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A voz do povo em Jorge Amado

TEXTO Luiz Felipe Aguiar

01 de Agosto de 2012

Imagem Rogério Soud

Consagrada, traduzida, exportada, adaptada e controversa. É sobre este último adjetivo que a totalidade da obra de Jorge Amado é sobretudo abordada pela crítica literária. Condenada por uns como tipificadora, pitoresca, feita ao gosto do mercado, de simplória linguagem de costumes; e, por outros, enaltecida como construtora de um imaginário baiano e brasileiro, como proposta de um modelo social sincrético e mestiço, que se volta aos mais pobres e desprovidos da sociedade, ao povo, subvertendo os valores culturais e de classe que os relegam a condições inferiorizantes.

A primeira vertente, a crítica mais tradicional, baseia-se na análise intrínseca da literatura, cunhada pelos formalistas russos e radicalizada pelos novos críticos norte-americanos. Para esses, a qualidade da obra literária se dá pelo trabalho com a forma, a matéria literária, a palavra.

A outra vertente crítica, antes de tudo, prima pelas relações da literatura com a sociedade. Ela desloca o paradigma ocidental da literatura de qualidade, tomado como universal, e a aproxima ao mito, à literatura oral, ao imaginário popular, aos costumes do povo que representa. Essa última vertente atualiza propostas teóricas do professor Roger Bastide, que defendia a necessidade de avaliar a obra de Jorge Amado pelos critérios da literatura oral, ou seja, que a base sobre a qual Jorge Amado cria sua literatura é popular. Essa última posição é com a qual comungo.

Se há um vínculo que perpassa toda a obra de Jorge Amado, diz o próprio escritor, esse é a fidelidade ao povo. São as prostitutas, malandros, oprimidos de todas as formas, aqueles que estão à margem da sociedade. Jubiabá, Baldo, Pedro Bala, Gabriela, Lívia, Dona Flor, são personagens do povo e exemplos típicos, pois que modelos para uma coletividade.

Na construção imaginária de Jorge Amado, há a presença de estereótipos, de linguagem popular, na tentativa de construção de tipos que atendam a um grupo, daí a sua aproximação com o mito e com a literatura oral. São momentos em que a sociedade fala a si mesma. Os heróis e as heroínas são exemplares de comportamento para os que representam: o povo.

Baldo, quando criança, sonha em não seguir o triste destino dos meninos pobres e negros: a tradição “da escravidão ao senhor branco e rico”. Ele quer ser “do número dos livres”. Baldo é arruaceiro, malandro e sob a proteção do pai de santo Jubiabá, que dá nome ao livro, transforma-se em rebelde consciente de sua situação social.

Em Mar morto, Guma, pescador simples, torna-se um herói homérico que enfrenta as forças naturais e morre no mar. Ganha a amplitude do mito. Lívia, a heroína, foge com Guma evitando o casamento vantajoso desejado pelos tios, numa típica atitude romântica. Após a morte do seu amado, não se entrega ao destino comum das mulheres que perdiam seus maridos: o trabalho nas fábricas ou a prostituição. Ela toma para si o leme do Paquete Voador, o barco de Guma. Assumindo uma profissão legada só aos homens, apossa-se de seu destino.

Com Gabriela, cravo e canela, de 1958, Jorge Amado começa uma nova fase em sua literatura. Abandona o vínculo político com o comunismo e descobre outra forma mais revolucionária de fazer arte. Nas palavras do autor: o riso, o humor. Aqui também se divide a crítica. A mais tradicional aceita o engajamento social da primeira fase, justamente pelo seu viés político, mas despreza sua fase mais populista. Do outro lado, essa segunda fase é avaliada como a mais criativa. É o momento em que se acentuam a construção imaginária e o vínculo com o povo em sua subversão dos valores dominantes.

Gabriela se opõe aos costumes burgueses da sociedade de Ilhéus. É ingênua, livre, não se deixa enquadrar pelo casamento, com suas regras de conduta e comportamento social. A fidelidade lhe é um valor estranho quando é uma exigência e não quando podia simplesmente “dormir por dormir” com Nacib. Gabriela é uma defesa da mulher ante uma sociedade castradora e da simplicidade do povo contraposta ao padrão burguês dominante. Sua sexualidade livre completa a contraposição.

O casamento padrão, formal, é também temática de Dona Flor que nega, como Lívia, o casamento vantajoso para se unir a Vadinho e não consegue deixá-lo, mesmo depois de morto. Roberto DaMatta diz que Dona Flor realiza a escolha do brasileiro que une a seriedade do trabalho e a vagabundagem do malandro. A narrativa agrega traços contraditórios da cultura brasileira elegendo sua ambiguidade e hibridismo cultural.

Já em Tenda dos milagres, Jorge Amado trabalha temas caros à sua literatura, a miscigenação e o sincretismo religioso, através do foco na questão da raça e da cultura e religiosidade afro-brasileira. O candomblé, religião do povo, é um dos elementos fundamentais em sua obra. Jubiabá é pai de santo, personagem importante para o engajamento de Baldo; Pedro Bala torna-se consciente das diferenças de classe a partir do contato com a religiosidade; Mar morto é escrito sobre o signo de Iemanjá, que é o próprio mar; Vadinho, em sua malandragem e ambivalência, é filho de Exu.

Pedro Arcanjo, protagonista de Tenda dos milagres, é bedel da Faculdade de Medicina e tem o título no candomblé de Ojuobá, os olhos do rei Xangô. Sendo filho do orixá da justiça, Pedro Arcanjo é aquele que deve “tudo ver, tudo saber, tudo escrever”. Escreve quatro livros em defesa dos valores mestiços entrando em choque com o catedrático Nilo Argolo, referência explícita a Nina Rodrigues, defensor da tese da degenerescência do mestiço, inspirada pelo francês Gobineau.

Tenda dos milagres, como as linhas mestras da obra de Jorge Amado, é um romance que afirma a proposta de um modelo para o país: sincrético e miscigenado, frente às teorias racistas que ainda vigoravam no início do século 20. Defende o saber popular na “universidade vasta e vária” do povo, o Pelourinho, frente ao saber constituído academicamente, “atrevendo-se a classificar de mulata a nossa cultura latina”. 

LUIZ FELIPE AGUIAR, bacharel em Crítica Literária, mestre em Ciências Sociais e professor de Literatura

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