Clique ao lado para visualizar o sumário da nova CONTINENTE.

Arquivo

Nerds: A força (do mercado) está com eles

A ascensão econômica de nomes como Bill Gates, Steve Jobs e Mark Zuckerberg ajudou jovens, antes considerados os “patinhos feios” da escola ou do bairro, a conquistarem prestígio social

TEXTO Carol Almeida

01 de Julho de 2012

Ilustração Flávio Pessoa

Tarde de sábado, em São Paulo, 10 de março, e o sol está impiedoso. Dentro de um auditório no Complexo do Anhembi, centenas de jovens, representados em boa parte por meninos vestidos com seus moletons escuros, nem percebem o ar-condicionado tinindo seu vento gelado para abafar o verão paulistano. Eles gritam, urram, assoviam e batem palmas, galvanizados pelo vídeo que acaba de ser exibido no telão montado no espaço. Ninguém menos que J.J. Abrams, o criador de séries como Lost e Fringe e diretor de filmes como Star Trek e Super 8, mandava seu recado: “Neville deveria estar aqui comigo, concluindo Star Trek 2, mas só o deixei viajar para o Brasil porque ele me falou que esse evento é muito importante”. O evento a que Abrams se referia se chama The Union, e teve sua segunda edição este ano, na capital paulista. E o Neville por ele mencionado atende pelo nome de Neville Page, artista que tem no currículo a autoria de criaturas em filmes como Avatar, Tron: o legado e, claro, o Star Trek de Abrams.


Criadores do primeiro computador pessoal comercializado em larga escala, Steve Wozniak e Jobs estão na lista dos top nerds. Foto: Divulgação

Em qualquer cenário da nossa prosaica vida de contas a pagar e metas a fechar, Neville Page é um nome tão próximo quanto o daquele vizinho que nunca vimos. Mas, para as centenas de jovens, ainda majoritariamente do sexo masculino, que atentamente assistiam à sua apresentação no Brasil no começo deste ano, o cara é um herói, desses colossais. Isso porque, no fundo (nem tão profundo assim), ele é um sujeito que, como todos os anônimos, tem contas a pagar e metas a fechar. A diferença? Ele faz tudo isso sendo muito bem-pago para ser aquilo que, há não muito tempo, vinha com uma carga semântica pejorativa: um nerd. E eis aí uma palavrinha anglicana que sempre é muito citada a cada edição do “Woodstock” desse grupo. Estamos falando da Campus Party, agora, com lona armada no Recife.

Criada na Espanha, em 1997, a Campus Party é, hoje, o evento que melhor traduz a relevância social e econômica dos nerds, reunindo palestras e apresentações simultâneas sobre os mais diversos campos do conhecimento que tenham uma relação direta com a tecnologia digital. Segundo o gerente do evento no Brasil, Mario Teza, são mais de 189 mil campuseiros (nome dado aos participantes do encontro) ao redor do mundo, sendo cerca de 62 mil deles brasileiros. Em cada edição da Campus Party, além de troca de informações – que por si só é o motor que sustenta a ideia –, negócios são fechados e empresas descobrem colaboradores potenciais. Pessoas que, em lugar de concursos públicos ou empregos estáveis, têm como sonho profissional lançar aplicativos para celulares ou novas redes sociais que as tornem, na melhor das possibilidades, milionárias. Na pior, felizes em trabalhar com aquilo pelo qual são fissuradas.


Fundador da Microsoft, Bill Gates tornou-se o homem mais rico do mundo, mudando o estigma dos nerds. Foto: Divulgação

Sim, porque mais de três décadas depois do Apple II, em 1977, do IBM PC, de 1981, e de toda a revolução da computação pessoal e da internet, que viria logo em seguida, chegamos à era daquilo que o jornalista Robert X. Cringely chamou já há 16 anos de Triunfo dos nerds, em documentário sobre a maneira como jovens fora de padrão, como Steve Jobs e Bill Gates, tomaram as rédeas do mundo tal como o vivenciamos hoje. E, a partir daí, eis que surge o momento em que ser nerd é ser, sobretudo, rentável. Favor, passar a senha para entrar no clube.

COMPUTAÇÃO GRÁFICA
Para entender melhor esse cenário social e sua aplicação pragmática na vida tal como a consumimos, precisamos voltar à palestra de Neville Page. Convidado, pelo segundo ano consecutivo, a apresentar parte de seu portfólio hollywoodiano no Brasil, ele será também um dos professores da primeira escola brasileira de Computação Gráfica (CG), com padrões da indústria fincada lá em Los Angeles. Fala-se aqui da Axis, parceria inédita entre a Gnomon, mais conceituada escola de CG do mundo, com a Saga, escola brasileira com know how no ensino de técnicas em computação gráfica. E, assim como Neville, profissional bróder de gente como o diretor James Cameron, o pernambucano Rodrigo Bastos Didier, que participou da entusiasmada plateia de Neville, em março deste ano, estará em breve no papel de professor da Axis, em São Paulo.


O filme A rede social aborda o surgimento do Facebook, site que fez do jovem Mark Zuckerberg um milionário. Foto: Divulgação

Formado em Design pela UFPE, Rodrigo passou, recentemente, seis meses em Los Angeles, em um treinamento intensivo da Gnomon, voltou ao Recife e está aguardando sua convocação para se mudar para São Paulo. Desenha desde os seis anos de idade e, há cinco, aplica esses desenhos no computador. É fã da saga Senhor dos anéis no cinema e, quando comprou a caixa de DVDs com os filmes, saiu procurando os nomes dos vários artistas digitais que trabalharam na produção. “Tentei adicionar alguns no Facebook, porque eles não são estrelas. Você consegue contato fácil”, explica, admitindo que um de seus sonhos de carreira é trabalhar para a Weta, empresa da Nova Zelândia responsável por toda a criação digital de produções como o próprio Senhor dos anéis e, muito em breve, os dois filmes do Hobbit. Pelo andar da carruagem (ou melhor, dessa nave espacial que transporta ambições cada vez mais palpáveis), ele não está tão distante assim de chegar ao outro lado do hemisfério.

Ainda reticente sobre os significados que o rótulo implica, Rodrigo diz não se considerar um nerd nos padrões mais rígidos do título: “Não gosto nem de Star Trek, nem de Star Wars”, revela, sem medo de represália (e olha que, nesse caso, ela pode ser séria). Mas admite que “fica difícil não ser chamado de nerd, quando as paredes do meu quarto são pintadas com desenhos de Street Fighter e Samurai X”. Para os não iniciados, as duas referências citadas são respectivamente um game (clássico da geração Arcade) e um anime. Ele deixa claro também que sua coleção de espadas medievais nunca aumentou sua nota na faculdade, mas considera esse tipo de “investimento” essencial para quem quer trabalhar com qualquer tipo de ficção, ser aberto e apaixonado pela fantasia. “Quando uma pessoa tem contato com jogos, filmes ou RPG, ela está estudando aquilo que nem sabe estar estudando. A Blizzard (famosa editora e produtora de games), por exemplo, só contrata quem joga os jogos que ela produz”, ressalta.


A série The Big Bang Theory, que retrata o cotidiano de nerds, tem a maior audiência da TV aberta nos EUA. Foto: Divulgação

DEFINIÇÕES
Fica, então, a questão essencial por trás de duas gigantes indústrias– a da tecnologia da informação e a do entretenimento – que movem montanhas de dinheiro todo ano: o que podemos definir como nerd, e como esse grupo saiu da marginalidade social para se transformar na Coca-Cola gelada do deserto. Para responder à primeira questão, duas definições convergem. A primeira é do escritor Douglas Adams, autor de uma das “bíblias” dessa tribo, o romance O guia do mochileiro das galáxias: “Um nerd é uma pessoa que usa um telefone para falar com outras sobre... telefones”. A obsessão do meio pelo meio se aplica também, nesse caso, à noção de que não existe, a priori, um objetivo ou propósito nas pequenas grandes “taras” de um nerd. Na opinião do empresário Alexandre Ottoni, “nerd é a pessoa interessada em aprofundar seu conhecimento; ele quer saber mais. É o cara que vai descobrir um detalhe que ninguém viu em um frame de filme”.

Ottoni fala com propriedade. Sócio do Jovem Nerd – site que, nas últimas contagens, recebe cerca de 3 milhões de visitas por mês –, ele dedica sua vida, hoje, a tratar dos assuntos dentro do vasto escopo de interesse dessa comunidade, de cinema e games a quadrinhos e séries de TV. Tudo com senso de humor e piadas próprias de quem sabe com quem está dividindo a pizza. Desde 2008, trabalha exclusivamente no site que nasceu como blog, em 2002, ao lado dos demais quatro sócios. E acaba de lançar o Skynerd, que se propõe a ser, online, a primeira rede social nerd do Brasil. “A ideia surge para melhorar a interatividade das pessoas que já frequentam o site. Nosso público é extremamente fiel e o único espaço que tinha para interagir nele era a área de comentários. Fomos entendendo e pesquisando como funciona a dinâmica das redes sociais e adaptando isso para o Jovem Nerd. No nosso caso, tal como num jogo de RPG, quanto mais a pessoa interage, mais forte ela fica na comunidade.”


Rodrigo Bastos aguarda chamado para atuar em SP. Foto: Tiago Barros

Além dos cinco sócios, o Jovem Nerd conta com três funcionários, estrutura mantida a partir de anúncios dentro da página. Segundo Ottoni, “o mercado aqueceu” nessa última década. “Um holofote se acendeu sobre o nerd, por causa também de todas as revoluções da era da informação, que são controladas e criadas por pessoas consideradas nerds. Além disso, a internet possibilitou às pessoas criarem seus próprios canais de comunicação. Para fazer um programa do Jovem Nerd, por exemplo, a gente precisa realmente ir para TV? Porque temos nossa audiência fiel e um canal de mídia que controlamos 100%. Portanto...”

Laura Buu, criadora de outro site centrado nesse público, o Pink Vader (mais de 100 mil visitas por mês), concorda. “Nerd é uma palavra que terminou se banalizando. Qualquer pessoa que assiste à Game of thrones hoje é nerd. Mas acredito que o conceito vá além disso. Na minha opinião, trata-se justamente de quem se dedica mais a conhecer alguma coisa”, explica ela que, apesar de chamar de pink o site que divide com amigos, compartilha um conteúdo para meninas e meninos. Através dessa iniciativa, ela conheceu seu atual namorado, um engenheiro com quem cruzou na Campus Party de São Paulo e que, já tendo acessado o site, puxou assunto.


A saga Star Wars, de George Lucas, é uma espécie de religião para os nerds.
Imagem: Divulgação

NOVO COMMODITY
“O mundo está muito mais nerd hoje. Quem faz as séries de TV mais vistas? Quem escreve os livros mais vendidos? Quem são os diretores mais bem-sucedidos do cinema? Steven Spielberg, James Cameron... todos nerds”, aponta Mauricio Muniz, responsável pela edição de quadrinhos da Gal Editora. Ele mesmo fã hardcore de produtos populares na comunidade, Muniz acredita que o comércio do entretenimento vê potenciais cada vez mais vantajosos nesse segmento.

Por esse “mercado aquecido”, mencionado por Ottoni, Buu e Muniz, referimo-nos às duas indústrias já citadas, a da tecnologia da informação e do entretenimento, que foram criadas pelos nerds; são consumidas em massa pelo segmento; têm nesse grupo seu maior formador de opinião e, finalmente, alimentam novas gerações, distintas do perfil do indivíduo fechado em si mesmo, quase sempre míope, notívago e movido a fast food. Ainda que esse modelo esteja longe de ser extinto e tenha, a propósito de interesses comerciais, adquirido um certo charme, depois do seriado cômico de maior sucesso hoje na TV aberta americana: The Big Bang Theory.


Site O Jovem Nerd site aborda assuntos voltados para esse público. Imagem: Reprodução

Graças à própria série, a figura clássica desse sujeito alheio às mais fundamentais etiquetas do comportamento em grupo, porém extremamente inteligente no campo da ciência, tornou-se um tipo de herói possível. “Também por conta de The Big Bang Theory, criou-se um novo público para esse conteúdo. Mas é preciso dizer que há, em paralelo, uma tentativa maldisfarçada de empurrar goela abaixo esse tipo de conteúdo para consumo, de colocar o público nerd como commodity.” A opinião é de André Conti, editor do selo de quadrinhos da Companhia das Letras, que também assina uma coluna de games no jornal Folha de S.Paulo. Conti sustenta que esse público existe, sim, mas que há várias brechas para o marketing do consumo dirigido.

Ciente dessa movimentação do mercado, a Livraria Cultura inaugurou, este ano, em São Paulo, sua primeira unidade dedicada exclusivamente aos produtos que congregam esse espírito. Geek, palavra que não deixa de ser uma tentativa de atualização do nerd, é o nome do espaço. A loja está em funcionamento há dois meses e Igor Oliveira, coordenador do Projeto Geek da livraria, afirma: “A resposta está sendo espetacular”. Segundo ele, “a intenção é que todas as próximas lojas da Cultura a serem abertas tenham esse espaço”. Oliveira, que um dia já fez parte de um fã-clube de Star Wars, explica que a ideia é manter uma área com games, quadrinhos, jogos de cartas e colecionáveis, que seja acolhedora tanto para os iniciados, quanto para “a vovó que vai ali para comprar um game do Wii pro neto”.


A revista virtual Wired é uma das mais acessadas por aficionados de tecnologia.
Imagem: Reprodução

CONSUMO & PRODUÇÃO
Respondendo aos estímulos da cultura pop e de um tal mercado da inovação, os nerds estão na crista da onda da Era da Informação, tanto no que diz respeito ao consumo quanto à produção. “Na Campus Party, não apenas aproveitamos essa onda, como a ajudamos a crescer”, explica Mario Teza, que faz parcerias com governos e companhias privadas para realização de cada edição desse acontecimento tecnológico. “As empresas perceberam que seu consumidor agora é completamente diferente da geração anterior, porque seu cliente hoje pode ser o solucionador de seus problemas”, afirma o coordenador do evento no Brasil, cuja decisão de montar uma edição no Recife foi, segundo ele, movida porque “Pernambuco é o estado que mais cresce no Brasil, e o Recife a cidade que mais inova”.

Se a posição privilegiada que esse segmento usufrui é uma realidade para a esfera dos negócios, podemos dizer que ela também é a natureza de praticamente todos os movimentos sociais existentes no momento. Lembrando que o símbolo maior do ativismo que circula pelo planeta de um ano pra cá é a máscara de Guy Fawkes, sujeito que existiu na Londres da virada do século 16 para o 17, e serviu de inspiração para o quadrinista Alan Moore criar o personagem conhecido apenas como “V”, um ativista anônimo numa Inglaterra fictícia sob um regime de ditadura.


Máscara do personagem de HQ e filme V de vingança virou símbolo para hackers e ativistas. Foto: Divulgação

Essa história foi adaptada para o cinema em 2005 e, em 2011, o movimento Occupy Wall Street incorporou a simbologia da tal máscara, replicando com isso a ideia central de que é preciso que a sociedade tome controle da informação. O personagem de Alan Moore era um hacker (assim como era Steve Jobs muito antes da Apple) e essa figura do nerd que sabe quebrar códigos fechados se tornou um mártir contemporâneo. Pontuando que o Anonymous, nome do maior coletivo de hackers que existe neste momento, usa a máscara de Guy Fawkes como avatar.

Na assimiliação e ressignificação de figuras fictícias, V ou Sheldon Cooper, o nerd-alfa de The Big Bang Theory, ou na projeção de indivíduos reais como Julian Assange, mentor do Wikileaks, ferramenta que já vazou vários documentos confidenciais de governos ao redor do mundo, e Mark Zuckerberg, criador do Facebook, a rede social mais rentável de todos os tempos, percebe-se que, seja para ganhar, consumir ou denunciar, os nerds são o que há de mais excitante na bolsa dos nossos valores estéticos, éticos e financeiros. E suas ações só fazem crescer. 

Leia também:
Nerds, além do estereótipo da Sessão da Tarde
Campus Party: Onde nerds de várias cepas se encontram
“O Recife lidera a tecnologia de ponta no país”

Publicidade

veja também

Peleja: Guilherme Bauer x Ricardo Tacuchian

O protagonismo da Direção de Arte

O ativismo político na música erudita

comentários