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Casemiro: O vendedor de rapé

Ambulante do Juazeiro do Norte cativa clientela com a raridade do seu produto e com sua verve

TEXTO DANIELLE ROMANI
FOTOS ROBERTA GUIMARÃES

01 de Agosto de 2012

Antônio Casemiro

Antônio Casemiro

Foto Roberta Guimarães

Pequeninho, dono de um rosto teatral, no qual se destaca um bigode ao estilo de Carlitos, personagem imortalizado por Charles Chaplin, Antônio Casemiro dos Santos, aos 74 anos, é um gigante e um artista na hora de comercializar seu inusitado produto, hoje raro nas grandes capitais, mas ainda comum nos sertões nordestinos: o rapé. De megafone na mão, chapéu, camisa social engomada, calça de tergal, sandália de couro e o inseparável recipiente de chifre, no qual guarda a mercadoria oferecida, Antônio solta o vozeirão pelas ruas de Juazeiro do Norte para propagar os efeitos benéficos das suas combinações de ervas, consideradas, pelos muitos clientes, como as melhores da cidade.

“Olha o tabaco do véio, minha gente. Olha o rapé! Bom pra rinite, pra sinusite, pra resfriado, dor de cabeça, dor de estômago, cansaço, canseira e até espinhela quebrada”, costuma berrar o ambulante, que se diverte com a atividade e chama a atenção dos clientes e passantes não apenas pela qualidade do rapé – apreciado no Juazeiro, no Crato e redondezas –, mas também pelo seu incrementado instrumento de trabalho, caprichosamente decorado.

Metade de madeira, metade de corno de boi, o objeto é também motivo de orgulho para Antônio, que o ostenta como uma peça de arte. Originalmente um chifre comum, a peça foi aumentada a partir de uma base de madeira, que lhe confere cerca de 80 cm de dimensão. Seu toque final é uma escultura em forma de rosto, semelhante ao de Antônio, que serve como tampa. Uma estratégia de “marketing” que ajuda nas vendas e no folclore em torno de sua imagem. “Ele (o chifre) chama atenção do povo. Todo mundo que olha quer ver o que tem dentro. É uma arapuca: mesmo quem não quer, se encanta, pois o cliente acha bacana, não resiste e leva o rapé”, conta Antônio, com um sorriso maroto.

O recipiente, que tem capacidade para um quilo do produto, foi montado por ele. Apenas o boneco não é criação sua. “Ganhei de presente de um vizinho. Achei bonito e, quando fiz o novo chifre, coloquei outro bonequinho porque se tornou uma espécie de marca registrada minha”, gaba-se. Aliás, Antônio é caprichoso em tudo. Da decoração da própria casa – localizada na rua que fica logo abaixo do topo da colina do Horto, de onde se pode ver o casarão e a estátua de sete metros de Padre Cícero do Juazeiro – ao preparo do rapé.


Religiosidade de Antônio Casemiro é expressa no altar meticulosamente arrumado de sua sala

“Vendo três tipos de torrado (como o pó também é conhecido). Sou eu quem mói as ervas e prepara as misturas. O tradicional, feito com o fumo do tabaco, é o mais conhecido. O de imburana de cheiro é bom pra dor de barriga, disenteria, comida que ofende. E a mistura que tem noz moscada, pixurim, eucalipto, hortelã grande, hortelã miúda e alecrim serve pra problema respiratório, rinite e sinusite”.

Antônio começou a fazer o rapé há alguns anos, após a morte da esposa Maria Nazaré. “Ela vendia ervas e raízes, como casca de umburana, quebra-pedra e eucalipto. Quando ela foi embora, foi que tive a ideia de continuar mexendo com as ervas, mas de outra forma. O pessoal das redondezas gostou. Vendo uma média de, no mínimo, 100 gramas de rapé por dia”.

Nas épocas de romaria, Antônio nem precisa sair de casa. E multiplica a saída dos potinhos de 100 gramas, usualmente vendidos por R$ 3. No terraço da sua residência, vende quilos do produto aos romeiros e conhecidos que chegam à cidade, às centenas, para reverenciar o Padre Cícero Romão Batista, e que passam, obrigatoriamente, pela porta da sua casa.

Independentemente do rapé, Antônio é conhecido pela boa prosa e pela religiosidade. Na sua sala, como em muitas outras da colina do Horto, encontra-se montado um altar em homenagem ao “Padim” e ao Sagrado Coração de Jesus. Diferentemente de outros encontrados no bairro, o seu chama a atenção pelas proporções gigantes e pelo apuro com que é decorado: ocupa uma parede inteira do recinto, com flores de papel, velas, pisca-piscas, figuras de santos diversos e uma colcha de fuxico, tecida pela esposa querida e jamais tirada do local.


Feito em chifre e madeira, o porta-rapé é encimado por uma pequena escultura figurativa, que lembra o rosto do comerciante

“Quando minha mulher era viva, o altar era menor. Mas gosto de tudo grande, e resolvi fazer ele bem-abastado”, conta o comerciante, que anualmente, no mês de fevereiro, promove uma festa em devoção ao Sagrado Coração de Cristo. “Durante três domingos fazemos reza para o Coração de Jesus. A decoração é mudada todo ano, nessa data, e passa 12 meses do mesmo jeitinho. Gosto de tudo bonito e arrumado. O homem que segue com Deus não tem com que se preocupar”, diz Antônio, que resolveu morar no topo do morro exatamente pela proximidade do Padre Cícero.

Alagoano de nascimento, era dono de terra e agricultor em Viçosa, onde nasceu e viveu até 1985, com a mulher e os 17 filhos. Somente então se mudou para o Crato. Os motivos da mudança se deveram à falta de perspectivas de sobrevivência. “Antes, na minha fazendinha, cheguei a plantar 11 mil pés de inhame, mas depois as coisas complicaram, até em cana tivemos que trabalhar. Os tempos estavam difíceis”. Com o dinheiro que ganhou da venda das suas terras, comprou uma casa num bairro nobre de Juazeiro, mas logo se mudou.

“A vizinhança era muito grã-fina, aguentei não.” Com o dinheiro da casa, comprou outras três, todas no Bairro do Horto, onde se concentra uma comunidade mais popular. Com os filhos encaminhados, o rapé fazendo sucesso na freguesia e a aposentadoria governamental por idade garantida, seu Antônio não tem do que reclamar: “Aqui estou no céu”.

Os clientes também agradecem a decisão do alagoano de se instalar no Juazeiro. “Desde sete anos cheiro o torradinho (rapé). Quando tomava chuva, mãe gritava pra gente dar uma pitada pra evitar resfriado. Sou consumidor assíduo. E o de seu Antônio é o mais bem-feito da região. Venho do Crato pra comprar as misturas dele”, comenta João Bosco Peixoto de Oliveira, motorista de táxi que faz praça na cidade vizinha, mas que, sempre que pode, dá uma escapulida para visitar Antônio Casemiro e abastecer o estoque próprio de rapé.

Tradicional entre os sertanejos, e famoso no topo da colina do Horto, o rapé medicinal de seu Antônio, afirma o fisioterapeuta Paulo Gurgel, pode ter méritos. “Com base na aromaterapia e na medicina holística, os cheiros influenciam a emoção e alteram a química corporal. Vão atuar no nível dos brônquios e entrar na corrente sanguínea, surtindo bem-estar. Mas é importante ressaltar que as substâncias podem irritar a mucosa, e os produtos a serem inalados têm que ser confiáveis. Espero que seu Antônio use os produtos corretamente”, ajuíza o terapeuta. 

DANIELLE ROMANI, repórter especial da revista Continente.
ROBERTA GUIMARÃES, fotógrafa.

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