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Banquete: O poder manifestado entre comes e bebes

Desde que a humanidade passou a sentar-se à mesa, as refeições nababescas em sociedade são utilizadas para respaldar os rumos da política

TEXTO Bruno Albertim

01 de Julho de 2012

Banquete da tropa foi retratado pelo pintor flamengo Frans Hals, em 'Guarda civil de São Jorge'

Banquete da tropa foi retratado pelo pintor flamengo Frans Hals, em 'Guarda civil de São Jorge'

Imagem Reprodução

Ainda na transição da Antiguidade para a Baixa Idade Média, adotamos um gesto que ajudaria a nos definir como seres sociais. Ao abandonar a etiqueta dos antigos jantares greco-romanos, a humanidade passou a sentar-se para fazer suas refeições em sociedade. Não mais se refestelava, em vinhos e uvas, deitada – como nas imagens cristalizadas em pinturas e filmes em que as decisões e os desmandos dos deuses eram tratados nos banquetes clássicos.

Ganhava ainda mais força, ali, a etiqueta da mesa para respaldar os rumos do poder. “A mesa seria uma redução da vida política nas cidades”, resume o historiador francês Jean-Marc Albert, autor de Às mesas do poder, um amplo ensaio histórico sobre as relações entre os dois principais substantivos do título. Desde as antigas Grécia e Roma, é longa, e permanentemente renovada, a relação entre política e comensalidade. Dos antigos festins medievais aos brindes revolucionários de Robespierre e companhia. Dos banquetes republicanos de Estado aos jantares obscuros de conchavos e acordos pouco difundidos para além da mesa. Sem esquecer a recente Primavera Árabe: foi nos cafés – onde a bebida quente e a possibilidade de acesso à internet se misturam – que alguns dos principais articuladores deram estrutura à série de levantes contra as velhas ditaduras da região.

“A passagem da posição deitada para a sentada marca uma ruptura, mais ou menos clara, entre o tempo do banquete grego e o do festim medieval”, diz Jean-Marc Albert, afirmando o caráter político que as refeições coletivas potencializam. “Os príncipes, leigos e eclesiásticos podem organizar até 150 banquetes por ano, tão numerosas são as ocasiões: casamento, acordo, festas litúrgicas, vitória militar, nascimento e partidas para a guerra ou a cruzada, coroamento de um rei ou de um papa. Pelo luxo e pela abundância exibidos, o tempo do banquete rompe simbolicamente com o cotidiano”, diz ele, sobre as grandes comilanças e bebedeiras inauguradas pelos tempos medievais.

Esses eventos apenas se renovariam com o tempo. A eleição dos cafés como arena para a construção do discurso subversivo não é privilégio do mundo árabe contemporâneo. No século 18, salões e cafés públicos se instituem como espaço privilegiado para a mistura da ingestão de alimentos com a extroversão contestatória. “Os cafés aparecem, por seu caráter de novidade, como locais de fluência da palavra: assim, Voltaire, Marmontel, Rosseau e, mais tarde, Danton e Desmoulins, são assíduos frequentadores do Procope, aberto em 1686”, informa o historiador. No Brasil independentista, conspiradores como Tiradentes trocavam o vinho luso pela cachaça pátria.

Em Açúcar, Gilberto Freyre registra que mesmo o substrato branco da cana-de- açúcar que pavimentou o projeto colonial português no Brasil e gerou a sucarocracia, uma sociedade de poder diretamente atrelado à capacidade de produzir e consumir açúcar, serviu de respaldo simbólico para a construção de discursos políticos de oposição. Já usados para homenagear clãs familiares de forte atuação político-social no Brasil das casas-grandes e senzalas, bolos foram também convertidos em símbolos comestíveis para homenagear movimentos sociais. Aqueles nomeados de 13 de Maio, Cabano, Guararapes, Legalista e Republicano são exemplos.


O também artista flamengo Frans Floris concebeu Banquete dos deuses, para os hábitos frugais da Antiguidade. Imagem: Reprodução

COMIDA É MARKETING
Dentre os recursos de approach do político contemporâneo com o eleitorado, não podemos esquecer que a alimentação tem espaço de honra. “A regra da arte política é fingir ser do povo”, lembra o historiador Jean-Marc Albert. “Evidentemente, conforme os temperamentos, isso é espontâneo ou resulta de um verdadeiro trabalho de composição”, diz ele, lembrando que, na França, por exemplo, Jacques Chirac perdeu muito em popularidade após ter sido associado a um “prato de rico”.

Peça de luxo da nouvelle cuisine francesa, movimento gastronômico de deleite para os moradores de cima da pirâmide social (e de um certo horror para os alocados nos andares debaixo), a sopa de trufas com foie gras, criada por Paul Bocuse, e de que tanto Chirac gostava, era evocada, vez por outra, para ilustrar sua pouca intimidade com o populacho.

Albert defende a tese de que “a opinião pública parece principalmente evidenciar sua preferência por aqueles retratados como bons vivants, ou seja, cheios de vitalidade e em quem podemos confiar espontaneamente. Comer bem, inclusive em quantidade, ou fazer de conta que come bem, constitui uma das chaves”, diz ele. Regra inconteste do marketing político ou não, o procedimento pôde ser visto em episódios já antológicos da recente crônica política brasileira.

Dono de um notório estômago sensível, o mesmo José Serra que demonstrou a resistência de uma bailarina de caixinha de música ao circular entre foliões do Galo da Madrugada não hesitou em comer buchada, quando visitou o município de Exu. Era o ano da graça de 2009. Enquanto Dilma se negava a falar sobre aborto e rezava com evangélicos, José Serra cantava clássicos de Luiz Gonzaga na cidade onde o compositor nasceu, no sertão pernambucano.

Como exercício para desmanchar sua imagem excessivamente sulista, não se fez de rogado diante das câmaras. Dono de uma sutil, mas calculada ostentação, mandou para dentro bons bocados da iguaria de origem europeia em que as tripas e demais pertences do bode são cozidos dentro do bucho do animal. Quem estava lá diz que sua expressão mudou também, sutil, mas tristemente, após a degustação. “Comer bode é uma questão de patriotismo”, disse, na época, o senador Jarbas Vasconcelos, um dos pilares da campanha derrotada de Serra no Nordeste. “Estes gestos artificiais podem não tirar votos, mas também não dão”, afirmou, na época, o então diretor do Ibope, Carlos Augusto Montenegro.


Reuniões comensais também se prestaram ao entrelaçamento de famílias nobres e burguesas. Imagem: Reprodução

REGRAS DO JOGO
Herdeiras históricas dos antigos festins medievais ou banquetes republicanos, as festas juninas que há pouco colocaram, como todos os anos, dissidentes e correligionários para mexer a mesma canjica, são ritos anuais obrigatórios. Neles, como em outros eventos, a comilança catalisa prestígios, intenções e planos políticos. Não por acaso, seja na capital Brasília ou nas cidade de base, festas juninas agregam a comunidade de apoio a uma série de políticos no Nordeste.

Os tradicionais banquetes são igualmente procurados por congregarem a comunidade militante e oferecerem uma nova ocasião ao orador principal de mostrar suas qualidades de comilão, quando não de gastrônomo”, analisa o historiador Albert. “A partilha do alimento cria, determina e reforça a coesão, a confiança e a convivência em torno de um grupo, como testemunham as refeições do adubamento. O dever da hospitalidade é a primeira das obrigações comensais que acompanham toda a história da mesa”, diz o estudioso, lembrando a importância simbólica dos gestos: “A exteriorização da etiqueta encontra a interiorização da ética”.


No Café Procope, o poeta francês Paul Verlaine debatia ideias com seus pares. Imagem: Reprodução

Simulacro na vida política que é, a mesa reproduz as liturgias do poder. Nos anos 1930, os banquetes do Kremlin eram todos montados em direção à figura de Stálin. Após brindes longos e teatralizados, cada um dos convivas tinha que se dirigir ao líder. Ao tocarem, obrigatoriamente, o próprio copo com o do líder, reforçavam, portanto, a simbologia sobre a centralidade da autoridade.

A ostentação gastronômica é sempre evocada como metáfora do poder econômico de um país. Vivendo no exílio durante a ditadura militar, acompanhada do falecido líder comunista Diógenes Arruda, a artista plástica pernambucana Tereza Costa Rêgo teve a oportunidade de participar de um jantar de estado da China maoísta.

“Era uma sequência interminável de pratos”, lembra a pintora, recebida pelo primeiro escalão de Mao Tsé-Tung. A artista teve que recorrer a uma diplomacia que nem suspeitava ter, para declinar o prato principal. “Depois de muitas cerimônias, eles serviram o prato. Na verdade, os miolos de um macaco semivivo. A cabeça do macaco, crânio aberto, estava presa por uma espécie de buraco numa mesa que funcionava como bandeja. Uma coisa que eles só serviam em ocasiões de muita pompa”, conta.


Coca-Cola sintetiza valores e ideais norte-americanos. Imagem: Reprodução

Os jantares contemporâneos do poder não deixam de evocar o espírito dos grandes banquetes clássicos. Com a ascensão das monarquias absolutistas, a mesa ganhou relevo nos acordos entre economias grandemente baseadas na troca – ou imposição – de favores. No século 17, a mesa do príncipe, mais do que nunca, aparece como local de dominação e de exclusão, ao mesmo tempo em que elabora uma nova ordem política. “Menos estudada que o aposento do rei, a mesa também é local de expressão da autoridade e aparece, com efeito, como metonímia do reino”, diz-nos Albert. Nesse momento, a França, ao abandonar a predominância da escola italiana nos cardápios palacianos, em prol da cozinha local, realizou um movimento de afirmação nacional. No campo das identidades, a comida pode ser ferramenta sociológica.

IDEOLOGIA COMESTÍVEL
“Durante a Guerra Fria, a comida assumiu um novo papel como arma ideológica entre capitalismo e comunismo e, em última instância, ajudou a determinar o resultado do conflito. Nos tempos modernos, ela tornou-se campo de batalha para outras questões, como comércio, desenvolvimento e globalização”, diz o jornalista inglês Tom Standage, editor de negócios e tecnologia da The Economist e autor de Uma história comestível da humanidade (Zahar), um levantamento sobre como a alimentação não apenas influenciou, mas determinou a história e os endereços do poder.


Opulência na coroação do monarca inglês George IV pretendia afirmar sua autoridade. Imagem: Reprodução

“A ascensão dos Estados Unidos e a globalização da guerra, da política, do comércio e das comunicações durante o século 20 são espelhadas pela ascensão da Coca-Cola, a marca mundial mais valiosa e mais amplamente reconhecida, universalmente considerada a personificação dos EUA e de seus valores. Para aqueles que aprovam os Estados Unidos, significa liberdade econômica e política de escolha, consumismo e democracia, o sonho norte-americano. Para os que os desaprovam, representa o capitalismo global cruel, a hegemonia das corporações e marcas globais, e a diluição das culturas e dos valores locais, na direção de uma mediocridade homogeneizada e americanizada”, discorre o mesmo autor em outro livro, A história do mundo em seis copos (Zahar), um ensaio sobre a preponderância de um tipo de bebida em cada ciclo histórico. “Assim como a história do Império Britânico pode ser vista numa xícara de chá, a ascensão dos Estados Unidos à superioridade global também tem seu paralelo na história da Coca-Cola – aquela bebida marrom, doce e efervescente.”

Séculos antes, sem a produtividade e concentração calórica da batata, o precioso tubérculo descoberto na América, a Inglaterra não teria conseguido liberar mão de obra da atividade agrícola para empregá-la no esforço que fez do país a primeira grande nação industrial do mundo. “Enquanto nações europeias competiam para construir impérios globais, os alimentos ajudaram a promover a próxima grande transformação na história humana: um surto de desenvolvimento econômico através da industrialização. O açúcar e a batata, tanto quanto a máquina a vapor, sustentaram a Revolução Industrial”, diz o autor, em História comestível da humanidade.

Mesmo o recente movimento de reconhecer como patrimônio cultural receitas e ingredientes regionais pode estar a serviço de determinadas ideologias. “A eleição de alguns bens como patrimônios pode sempre privilegiar uma determinada facção de produtores em detrimento de outras”, lembrou, de passagem pelo Brasil, o sociólogo italiano Massimo Montanari, autor de clássicos como Comida e cultura (Ed. Senac). “Uma tradição, no fundo, é uma inovação bem-sucedida”, reflete. Só os tolos, realmente, poderão acreditar que panelas e pratos contém apenas ingredientes e receitas. 

BRUNO ALBERTIM, jornalista e crítico gastronômico, atua no Jornal do Commercio.

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