Clique ao lado para visualizar o sumário da nova CONTINENTE.

Arquivo

Bea Feitler

Design brasileiro em Nova York

TEXTO Luiz Arrais

01 de Dezembro de 2012

Página dupla em que recurso de corte das imagens parece imantar as modelos

Página dupla em que recurso de corte das imagens parece imantar as modelos

Imagem Reprodução

Beatriz Feitler, designer brasileira mais conhecida no exterior do que no Brasil, onde nasceu e viveu até a maioridade, somente agora, depois de 30 anos de sua morte, tem seu trabalho publicado em livro (O design de Bea Feitler, CosacNaify). A iniciativa foi de seu sobrinho, Bruno Feitler, com a colaboração do designer André Stolarski. O livro, apesar de um pouco desconfortável à leitura, conta com um belo projeto gráfico de Elaine Ramos e Gabriela Castro, sendo composto por duas narrativas simultâneas e cruzadas. A primeira apresenta a biografia de Bea; a segunda, um apanhado das caracaterísticas de sua obra.


Uso de fotos e ilustrações, alternadas entre a cor e o preto e branco. Imagem: Reprodução

Nascida em 5 de fevereiro de 1938, no Rio de Janeiro, filha dos imigrantes judeus Rudi e Erna, fugitivos das sanções impostas pelos nazistas na Alemanha, Bea teve uma infância tranquila em meio a areais e casarios, numa Ipanema ainda bucólica. Com uma educação requintada, que se revelou na preferência pelas artes e letras, gostava muito de balé e ópera. E, por influência paterna, em 1957, foi estudar na Parsons School of Design, em Nova York, onde decidiu fazer desenho gráfico: "que requer mais cores e formas do que desenho, que é o meu fraco". Depois da graduação, tentou trabalhar na cidade, mas ouviu conselhos de que praticasse mais, e voltou ao Rio.


Capas célebres da Harper's Bazaar, dos anos 1960-70, com a colaboração de grandes fotógrafos. Imagem: Reprodução

Contratada por Carlos Scliar, diretor de arte da Senhor, chegou a assinar três capas da mítica revista, célebre pelo seleto grupo de colaboradores. Voltou à Big Apple e, dessa vez, por sorte, foi convidada a trabalhar por um antigo professor da escola de Design, que havia assumido a direção de arte da Harper's Bazaar, uma das mais antigas e importantes revistas de moda do mundo. Em pouco tempo, com apenas 25 anos, assumiria a coeditoria de arte da publicação com Ruth Ansel, uma dupla que, em sintonia com um núcleo de fotógrafos — Richard Avedon, Hiro, Bill King, Diane Arbus, entre outros — e com liberdade para experimentar e grana para usar, fazia de tudo para não deixar a revista cair na monotonia. Afinal, eram os anos 1960, década de transformações, ousadias e todo tipo de loucura. Os grafismos geométricos, brincadeiras com perspectivas, texturas, escalas geométricas, uso de cores diferentes, imagens sangradas eram sua marca. Não hesitava em fazer cortes bruscos em fotografias, por conta do uso da dobra (ou espinha) da revista, para um melhor efeito, o que nem sempre agradava aos profissionais de imagens.


Primeira edição da revista feminista Ms., feita exclusivamente por mulheres.
Imagem: Reprodução

Aos amigos e colaboradores com quem trabalhou, deixou a imagem de mulher que entrava em passo de ganso na redação, cheia de si, chacoalhando colares e balangandãs e dizendo: "É assim que tem de ser".


Trabalho de Bea em colaboração com Andy Warhol. Imagem: Reprodução

Mas nem tudo dura para sempre, e a direção da Harper's começou a reagir aos custos altos e ao baixo retorno da publicação, talvez até por conta de uma nova visão de moda que se impunha: mais simples, individualizada, hippie. Ela deixou a revista nos anos 1970 para trabalhar na Ms, um projeto de publicação temática para o público feminino, chefiada por Glória Steinem, com a redação toda composta por mulheres. Foi a primeira publicação a trazer a suas leitoras temas como assédio sexual no trabalho, violência doméstica, direito ao aborto e ao planejamento familiar, participação política e igualdade de gênero perante a lei, remuneração justa e homossexualidade.


Parceria com o fotógrafo Hiro. A imagem cobre capa e contracapa, recurso incomum à época. Imagem: Reprodução

Chegou a trabalhar em uma revista da Editora Abril, Setenta, via malote, com um fotógrafo da Harper's na redação, no Brasil. Mas com os mesmos tipos de diagramação e produção, o que encarecia as matérias e culminou em sua curta trajetória de nove números. Ao mesmo tempo, Bea começou a atuar em dezenas de empreendimentos para editoras, gravadoras, magazines e outros projetos, como o dos cartazes para o Alvin Ailey American Dance Theatre. Fazia as capas dos livros e também o miolo, evitando com isso desvirtuar o visual com uso de fontes e desenhos diferentes, prática ainda em uso em muitas editoras brasileiras.


Considerada a melhor capa dos últimos 40 anos, com foto de Annie Leibovitz.
Imagem: Reprodução

Um de seus mais belos livros é uma biografia dos Beatles, com capa assinada por Andy Warhol. Outro é sobre Elvis Presley, apenas com a imagem do cantor na capa, sem texto. Recurso usado na capa da Rolling Stone de janeiro de 1981, em foto de Annie Leibovitz. Tirada no dia da morte do beatle, mostra John, nu, com perna sobre Yoko Ono, numa pose para lá de edipiana. Bea optou por usar, acima da imagem, apenas o logo da revista, deixando a capa com cara de homenagem silenciosa. Contratada pela Condé Nast como consultora de Design, fez vários projetos, como o da revista Self e um mais ambicioso, o da volta da Vanity Fair, revista de comportamento e estilo de vida requintados, que falira na recessão da década de 1930.


Um dos seus primeiros trabalhos profissionais para a prestigiosa
revista carioca
Senhor. Imagem: Reprodução

Não chegou a ver o seu projeto para a Vanity Fair pronto, pois foi acometida por um tipo raro de câncer muscular numa perna, que se transformou em metástase, atingindo os pulmões. Faleceu em abril de 1982, aos 44 anos, na cama de sua mãe. Ainda hoje é perceptível a atitude revolucionária na criação de muitas de suas capas, que se tornaram celébres e são referências de experiência e ousadia gráfica. Seria fundamental que os cursos de Design despertassem para a sua importância na história da arte, da fotografia e do desenho. 

LUIZ ARRAIS, superintendente de criação da Cepe Editora.

Publicidade

veja também

Alcir Lacerda: Exercício de documento, memória e identidade

ETS: Contatos imediatos nas salas de cinema

A nova cinefilia

comentários