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“Eu sou uma escritora ocasional”

Autora e ilustradora de livros infantis, Mariângela Haddad fala sobre a trajetória que a levou ao mercado editorial e sobre os meandros do processo criativo

TEXTO Gianni Paula de Melo

01 de Março de 2013

Mariângela Haddad

Mariângela Haddad

Foto Divulgação

Ilustradora profissional e escritora ocasional, é assim que a mineira Mariângela Haddad percebe sua atuação nestes dois campos artísticos. Embora tenha se formado em Arquitetura, exerceu a profissão por pouco tempo, e se aventurou não só nas áreas já citadas, nas quais é mais conhecida, mas também foi tradutora, desenvolveu brinquedos pedagógicos, fez roteiros e trabalhos com cenografia. Suas duas obras principais foram premiadas em concursos nacionais. A primeira, O sumiço da pantufa, venceu o tradicional Barco a Vapor, organizado pela Edições SM. Já a sua mais recente publicação, O mar de Fiote, foi campeã da categoria infantil, do II Concurso Cepe de Literatura Infantil e Juvenil, promovido pela Companhia Editora de Pernambuco. Em conversa com a Continente, a escritora falou um pouco sobre essas duas publicações, seu processo criativo, sua carreira e o forte viés biográfico do livro O mar de Fiote.

CONTINENTE Como surgiu a ideia de escrever o livro O sumiço da pantufa?
MARIÂNGELA HADDAD Queria escrever uma história, mas não era escritora de carreira. Sou ilustradora e gostaria de trabalhar para uma editora específica, que não contrata, porque tem lá o seu time de ilustradores. Mas ela tem um concurso e eu pensei: “Vou entrar nesse concurso e, se ficar entre os finalistas, peço pra ilustrar a minha história”. Aí, um dia, decidi ir nadar e disse para mim mesma que só sairia da água quando tivesse uma história alinhavada. Fiquei duas horas nadando. Quando cheguei em casa, escrevi das sete da noite até sete da manhã, dormi um pouquinho, corrigi, xeroquei e mandei. Este foi o trabalho que rendeu o meu primeiro prêmio, o do Barco a Vapor.

CONTINENTE Como é conciliar a rotina de trabalho com essas atividades de criação mais pessoal?
MARIÂNGELA HADDAD O episódio que contei foi numa época em que eu tinha pouco trabalho, porque atuo de uma maneira muito sazonal. Tem hora que fico igual a uma louca, trabalho dia e noite, varo madrugadas e, depois, passo uma temporada sem quase nenhum trabalho. É quando desenvolvo meus próprios projetos. Nesta fase do livro, estava numa calmaria e comecei a ler muito romance policial, aí pensei em fazer um policial para criança. Faltavam dois dias pra terminar o prazo de inscrição do prêmio, então fiz as cópias, mandei pelos Correios e depois enviei para uma amiga escritora. Lembro que ela me falou: “Espera um pouco, guarda o texto, coloca numa gaveta e daqui a seis meses você pega, porque os personagens vão ter amadurecido”. E eu pensei: “Danou-se! Já mandei!”. Fiquei sem nenhuma expectativa, sabe? Esqueci. Mas acabei ganhando.

CONTINENTE Mas não foi o seu primeiro livro, não é?
MARIÂNGELA HADDAD Foi o meu primeiro livro. Escrevi há muitos anos, no início da minha carreira de ilustradora, dois livros sob encomenda, para uma gráfica que precisava de dois lançamentos administrativos, mas depois disso não fiz mais nada. Porque não sou uma escritora constante, sou mesmo uma escritora ocasional, como deu para perceber na história com o Barco a Vapor. No caso do concurso da Cepe, eu já tinha um texto bem encaminhado e fiquei sabendo do edital na última hora. Na época em que tinha sido adiado o prazo de entrega, eu tinha acabado de entrar no Facebook e alguém postou sobre isso na rede social. Também enviei sem nenhuma expectativa.

CONTINENTE Você poderia falar um pouco sobre sua obra mais recente, O mar de Fiote
MARIÂNGELA HADDAD O mar de Fiote é uma mistura, porque os personagens talvez tenham sido os da minha infância. Morei numa casa desse jeito que falo no livro, com um quintal pelado, sem árvore, que tinha galinha, uma gangorra e um morrinho. Nesse morro, fizemos uma caverna; nós éramos muitos irmãos e ficávamos lá. Na época, eu tinha um vizinho muito misterioso, ranzinza, que morava em um terreno enorme cheio de mangueiras. Então, o cenário do livro é super-real, o vizinho também é real, mas ele não era francês e nunca fizemos contato com ele. Era um cara neurótico, que não nos deixava pegar manga e atirava com espingarda de chumbinho. Já a tal casa do Fiote é a casa dos meus sonhos, da minha infância. Uma casa fantasiada que era muito velha e tinha sótão, tinha porão, tinha histórias malucas que minha mãe contava, tinha seus mistérios, uns quartos que ninguém usava. Era um lugar muito inspirador e tive uma infância muito rica nessa coisa da imaginação, logo, esses personagens ficaram.

CONTINENTE Como é o processo de decisão da técnica de ilustração para uma obra? Quais você costuma utilizar mais?
MARIÂNGELA HADDAD Quando ilustro, pego o texto e escolho logo a técnica, porque definir isso me ajuda muito. Bom, já não uso muito aquarela, por exemplo, mas uso xilogravura, uso ecoline, trabalho muito no computador, em programas que simulam estas técnicas. Também adoro carvão seco e uso muito lápis.

CONTINENTE Você trabalha como ilustradora, mas se formou em Arquitetura. Como foi que se deu esse redirecionamento profissional?
MARIÂNGELA HADDAD Formei-me na França e, quando voltei para o Brasil, não tinha muito como trabalhar. Arquitetura é uma profissão na qual você precisa conhecer gente da área. No entanto, na França, tinha estudado na Faculdade de Belas Artes e convivia muito com esse mundo artístico. Quando cheguei ao Brasil, fui fazer um curso de história em quadrinhos e um professor disse para eu ir a uma editora. Naquela época, o mercado da literatura infantil estava crescendo, foi quando surgiram autores como a Ana Maria Machado e Ruth Rocha. Passei muito aperto, mas comecei a pegar trabalhos na editora Moderna. Só que ela teve um racha interno e um grupo saiu para montar a Scipione. Conhecia muito a pessoa que estava à frente da Scipione e ela me convidou para fazer livros didáticos. Nos 12 anos em que morei em São Paulo, trabalhei para praticamente todas as editoras da cidade, tanto na literatura quanto em didáticos. Também criava muitos brinquedos pedagógicos para uma fábrica chamada Toyster, bem no comecinho da história da marca. Fiz um pouco de tudo: roteiro de cinema, cenografia, moda.


Imagem: Mariângela Haddad/Divulgação

CONTINENTE E, antes disso, você tinha ido pra França especificamente para estudar?
MARIÂNGELA HADDAD Fui adolescente, na época da ditadura, e cursava Arquitetura em Belo Horizonte, quando o Médici assumiu, foi um tempo muito duro. Não fui perseguida política, nem nada disso, mas quis ir embora, sabe? Tava muito ruim aqui. Estava na metade do curso, quando viajei e tive que repetir um ano, sem contar que, na França, eram seis anos ao todo, então demorei bastante para me formar. Quando voltei, trabalhei com tradução, ainda trabalho com isso. Acabei de traduzir um livro de filosofia para a Autêntica, direcionado ao público infantil.

CONTINENTE Qual a diferença de ilustrar uma obra própria e uma assinada por outro escritor? Não existe nenhum livro seu ilustrado por outra pessoa, certo?
MARIÂNGELA HADDAD Não, acharia muito estranho ter meu livro ilustrado por outra pessoa. Os escritores, quando escrevem, têm uma ideia de como eles veem a história. Alguns tentam me dizer o que eles querem que eu faça, mas detesto isso. Porque tenho um jeito de ler a história, faço uma leitura particular, como acho que a criança também vai fazer a dela, diferente da do escritor e da minha. Todas as vezes em que tive contato com o autor deu alguma confusão. Teve uma autora que disse que eu era a “mão dela” e deixei logo claro que não era. Já sofro uma pressão justificada quando faço livro didático, porque se resolver desenhar uma célula como acho que é uma célula, então muda tudo na biologia. Penso que, na literatura, temos que ter a licença para fazer do nosso jeito, tentar contar uma historinha paralela.

CONTINENTE Você já escreve sabendo como os livros serão visualmente
MARIÂNGELA HADDAD Sim. O sumiço da pantufa é formado por depoimentos de oito personagens que participaram do sumiço de uma pantufa e, para ser bem lógico, quis dar o mesmo espaço para todos, os depoimentos têm o mesmo tamanho. Eu já imaginava que texto ia entrar em cada página, o que ia ilustrar em volta, e tinha o mistério de não poder revelar quem é o culpado. Se pusesse a cara do responsável de forma evidente, acabava o mistério, né? Eu ficava pensando que outro ilustrador não ia entender essa nuance. NO mar de Fiote também achei que tinha que ser eu porque era uma história muito cara para mim, meio autobiográfica.


Imagem: Mariângela Haddad/Divulgação

CONTINENTE Quais escritores serviram de referência quando você começou?
MARIÂNGELA HADDAD Sou muito ruim para guardar nomes e tenho uma confissão: não li Monteiro Lobato quando era pequena. Quando era criança, as coisas não chegavam no interior. Lá em Ponte Nova, por exemplo, não tinha fruta. Lembro que meu pai viajava e chegava com caixas e caixas de frutas diferentes. Fico achando que não tivemos acesso aos livros básicos que depois se tornaram os clássicos das crianças. Agora, tinha um tio que era representante de uma editora no Brasil. Ele visitava colégios no interior e, sempre que passava por nossa casa, levava um monte de livros. Mas eram os que ele queria, não obras que escolhíamos. Lembro muito os livros de contos de fadas, dos Irmãos Grimm, uns contos dinamarqueses e noruegueses que nem sei quem eram os autores. Minha mãe dizia que eu era muito distraída, tinha vários irmãos e eles choravam muito, mas gostava tanto de ler, que nem escutava, só que não lembro muito bem o que é que eu lia.

CONTINENTE Você se considera uma pessoa muito distraída?
MARIÂNGELA HADDAD Todas as vezes que posso, só faço o que gosto. Escolhi essa profissão porque gosto, resolvi me separar porque não gostava mais, resolvi escrever porque gosto, recuso trabalho que não gosto. Acho que já faz um tempo que tento fazer só as coisas que me dão prazer: danço, canto, nado, independentemente se isso vai me dar dinheiro ou não. No fundo, não sou distraída, sou concentrada naquilo que gosto de fazer.

CONTINENTE E essa sua relação com o mar, que parece ser bem forte? Tem um poema da Ana Martins Marques, que também é mineira, no qual ela se questiona se perderia o mar, no caso de tê-lo por perto, como perde seus isqueiros e canetas, coisas baratas e fáceis de encontrar. Sua sensação é parecida com essa?
MARIÂNGELA HADDAD Todo mundo que mora na praia tem o mar como referência, você sabe que anda, anda e acaba no mar, ele é o seu limite. No nosso caso, talvez tenhamos a montanha como limite. Só conheci o mar quando já estava com uns nove ou 10 anos e me lembro de que tinha um irmão de um ano de idade que ainda não sabia andar. Quando chegamos à praia, meu pai abriu o carro e todo mundo saiu correndo, jogando os chinelos, tirando a roupa. Na hora, minha mãe colocou o pequeno em pé na areia e ele também saiu andando atrás. Foi muito marcante, minha mãe ficou boba. É essa atração que o mar tem que, talvez, quem more perto da praia nem perceba. Mas, para nós, que não moramos, é muito fascinante. O mar de Fiote é esse encontro, um bom encontro, talvez a possibilidade de descoberta que ele tem com o vizinho.

CONTINENTE A história do personagem começar a falar depois de receber um presente do vizinho que representava o mar tem relação com essa experiência do seu irmão?
MARIÂNGELA HADDAD Nossa, nunca pensei nisso. Tenho um sobrinho superprotegido, uma criança muito esperada, que demorou muito para chegar, e ele quase não fala. É uma pessoa bem fechada, que só observa, porque tudo que quer a mãe já providenciou, ela oferece o que acha que ele tem que comer, não propõe o que ela acha que ele não tem que fazer. Eu me inspirei muito nesse tolhimento que ele sente por ter tudo adiantadamente. Agora, essa associação que você fez é bem curiosa. Mas acho que O mar de Fiote é a possibilidade do personagem ter alguma coisa dele mesmo, algo que descobriu por conta própria. 

GIANNI PAULA DE MELO, repórter da Continente Online.

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