEXTO Márcio Padrão

01 de Abril de 2013

Quadrinhos da Icon Comics têm roteiro de Matt Fraction e arte dos gêmeos Gabriel Bá e Fábio Moon

Quadrinhos da Icon Comics têm roteiro de Matt Fraction e arte dos gêmeos Gabriel Bá e Fábio Moon

Imagem Reprodução

Até 2007, os irmãos gêmeos paulistanos Gabriel Bá e Fábio Moon já tinham uma carreira respeitável no mercado brasileiro de quadrinhos. Eram donos de vários Ângelo Agostini e HQ Mix – os prêmios máximos do setor – por conta de trabalhos como a série de livros 10 pãezinhos, adaptados de um fanzine criado pela dupla em 1999. Aquele ano representou uma guinada para eles, com o convite para desenhar Umbrella Academy, série da editora norte-americana Image Comics criada por Gerard Way, roteirista e músico da banda My Chemical Romance. Até então, Moon e Bá dividiam suas atividades profissionais com ilustrações em jornais, revistas e storyboards. O trabalho para a Image, porém, demandava mais tempo e compensava o investimento. Portanto, só a partir dele passaram a ser quadrinistas em tempo integral.

O exemplo dos gêmeos nos norteia quanto à atual geração de brasileiros que vivem da nona arte. Capitaneados por talentos como Moon e Bá, são representativos dessa safra artistas como Rafael Grampá, Danilo Beyruth, Rafael Albuquerque, Rafael Coutinho, Gustavo Duarte e os irmãos Vitor e Lu Cafaggi. Em comum, possuem uma combinação de qualidade narrativa, bagagem cultural e interesse crescente em publicar seus trabalhos no Brasil, mas também no exterior. Veem na internet uma ferramenta fundamental para sua divulgação e realizarção de contatos, além de visarem cada vez menos as bancas de revistas e mais as livrarias. As prateleiras exclusivas para quadrinhos se tornaram espaços disputados, nos quais os autores conseguem a atenção de todos os públicos, mas com foco no adulto.


HQ de Rafael Albuquerque, American vampire ganhou o Eisner
de Melhor Série Nova, em 2011. Imagem: Reprodução

A perseverança e a evolução dos brasileiros, aliadas ao know-how de editoras como Companhia das Letras, Zarabatana e Panini, têm rendido não apenas a sonhada publicação, mas prêmios aqui e no exterior.

Danilo Beyruth conquistou, em 2011, três prêmios HQ Mix pelo álbum Bando de dois, baseado no período do cangaço nordestino, e Birds, de Gustavo Duarte, recebeu prêmio de Publicação Independente de Autor no HQ Mix do ano passado, só para ficarmos em dois exemplos no território nacional. Lá fora, Moon e Bá já ganharam quatro Eisner (em 2008 e 2011) e três Harvey Awards (em 2008, 2009 e 2011). A colorista gaúcha Cris Peter também foi indicada ao Eisner em 2012, por seu trabalho em Casanova, da Icon Comics, com roteiros de Matt Fraction e arte dos gêmeos paulistanos. Rafael Albuquerque, desenhista da série American vampire, da DC, teve reconhecimento por meio do Eisner de Melhor Série Nova, obtido em 2011.


Ilustração de Vitor Cafaggi para coletivo de quadrinistas mineiros.
Imagem: Reprodução

“Desde que trabalho nessa área, há mais de 20 anos, vejo este como o melhor momento do quadrinho brasileiro”, atesta Sidney Gusman, editor do site especializado Universo HQ e responsável pelo planejamento editorial da Mauricio de Sousa Produções. Gusman lembra que a Ebal, editora pioneira de quadrinhos no país, em sua fase áurea nos anos 1950 e 1960, também publicou muitos trabalhos de brasileiros. “Não tenho acesso aos números da Ebal para comparar comercialmente, mas, em termos de criatividade, reconhecimento e qualidade de material, o momento atual dos nossos quadrinhos vem sendo o melhor. Por anos se falava que não tínhamos bons roteiristas, por exemplo. Uma bobagem. Com o MSP 50 deu para ver o tanto de gente que está fazendo quadrinho bom nesse país.” Gusman refere-se ao projeto MSP 50, que começou em 2009, como uma homenagem às cinco décadas de carreira de Mauricio de Sousa (leia a matéria a seguir).


Autor de Monstros, Gustavo Duarte já recebeu três prêmios HQ Mix. Imagem: Reprodução

DIVIDIDOS
Por mais que a maré esteja a favor dos artistas nacionais, eles ainda enfrentam problemas antigos, como a distribuição insuficiente, as carências do mercado editorial brasileiro e a dificuldade em atrair o interesse de quem não lê ou deixou de ler HQs. Nesse aspecto, Moon e Bá são espécimes raros, pois poucos quadrinistas brasileiros conseguiram a independência financeira trabalhando apenas com esse ramo. Geralmente, dividem o tempo entre projetos em publicidade, ilustração e afins.

Vitor Cafaggi, autor de Puny ParkerDuo:tonePequenos heróis e Valente, dá aula de desenho em duas escolas para completar a renda. No caso dele, não é um problema, porque gosta tanto das aulas quanto de produzir quadrinhos. “Aprendo muito dando aula e me mantenho mais atualizado e esperto”, afirma o desenhista mineiro, cuja tira Valente sai pelo jornal O Globo e já rendeu dois álbuns de coletâneas.


A tira Valente, de Vitor Cafaggi, é publicada no jornal O Globo e já rendeu duas coletâneas. Imagem: Reprodução

Os prêmios de Danilo Beyruth ainda não foram suficientes para que ele deixasse seu outro emprego. “Como o trabalho em quadrinhos no Brasil não dá retorno suficiente para sobreviver dele, o maior problema é achar o tempo para dividir com outra atividade profissional. Atualmente, trabalho numa agência de propaganda. Faço HQ na hora do almoço e à noite”. Gustavo Duarte, por sua vez, trabalhou por 12 anos fazendo cartuns e ilustrações para o jornal esportivo Lance e hoje faz trabalhos freelancers para jornais como a Folha de S.Paulo.

Rafael Coutinho, que seguiu a carreira do pai, Laerte, e cujo trabalho mais conhecido é Cachalote (2010), em parceria com o escritor Daniel Galera, tem uma opinião otimista sobre esse panorama. “Trabalho com diferentes coisas, mais por prazer de fazê-las do que por necessidade. Minha condição é mais pautada pelo fato de ser autônomo do que de ser quadrinista, ilustrador ou pintor. É possível viver de quadrinhos no Brasil, a questão não é essa. Os quadrinistas brasileiros não estão interessados em trabalhar com franquias, querem fazer seus trabalhos autorais, e querem coisas muito diferentes uns dos outros. Há a questão óbvia do mercado diminuto no país, mas quadrinistas europeus também ‘frilam’ para viver, americanos idem. São artistas com um perfil autoral, que não ganham por página feita, e, sim, por adiantamento de royalty. Ninguém paga as contas com isso; é preciso ‘frilar’, e isso no mundo todo.”


Gêmeos Gabriel Bá e Fábio Moon hoje trabalham com HQ em tempo integral.
Foto: Divulgação

O xará de Coutinho, Rafael Albuquerque, vai na direção oposta. “Nunca entrei no nicho de HQs do Brasil. Publiquei coisas que, em geral, foram feitas para fora, exceto por uma ou outra coisinha independente. Me arrisco a dizer que o Brasil ainda nem tem um mercado, propriamente dito. Uma cena, promissora, me parece mais adequado.” Já Fábio Moon diz que a meta dele e de seu irmão é tentar oscilar entre propostas externas e nacionais, embora tenham pendido para o primeiro lado na maior parte de suas carreiras.

“Quando a gente começou, praticamente não havia um núcleo nacional de quadrinhos, só Mônica e super-heróis. As editoras voltaram a publicar trabalhos nacionais em meados de 2000, em preto e branco, e só em 2005 vieram os coloridos. O mercado brasileiro tem um limite que, hoje em dia, é maior. Para esse mercado crescer, é preciso que o artista tenha paciência, pois às vezes a publicação não depende só dele.” Satisfeitos com a repercussão de seu último álbum autoral, Daytripper, hoje os gêmeos estão comprometidos com uma minissérie do universo de Hellboy, de Mike Mignola, e a adaptação do livro Dois irmãos, de Milton Hatoum.


A colorista gaúcha Cris Peter foi indicada ao Eisner, em 2012, por seu trabalho em Casanova. Foto: Divulgação

Na opinião de Sidney Gusman, há dois aspectos que diferenciam essa geração dos quadrinistas brasileiros surgidos em outras décadas. A primeira é a capacidade “multimídia”. “Hoje, eles aparecem mais em entrevistas na TV, fazem roteiros para cinema, adaptações para teatro”, explica. São os casos do curitibano José Aguiar, que teve suas obras Folheteen e Vigor mortis comics levadas para os palcos; e Rafael Grampá, que tem garantida uma adaptação para o cinema da sua obra Mesmo delivery. A outra característica destacada por Gusman é que os artistas leem mais e trazem influências de outras áreas. Gustavo Duarte é um exemplo: entre seus mestres, estão não apenas Will Eisner e Sérgio Aragonés, mas Jim Henson, criador dos Muppets.

O resultado disso é que a geração 2010 da HQ brasileira é capaz de atingir todos os gêneros e públicos, e está ajudando a afastar o clichê de que o quadrinho nacional só tem força no humor. Moon e Bá focam em histórias com forte carga emocional; os irmãos Cafaggi tem um estilo mais “fofo” e com temática adolescente; Danilo Beyruth vem transitando entre a aventura, a ficção científica e o horror.


Gustavo Duartre trabalhou por 12 anos fazendo cartuns e ilustrações para o jornal esportivo Lance. Foto: Divulgação

Com o cenário pronto, o que falta é conseguir mais leitores. Os entrevistados se dividem: uns defendem que o caminho é voltar a lançar trabalhos nas bancas, outros estão satisfeitos com o espaço nas livrarias. Distribuição à parte, todos são unânimes ao afirmar que é fundamental ter boas histórias.

Para a colorista Cris Peter, nenhum desses artistas atuais possui um estilo de arte que as editoras escolhem usualmente como padrão de suas histórias, por isso eles tiveram de fazer os próprios caminhos, investindo tempo e dinheiro para conseguir publicar suas criações.


Rafael Albuquerque faz trabalhos diretamente para o mercado internacional.
Foto: Divulgação

“Eles realmente são o time completo dentro de um corpo. Todos são roteiristas, desenhistas, coloristas e diagramadores. Cada um é uma fábrica de quadrinhos inteirinha. Graças ao trabalho deles, os fãs de quadrinhos estão enxergando que o talento está aqui mesmo”, defende Peter. Sidney Gusman também dá uma dica: “Aos que já leem a produção nacional, sugiro que deem um quadrinho de presente a quem não lê, para que passe a conhecer e gostar. Esse é o desafio dessa geração: disseminar em todo mundo o vício de leitura dos bons quadrinhos”. 

MÁRCIO PADRÃO, Jornalista e autor do blog de cultura pop Quadrisônico.

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