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Elis Regina: Doces marcas da Pimentinha

Nos 30 anos de morte da cantora gaúcha, fatos pouco conhecidos e fotografias inéditas são recuperados, além da última entrevista concedida no Recife

TEXTO Marcelo Robalinho

01 de Janeiro de 2012

Imagem de 'Transversal do tempo', elogiado espetáculo, que teve disco gravado ao vivo

Imagem de 'Transversal do tempo', elogiado espetáculo, que teve disco gravado ao vivo

Foto U.Dettmar-Mar.78/Folhapress

No início de 1982, Elis Regina ligou para amigos, em Pernambuco, combinando passar alguns dias de férias em Boa Viagem e numa praia do litoral do estado, assim que terminasse de gravar o novo disco, em fevereiro daquele ano. A viagem poderia ter-se concretizado, não fosse sua morte prematura, em 19 de janeiro. Trinta anos após o falecimento da cantora, a Continente conversou com alguns de seus amigos e buscou arquivos, a fim de contar histórias pouco conhecidas a seu respeito. Encontrou fotografias inéditas, além da última entrevista concedida por Elis, no Recife.

Um dos fatos mais inusitados envolve Dom Helder Câmara. Em 1978, Elis esteve no Recife com a turnê do espetáculo Transversal do tempo, e teve a oportunidade de conhecer o religioso, então arcebispo de Olinda e Recife, por intermédio da atriz e estudiosa em cultura popular Leda Alves, amiga de Elis. O encontro ocorreu momentos antes da via-sacra celebrada por D. Helder, na Matriz de São José, no Forte de Cinco Pontas, em favor da libertação do estudante Edval Nunes da Silva, o Cajá. Membro da Comissão de Justiça e Paz, ele havia sido sequestrado e preso, no dia 12 de maio, pela Polícia Federal, sob a acusação de tentar reorganizar o Partido Comunista Revolucionário, que atuou clandestinamente durante a ditadura militar. Houve protestos de universitários, exigindo o fim das torturas e a libertação de Cajá.

“Elis estava no Recife naquela época e disse que tinha o desejo grande de conhecer D. Helder. Coincidentemente, eu disse que ia encontrá-lo no mesmo dia, então ela foi junto. O encontro dos dois foi muito emocionante. Ela acabou se oferecendo para cantar na via-sacra. Foi ao altar da igreja e entoou os cânticos, que foram sendo repetidos pelos fiéis. Todos ficaram sensibilizados com a coragem dela de cantar em favor de Cajá, pois ainda estávamos num período de ditadura militar”, conta Leda, que conheceu Elis através de Frei Betto, amigo em comum das duas.


Elis brinca com o primogênito João Marcelo Bôscoli, que, adulto, se tornaria dono da gravadora Trama. Foto: Reprodução

Pouca gente sabe, mas o arcebispo atuou nos bastidores da missa de 7º dia em homenagem à cantora, ocorrida no dia 26 de janeiro de 1982, na Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos. O Recife foi a primeira capital no país a promover a celebração. “Cogitamos com D. Helder a possibilidade de ele rezar a missa. Mas ainda vivíamos uma época politicamente complicada e ele era muito visado. Então, preferiu ajudar mais reservadamente, deixando a celebração para o pároco da igreja”, revela Yeda Almeida, que trabalhava como assessora local da gravadora Polygram (atual Universal Music) e era amiga de Elis. A mensagem do cartão de Natal de 1981, enviado pela cantora aos amigos, era uma citação do arcebispo: “O que há de apaixonante é que, desta vez, o esforço tem de ser de todos, por todos e para todos”.

Assim como Leda Alves, Yeda e o seu marido, Adailto Almeida (representante geral da Polygram no Recife) conheceram Elis em 1978. Com a ida da turnê dela à cidade, o casal assumiu a produção local, algo que, até então, os dois nunca tinham feito. “Topamos a iniciativa para poder trazer o espetáculo dela. Tinha receio de conhecê-la, por todas as histórias que contavam sobre seu temperamento difícil. Porém, assim que cruzamos olhares, na chegada ao aeroporto, ela com Maria Rita, ainda bebê, nos braços e segurando o Pedrinho (o cantor Pedro Mariano) pela mão, sentimos uma empatia muito forte uma pela outra. Ficamos amigos de Elis e César Mariano (pianista e marido da cantora no período) e passamos a nos visitar em Pernambuco, São Paulo e no Rio de Janeiro, sobretudo nas apresentações dela”, conta Yeda.


D. Helder, Elis e Leda Alves, que apresentou o arcebispo à cantora. Elis se dispôs a cantar na via-sacra promovida por ele pela libertação do preso político Cajá.
Foto: Reprodução/Arquivo pessoal Leda Alves

BOM HUMOR
Lula Cardoso Ayres Filho também teve contato com Elis no Recife, nesse período, e destaca o seu lado bem-humorado. “Conheci a Elis através do compositor Maurício Tapajós, que era um dos diretores do Transversal e grande amigo meu. Fomos jantar após a estreia do espetáculo, no Teatro de Santa Isabel, e daí passamos a nos conhecer melhor. Ela e César foram à minha antiga casa, em Piedade (Jaboatão dos Guararapes), durante sessões de cinema que promovi. Era um casal muito simpático, culto e simples no trato com as pessoas, bem diferente do que falavam”, afirma Lula.

Ele lembra que, numa noite, na casa de Adailto e Yeda, ouvindo o disco gravado ao vivo de Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Toquinho e Miúcha, comentou como seria bom se trocassem a Miúcha e o Toquinho por Elis e João Gilberto. “De pronto, ela brincou: ‘Você está querendo o que mais? Jesus Cristo no contrabaixo e Deus na bateria?’. As tiradas dela eram muito engraçadas”, comenta.

Elis e o Quinteto Violado também tiveram uma boa proximidade. No início dos anos 1970, o irmão dela, Rogério Costa, trabalhou como técnico de som do grupo. “Rogério passava por problemas pessoais e foi trabalhar conosco por indicação de Roberto Santana, produtor-executivo da Phonogram e amigo de Elis. Tivemos simpatia por ele, que se integrou à banda, modificando-a bastante. Isso chamou a atenção de Elis, que passou a ter uma relação carinhosa com a gente e levou Rogério para trabalhar como técnico dela, depois”, conta Marcelo Melo, um dos fundadores do grupo.


Cantora em show no Sport Club do Recife, no final dos anos 1960. Foto: Arnaldo Barros

Marcelo lembra que, uma vez, a cantora chegou a expor a vontade de gravar um disco com a banda. “Elis queria que o Quinteto fizesse os arranjos para um disco dela. Era um período em que estava descobrindo o som do Nordeste e se mostrava encantada com isso. Tínhamos uma sonoridade diferente da sua banda, e acho que ela queria experimentar algo novo. Chegou-se a falar em criar um repertório, mas não conseguimos levar adiante a proposta, devido aos nossos compromissos profissionais”, recorda. Do Quinteto, Toinho Alves (falecido em 2008) era o grande amigo dela.

FULA DA VIDA
Mesmo com todas as qualidades, Elis também tinha o seu lado explosivo, o que lhe rendeu o apelido de Pimentinha, dado por Vinicius de Moraes. Que o diga a radialista Carminha Pereira. Em 1978, Carminha entrevistou Elis para uma matéria no extinto periódico A Semana. “Aproveitei o nome do espetáculo Transversal do tempo e sugeri ao jornal o título: ‘Uma transversal no tempo de Elis’, para retratar as preocupações artísticas dela na época. Só que o editor modificou o título para: ‘Flávio Cavalcanti só quer aparecer’, utilizando o trecho de uma fala dela sem qualquer contextualização. Isso mudou completamente o sentido e deu um tom sensacionalista à matéria. Assim que Elis viu o texto publicado, ficou fula da vida, porque parecia que eu fazia parte da imprensa marrom”, relembra. O desentendimento ocorreu na reunião promovida por Elis com músicos pernambucanos na antiga sede da Casa do Radioamador de Pernambuco, no Espinheiro, para expor as diretrizes da Associação de Intérpretes e Músicos (Assim). Na ocasião, amigos de Carminha que conheciam Elis buscaram contornar o mal-entendido.


Em foto inédita, Elis Regina conversando com jornalistas, no Othon Palace Hotel, em dezembro de 1979. Foto: Arnaldo Barros

Logo após o incidente, a radialista decidiu entregar uma carta protocolada ao jornal, informando sobre o seu desligamento, e enviou uma cópia dessa correspondência para Elis, junto com uma cópia da entrevista e da matéria original. “Elis nomeou um advogado, que encaminhou ao jornal uma carta assinada por ela reclamando da modificação feita no texto e reconhecendo que o problema não tinha sido causado por mim. Felizmente, eu tinha provas e pude mostrar-lhe que o fato ocorreu à minha revelia”, afirma Carminha. A radialista guarda uma cópia dessa correspondência até hoje.

Em 13 dezembro de 1979, Carminha reencontrou Elis para uma nova entrevista, a última concedida pela cantora no Recife, para o programa Sábado Som, da Rádio Jovem Cap. Foi durante a turnê do show Essa mulher, apresentado no Teatro do Parque. A conversa ocorreu no Othon Palace Hotel, em Boa Viagem, na suíte em que Elis, César e os filhos estavam hospedados. A Continente teve acesso a uma cópia da entrevista. Num clima descontraído, Elis falou sobre vários assuntos. Fez um balanço da década de 1970, opinou sobre o problema da violência no Brasil, comentou sobre a situação do músico brasileiro e contou como gravou, pela primeira vez, uma música inédita do Cartola.


Jornal noticia vontade da cantora de passar temporada em Pernambuco, onde tinha amigos, como o compositor Capiba. Imagem: Reprodução

“Eu gosto muito do Recife, independentemente do lance da cultura popular, que é um negócio que dá uma reciclada na gente em termos de brasilidade. Ainda tem muita coisa de brasileiro para ser vista por aqui. Cada dia que passa, isso está rareando no sul do país”, afirmou Elis. Na entrevista, ela demonstrou a vontade de fazer um show na cidade a preços mais populares. “Ano que vem, se Deus quiser, volto para um espaço maior para poder cantar, afinal, para um grande público”, prometia a cantora. Em 1980, no espetáculo Saudade do Brasil, apresentado apenas no Rio de Janeiro e em São Paulo, a roda formada no palco no final das apresentações com ela, os 13 músicos e 11 bailarinos, para dançar a canção Redescobrir (composta por Gonzaguinha especialmente para ela), era uma referência direta à ciranda, uma dança típica das praias pernambucanas, segundo Marika Gidali, criadora do Ballet Stagium e coreógrafa do show.

A morte de Elis, aos 36 anos de idade, pegou todos de surpresa. Exames toxicológicos atestaram a presença de cocaína e álcool no seu sangue. Artistas e amigos chegaram a contestar o resultado, pela fama de careta da cantora. “Um mês antes de morrer, ela ligou para mim, combinando que iria a Pernambuco com o namorado na época, o advogado Samuel MacDowell, e os filhos, para descansar por alguns dias, após a gravação do seu disco (que não foi feito). Como eu estava me mudando para a Bahia, combinei que deixaria o meu apartamento em Boa Viagem, ainda montado, para que ela pudesse ficar no Recife, e acertei com uma transportadora que faria a mudança depois da sua saída. A notícia da morte foi um choque para mim. Passei um tempo mal e até hoje sinto uma saudade muito grande dela”, lamenta Yeda. Em 20 de janeiro de 1982, o Jornal do Commercio noticiou sobre os planos da cantora de vir a Pernambuco.


Nota publicada em jornal pelos produtores Yeda e Adaílton Almeida, que se tornaram amigos da intérprete. Imagem: Reprodução

Tempos depois, Yeda Almeida recebeu do irmão de Elis um par de sapatilhas que a cantora havia comprado para ela. “Elis não teve tempo de me dar. Só que comprou um número semelhante ao dela, que era 35/36, enquanto eu calço 37/38. Guardei o presente com todo o carinho e decidi dar a Maria Rita, quando crescesse e se calçasse o mesmo número, o que acabei fazendo numa de suas apresentações em Salvador”, disse.

Leda Alves também guardou, até 2005, um colar com uma grande pomba de madrepérola, presenteado por Elis ainda em vida e decidiu dar a Maria Rita depois que se tornou cantora. “Quando ela veio para uma apresentação no Recife, fui ao hotel em que estava hospedada e lhe dei uma caixa-vitrine montada pelo artista plástico Bernardo Dimenstein, contendo o colar, uma foto tirada durante a via-sacra com Dom Helder, Elis e eu e peças do fã-clube Elis em Movimento, que havia em São Paulo”, diz Leda, atual presidente da Companhia Editora de Pernambuco (Cepe). 

SHOWS E MOSTRAS MARCAM OS 30 ANOS DE MORTE


Interpretação marcante de Atrás da porta, em especial de TV. Foto: Reprodução

O Recife está inserido na rota de homenagens que marcarão os 30 anos da morte de Elis, em 2012. Ao longo do ano, está prevista a realização de dois grandes shows e uma exposição multimídia na cidade. Uma das apresentações será de Maria Rita. A partir de março, ela inicia uma turnê por cinco capitais brasileiras, cantando apenas músicas imortalizadas pela mãe. Além do Recife, o espetáculo passará por São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Belo Horizonte. Os shows serão gratuitos e ocorrerão em locais públicos.

“O Recife foi escolhido pela ligação afetiva que Elis tinha com a cidade. Minha mãe sempre levava a família junto, quando ia fazer shows na cidade. Além disso, a Trama tem uma relação forte com artistas da terra”, explica João Marcello Bôscoli, filho mais velho de Elis com o compositor Ronaldo Bôscoli e diretor da gravadora.

João Marcelo é o organizador da exposição que passará pelo Recife depois da apresentação de Maria Rita. A proposta é pontuar a trajetória da cantora por meio de fotos, entrevistas, figurinos dos espetáculos, imagens de shows e objetos pessoais. Um documentário e um novo livro sobre Elis, que será distribuído gratuitamente para bibliotecas públicas de todo o país, também farão parte da mostra.

A capital pernambucana também está na pauta de outra série de shows, que reunirá no mesmo palco Milton Nascimento, Ivan Lins, João Bosco e Renato Teixeira, compositores lançados por Elis Regina. A turnê está sendo organizada pela Palco Produções, produtora baiana do casal Adailto e Yeda Almeida. “É uma forma de lembrar a nossa amiga”, explica Adailto. As datas e locais ainda estão sendo definidos.

No final deste mês, serão lançadas duas caixas com 12 CDs cada: Elis nos anos 60 e Elis nos anos 70. A novidade é a gravação inédita de Comigo é assim, de Luiz Bittencourt e José Menezes, encontrada nos arquivos da gravadora Universal. 

MARCELO ROBALINHO, jornalista e doutorando em Comunicação em Saúde, na Fiocruz.

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