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Natalinas: Hoje a noite é bela, juntos, eu e ela...

Além de embalar o consumismo, a música pop produzida para o Natal expressa o imaginário da temporada de festas que nos foi legado, sobretudo por artistas norte-americanos

TEXTO Marcelo Abreu

01 de Dezembro de 2012

 A canção popular 'Jingle bells' foi originalmente composta em 1857

A canção popular 'Jingle bells' foi originalmente composta em 1857

Imagem Reprodução

Quando alguém entra numa loja, perto do fim do ano, e escuta pela milionésima vez os acordes de harpa de Luiz Bordón tocando Jingle bells, pode não saber, ou não lembrar, que está experimentando apenas a ponta do iceberg de um movimento gigantesco na música popular de vários países, conhecido como música de Natal. Tendo obtido notoriedade nos Estados Unidos por volta dos anos 1940, com compositores como Irving Berlin e cantores como Nat King Cole, a música natalina continua expressiva, com dezenas de lançamentos todos os anos, nos mais variados estilos. De Bing Crosby a Lady Gaga, quase todo mundo já se aventurou nesse território.

As festas de fim de ano têm gerado, ao longo dos séculos, expressões musicais que vão do folclórico ao erudito – como o oratório O messias, do alemão Georg Friedrich Händel, de 1742, inspirada nos Evangelhos. Mas foi na música popular norte-americana que se consolidou a estética natalina. Ela tem a capacidade de refletir, de forma não religiosa, os valores que povoam o imaginário ocidental na temporada de festas: o encontro com famílias e amigos, o clima de balanço de fim de ano, a esperança para o Ano-Novo, a nostalgia da infância, os presentes, a árvore de Natal, as luzes coloridas das cidades, os pinheiros, Papai Noel com seus trenós e renas, a presença do frio e da neve.

Entre os exemplos clássicos do gênero estão White Christmas, de Irving Berlin, sucesso na voz de Bing Crosby a partir de 1941 (50 milhões de cópias vendidas do compacto, recorde mundial), e The Christmas song (Chestnuts roasting on an open fire), composta por Mel Tormé e Bob Wells, cujo maior sucesso foi na voz aveludada de Nat King Cole, em 1946.


Elvis Presley, Doris Day e Nat King Cole também tiveram seus sucessos de fim de ano. Imagens: Reprodução

Outras que ajudaram a estabelecer o padrão da música natalina foram Winter wonderland, de 1934 (Felix Bernard e Richard Smith), cantada por Perry Como (entre cerca de outras 150 versões); Santa Claus is coming to town, também de 1934 (J. Fred Coots e Haven Gillespie), que foi gravada por muitos, inclusive pelo Jackson Five, já nos anos 1970; Let it snow! Let is snow! Let it snow!, de 1945 (Sammy Cahn e Jule Styne), que tem uma versão famosa com Doris Day; Rudolph, the red-nosed reindeer (Rodolfo, a rena de nariz vermelho), composta por Johnny Marks, originalmente sucesso com Gene Autry, em 1949, e que teve uma versão com The Temptations, em 1968; e Frosty, the snowman (de Walter Rolling e Steve Nelson), que também foi gravada por Gene Autry, em 1950.

Em todas elas, há uma forte atmosfera de livros infantis, salas semiescuras cheias de presentes, uma lareira crepitando, comidas gostosas sobre a mesa e a neve caindo lá fora. Os motivos que fazem habitantes dos trópicos (como os brasileiros) e de outros países do hemisfério sul (como os australianos, que comemoram o Natal na praia, de bermudas) se identificarem com esse tipo de imaginário de neve e pinheiros são outros quinhentos. O fato é que a fórmula consagrada pelos compositores norte-americanos e europeus retrata com eficiência o ideário do clima das festas de fim de ano através de melodias bem-trabalhadas, instrumental rico e variado, sinos melodiosos na percussão, tudo emoldurado pela maestria vocal dos grandes do gênero, no início Frank Sinatra, Bing Crosby e Nat King Cole, e mais recentemente, Paul McCartney, Ray Charles, The Carpenters, Diana Krall, e Mariah Carey, entre tantos outros.

Apesar do desgaste natural de serem conhecidas há décadas, essas canções se incorporaram perfeitamente aos standards norte-americanos. Foi basicamente nessa música popular suave, pré-rock’n’roll, que a tradição natalina ganhou força (com a ajuda do cinema e da publicidade).

Mas mesmo a revolução dos costumes surgida com a música jovem nos anos 1950 e 1960 não deixou de lado o Natal. Pelo contrário. Elvis Presley lançou, já em 1957, seu primeiro disco inteiro sobre a festa, intitulado simplesmente Elvis’ Christmas album. Os próprios Beatles tinham o costume de, todos os anos, lançar um compacto de Natal com mensagens para os fãs, brincadeiras e alguma música relativa ao fim de ano. Ao longo das últimas décadas, as canções natalinas têm aparecido numa série de gêneros populares como jazz, pop-rock, soul, dance, rock, rhythm’n blues e country.


Acervo visual do período é repleto de imagens que, mesmo
herdadas de outras culturas, se amalgamam ao contexto nacional.
Imagem: Reprodução

De 1950 até agora, praticamente todos os grandes nomes lançaram algum trabalho nesse campo: Jackson Five, Queen, John Lennon e Yoko Ono (Merry XmasWar is over), Elton John. E também os roqueiros glam do Slade (Merry Xmas Everybody) e o pós-punk britânico The Pogues (Fairytale of New York). Uma banda de rock progressivo como Emerson, Lake & Palmer lançou I believe in Father Christmas, em 1977. Eagles, Lynyrd Skynyrd, Bruce Springsteen, Ringo Starr e John Travolta também investiram no gênero. Sting, por exemplo, gravou o sofisticado If on a winter’s night, em que reúne música e poesia de nomes como Robert Louis Stevenson.

Em 1984, um lançamento de Natal gerou todo um novo movimento humanitário. Do they know it’s Christmas, composta por Bob Geldof e Midge Ure e cantada por um grupo de astros, sobretudo ingleses, foi um grande sucesso e teve sua renda destinada a ajudar os famintos da Etiópia. O projeto deu, no ano seguinte, origem ao Live Aid, dois grandes concertos beneficentes, e mais uma música igualmente coletiva, gravada por cantores norte-americanos.

NO CORAÇÃO
Curiosamente, boa parte dos grandes compositores e cantores do estilo são judeus norte-americanos. É o caso de Irving Berlin, que compôs a música mais gravada de todos os tempos, White Christmas, que tem mais de 500 versões no mundo todo. Entre as 25 músicas de Natal mais vendidas, metade foi composta por judeus. Seguindo essa tradição, e sua própria trajetória cheia de contradições, Bob Dylan, o lendário compositor da contracultura, lançou em 2009 o álbum Christmas in the heart, todo com canções sobre o tema. Os cantores Neil Sedaka, Neil Diamond, Barry Manilow e Barbra Streisand, todos de origem judaica, também são conhecidos pelos lançamentos de Natal. “Essas canções são parte da minha vida do mesmo jeito que as canções folk”, afirmou o também judeu Dylan, numa rara entrevista sobre o assunto, dada a um repórter da MTV.

Parte do sucesso desse segmento musical tem sido estimulada por emissoras de rádio norte-americanas que tocam a música de Natal entre os meses de novembro e dezembro. Algumas chegam a dedicar toda a programação à chamada “temporada da nostalgia”. A paradoxal relação entre festa cristã e consumismo é evidente também no campo musical. Nos bons tempos da indústria fonográfica, o último trimestre do ano era responsável por 40% das vendas de discos e os lançamentos se beneficiavam disso. Além do mais, dizem os críticos, a execução dessa trilha sonora nas lojas coloca as pessoas no clima de consumo de que o comércio necessita para faturar.


Natalinas ao som de guitarra havaiana “made in Brazil” de Poly. Imagem: Reprodução

Seja como for, memoráveis obras do gênero foram criadas ao longo do tempo, como é o caso do disco A Christmas gift for you (1990), produzido pelo genial Phil Spector, para artistas como Darlene Love, The Ronettes, The Crystals, considerado um dos melhores no segmento.

HARPA PARAGUAIA
No Brasil, a música de Natal nunca teve a mesma força. O disco mais conhecido é A harpa e a cristandade, de Luiz Bordón, um paraguaio que fez muito sucesso como harpista entre os anos 1950 e 1980. Bordón (1926-2006) fez boa parte de sua carreira no Brasil. Nesse seu disco mais conhecido, lançado em 1964 pela gravadora Chantecler, e até hoje em catálogo, ele definiu, para muitas gerações de brasileiros, o verdadeiro som do Natal, ao fazer versões de marchinhas, valsas e canções embaladas pela harpa paraguaia. Entre elas estão Fim de ano (de Francisco Alves e David Nasser) e Natal das crianças (de Blecaute). Entre os clássicos estrangeiros, o harpista fez versões para Noite silenciosa (de 1818, composta pelos austríacos Joseph Mohr e Franz Grüber) e Jingle bells (do norte-americano James Lord Pierpont, composta em 1857). É certamente, no Brasil, um dos discos mais ouvidos – e um dos menos reconhecidos pela crítica, possivelmente por ter sido banalizado ao se tornar repertório obrigatório do mundo da publicidade e do comércio.

Outro disco que se mantém até hoje é o de Poly e sua guitarra havaiana. Poly era, na verdade, o paulista Ângelo Apolônio (1920-1985), um virtuoso das cordas (tocava violão, viola, cavaquinho, bandolim e banjo, entre outros) que fez muito sucesso nos anos 1950 e 1960, chegando a influenciar até músicos como Sérgio Batista, dos Mutantes. Nos anos 1960, Poly gravou o disco Natal em família, com marchas e valsas de compositores brasileiros como Assis Valente e Herivelto Martins, também pela Chantecler. As canções, marcadas pelo doce som da guitarra havaiana, traduzem o clima meio melancólico do Natal e são exemplares de uma época mais ingênua e menos consumista.

Nos últimos tempos, têm havido gravações de Simone, Roupa Nova, Ivan Lins e alguns sertanejos. Mas, com a exceção de alguns poucos como o paraguaio-brasileiro Luiz Bordón e Poly com sua guitarra havaiana, a música brasileira de qualidade não descobriu a força do Natal. 

MARCELO ABREU, jornalista, professor e autor de livros-reportagem e de viagem, como De Londres a Kathmandu.

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