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Orixás: Dança que encena gestos de divindades

Tal qual um espetáculo dramático cercado de preceitos, uma festa de terreiro pressupõe hierarquia de posturas e significações

TEXTO Danielle Romani

01 de Agosto de 2012

Oxum figura entre as “mães d’água” e sempre se faz presente nas festas

Oxum figura entre as “mães d’água” e sempre se faz presente nas festas

Foto Roberta Guimarães

Plasticidade, dramaticidade e religiosidade. Esses e outros elementos estão presentes nos rituais do candomblé, religião de matriz africana que possui mitologia própria, com mais de 400 divindades, conhecidas como orixás. Quem já participou de um xirê – como são chamadas as festas celebradas nos terreiros – pode atestar a riqueza ritualística em torno dos orixás e deleitar-se com um cenário complexo e belo, comparável a um elaborado espetáculo cênico.

A força e expressão gestual das divindades chama a atenção dos que participam das festas nos terreiros, inclusive dos pesquisadores, que procuram analisar as características desses deuses. Na dissertação A dança dos orixás de Augusto Omolu e suas confluências com a Antropologia Teatral, apresentada ao programa de pós-graduação em Artes da Universidade Federal de Uberlândia, Antônio Marcos Ferreira Júnior pondera: “Segundo a filosofia do candomblé, o universo é dinâmico e ao manter-se em movimento ele está em equilíbrio. A dança é o testemunho mais correto e expressivo desse ritmo universal. A vida faz parte desse processo rítmico e dinâmico de criação e destruição, de morte e renascimento, expresso no ritmo das danças dos orixás, que simbolizam as energias da natureza nesse eterno e alterno ritmo, que continua em ciclos infinitos”.

Comida, vestimenta e dança são fundamentais para que as entidades se manifestem com harmonia e distribuam sua força aos devotos. As danças, em especial, são coreografadas com movimentos e sinais específicos, exprimindo a maneira de ser de cada divindade. Nelas, os orixás revivem momentos importantes e se conectam à energia original que os envolveu durante suas criações.

O corpo do devoto, portanto, é essencial ao rito, para que a devoção se concretize. “É o instrumento de expressão e comunicação com o orixá, que vem para este plano e se comunica pelo cavalo do santo (como é chamada a pessoa que incorpora)”, explica Mário Ribeiro, historiador e diretor da Casa do Carnaval (Recife). Assim como o corpo, as vestimentas e expressões corporais também são peças-chave na representação das divindades. “Os objetos e os movimentos vão expressar suas naturezas peculiares. Pela dança, percebe-se a correlação que o orixá tem com os ventos, com as matas, com as águas, com a terra”, diz Mário.

Para entender essa conexão entre o corpo e o espírito, entre o devoto e a santidade, a repórter fotográfica Roberta Guimarães vem trabalhando, há dois anos, na produção do livro A pessoa, o sagrado e o orixá, previsto para ser lançado em 2013. Nos últimos 24 meses, ela acompanhou a transformação de vários filhos de santo, a partir do momento da colocação das indumentárias e da entrada no peji, ou camarim, espaço sagrado em que os fiéis se ornam com vestimentas típicas e artefatos próprios, permitindo que os orixás se incorporem.

“É admirável perceber essa transformação. Conferir a mudança que acontece quando vestem as indumentárias. Ver o respeito e a reverência que eles alcançam depois da saída do peji”, diz Roberta, que já documentou incorporações de Oxum, Xangô, Nanã, Oxalá e Ogum. Segundo ela, é visível a força e o respeito que o candomblé detém no Recife, apesar do preconceito ainda existente contra a religião.

Por todo Brasil, várias nações – como são chamadas as diversas ramificações do candomblé, de acordo com a diáspora africana – têm rituais semelhantes, mas com nuances que, na linguagem dos “iniciados”, são chamadas de “ética própria de se relacionar entre o zelador e as divindades”. Os terreiros dos xambás, angolas, nagôs, jejes, moçambiques, quetos, minas e iorubás, portanto, mantêm cerimônias e ritualísticas que possuem raízes aproximadas, mas com batidas que os distinguem na devoção.

A relação com a música – “rezas cantadas”, segundo observa Mário Ribeiro – obedece ao modo de tocar das nações. “Em algumas, o atabaque é tocado com as mãos. Em outras, com cipós de aroeira ou de goiabeira. Isso muda radicalmente a sonoridade”, descreve Mário.

No livro Orixás: deuses iorubás na África e no Novo Mundo, Pierre Fatumbi Verger mostra que são muitos os ritmos, devidos às formas de tocar e aos sistemas de tensão dos couros dos atabaques. “O etnomusicólogo Xavier Vatin identifica no candomblé contemporâneo 20 fórmulas rítmicas: oito seriam originárias da nação nagô-ketu; sete da nação jeje, quatro da nação angola e um da nação nagô-ijexá. Cabe notar que, como em outros aspectos litúrgicos, há nesse âmbito uma forte interpenetração entre as diversas nações”, escreveu o africanista e fotógrafo.


As danças representam as energias da natureza de cada divindade. Foto: Folhapress

GESTUAL
No que diz respeito à dança, em todas as nações, as divindades se assemelham, principalmente quando se trata de Exu, cujos movimentos são copiados por dançarinos de vários grupos. “Mensageiro por excelência, Exu apresenta-se numa dança serpenteada, as mãos ora levantadas para o orun (céu), ora para o aye (terra), os quais ele interliga. A comissão de frente das escolas de samba, em especial a partir dos anos 1960, executa inúmeros dos seus passos... O mesmo acontece com Iansã, que domina os ventos, as tempestades e cuja principal característica é o enlaçar dos braços. Toda graça do jogo cênico dos braços dessa coreografia era exibida no desfile das grandes escolas, com a passagem da veterana Paula do Salgueiro, que durante três décadas foi uma das passistas mais famosas do Rio de Janeiro”, explica o pesquisador de carnaval José Carlos Rego, autor do livro Dança do samba.

No Recife, essa relação pode ser percebida claramente nos blocos de afoxés, nos maracatus de baque virado e nas escolas de samba. “Nos afoxés, além da indumentária típica, os ritmos, os cânticos e a dança são uma clara referência às divindades. No maracatu, isso fica marcado na ala dos orixás (que nem sempre está presente nas agremiações). Quando essas alas são formadas, os brincantes fazem exatamente os movimentos que os representam. Na escola de samba, a presença do sagrado na gestualidade fica patente na ala das baianas, principalmente na hora em que elas rodam e dão uma parada brusca. “É como se fosse a ‘caída’ do santo, o oriki do santo”, pontua Mário. Portanto, essas são as manifestações artísticas que têm mais afinidade com o candomblé e suas coreografias.

Músicos, em especial os baianos, costumam executar passos de orixás nas suas apresentações artísticas. “A Timbalada tem uma música Ashanshu, em homenagem a Obaluaiê. Na coreografia, eles fazem exatamente os passos da divindade. O Olodum, na música Iemanjá amor mar, também repete os movimentos dela. E se não fosse isso, teríamos um exemplo muito claro dessa apropriação dos movimentos das divindades a partir de Maria Bethânia, que, ao interpretar a música Iansã, se manifesta no palco com a força e ênfase dela”, diz o historiador.

ENTRADAS
Pós-graduado em Políticas Culturais e Cultura Popular e babalorixá há quatro décadas, Albemar Araújo explica que as religiões de matriz africana são muito presentes em Pernambuco, e que, no Recife, especificamente, os terreiros e o próprio candomblé são conhecidos como “xangô”, que é também o nome de um dos mais poderosos orixás masculinos. “Xangô é uma das entidades mais reverenciadas e queridas. Manifesta-se com ênfase, com violência, com muita força, carregando seu machado, o oxê, e o maracá, o xerê. Ele tem a ver com a justiça, o poder, a realeza”, diz o babalorixá.

Apesar da fama, não cabe a Xangô a primazia de abrir os trabalhos nos terreiros. Em todas as nações, os rituais iniciam-se reverenciando Exu, o mensageiro. “Ele faz a varredura e vai chamar os outros orixás. Toma conta da festa do começo ao fim. Nem sempre se manifesta, mas quando o faz, dança com graça, com beleza. Traz consigo um grande falo e dança semeando a fertilidade”, explica Albemar, que atua em terreiro de tradição nagô.

Ogum, que na mitologia africana é o deus da metalurgia, o guerreiro, é sempre o segundo a entrar. “Sua dança tem gestos ríspidos, pois ele promove a guerra contra o mal, abre os caminhos. No candomblé, sua cor é o azul-escuro. Ele normalmente incorpora”, explica Albemar. A partir desse momento, a ordem de entrada vai depender da “ética” de cada nação. “Cada um vai dar a primazia às suas entidades. O denominador comum só surge quando Oxalá é convocado para encerrar a cerimônia”, pontua.

“Quem fecha o xirê é Oxalá. Ele encerra as atividades, ordena que todos os orixás se virem para a porta da rua, mandando embora as energias negativas e deixando apenas as positivas. Ele tem mais de uma faceta e forma de se apresentar. É o único orixá masculino a usar o filá (véu) das deusas femininas e se divide em dois: Oxaguian, o jovem, o guerreiro, que porta uma espada e dança com ênfase, vibrando; e o Oxalufan, o velho, que vem coberto por um pano e dança curvado, apoiando-se no seu cajado, o opaxorô”, distingue Albemar. Assim é que, numa festa de terreiro, devotos e demais participantes têm a oportunidade de ver encenada por homens e mulheres a gestualidade dos deuses que reverenciam. 

DANIELLE ROMANI, repórter especial da revista Continente.

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