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Flora Pimentel

Bastidor de orquestra

TEXTO Carlos Eduardo Amaral

01 de Novembro de 2012

Foto Flora Pimentel

Um concerto orquestral envolve uma sucinta e aparentemente inquebrantável ritualística: os ajustes de roupas e instrumentos fora do palco; a entrada dos músicos, sucedida pela do spalla, que faz a checagem final da afinação com o auxílio do primeiro oboé; e a chegada do regente, acompanhado ou não de solistas, momento em que os instrumentistas se colocam de pé até o sinal de preparação para o primeiro acorde ou nota. Deixemos de lado os maestros, cujo repertório de gestos rende análises próximas às da homilética, e as regras de etiqueta que cabem ao público.

Os rituais, contudo, ficam reservados para o mise-en-scène. Nos bastidores, as formalidades perdem a razão de ser e dão vazão à intimidade e à trivialidade: namoricos, nós de gravata, retoques na maquiagem, limpeza de instrumentos – com aquele cuidado, para não dizer carinho mesmo, que se tem com alguém querido –, reprimendas e afagos dos maestros... Acostumada a registrar momentos oficiais de orquestras juvenis, Flora Pimentel também viu na descontração delas uma temática de beleza própria.

Quanta gente já não se apaixonou por um músico só em lhe apreciar o manejo de um violino, de uma flauta ou dos tímpanos? Flora mostra que, através das lentes fotográficas, a sedução por trás (ou à frente) da técnica e da forma cavalheiresca de postar-se com os instrumentos pode ser apreendida. Por tabela, ela revela a expressão de outros músicos, que tentam seduzir, mas ainda não ultrapassaram a condição de adolescentes posers.

Às vezes, outras facetas escapam, porque recônditas, o que não quer dizer que não possam ser deduzidas pelas cenas. O desligamento dos problemas cotidianos, esquecidos enquanto escalas, arpejos, ligaduras, pausas de respiração são recapitulados; o exercício lógico, treinado na leitura de modulações, transposições, células rítmicas repetitivas, ritornelos; a desenvoltura da parte psicofísica, na prática de dedilhados, arcadas, posições de mão e demais posturas corporais.

Escapam, sobretudo, os elementos evocados pelo olfato e pelo tato, que, escusado dizer, não têm como ser transpostos em pixels ou grãos de prata. Porém, quem já conviveu com músicos de orquestra, consegue reconstituir, nas fotos de Flora, o cheiro do breu das crinas dos arcos, o discreto mofo das caixas de instrumentos, e a textura das palhetas de fagotes, clarinetas e oboés, dos pistões dos metais e das chaves das flautas.

O ensaio despretensioso da fotógrafa – que já acompanhou a Orquestra Jovem de Pernambuco, dirigida por Rafael Garcia, e a Orquestra Sinfônica Jovem do Conservatório Pernambucano de Música, conduzida por José Renato Accioly – acaba vivificando, mesmo com a incompletude muda, calada, das imagens, a influência decifrada por Pitágoras, e pouco compreendida, das escalas musicais nos nossos estados de espírito.

Por outro lado, tal qual se vê na maior parcela das fotos, boa parte dos músicos sempre está entretida com os instrumentos. Um exemplo está no extenuante trabalho de microafinação das cordas – que precisa ser refeito nos intervalos dos concertos, já que a tensão aplicada nelas, o atrito do arco, e mesmo o calor ambiente, sutilmente, tiram-nas da posição em que são deixadas antes da entrada em cena.

Atribuir toda essa poética exclusivamente ao universo da música clássica seria míope, pois ela se estende à música em sentido amplo, livre das distinções auditivas que operam no âmbito que lhe é devido. Porém a orquestra como um corpus, um grupo coeso, carrega uma aura única, fascinando pelo volume que só ela é capaz de atingir (sem o expediente da amplificação eletrônica), pela infindável paleta de cores sonoras que proporciona e, vale recapitular, pela ritualística que a envolve. Talvez por isso seja tão apaixonante desnudar os seus bastidores. 

CARLOS EDUARDO AMARAL, jornalista, mestre em Comunicação.

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