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Os fora-da-lei de Ploeg

TEXTO José Cláudio

01 de Setembro de 2011

'Gilvan Samico e Marcelo Peregrino' (2010), de Roberto Ploeg. Óleo sobre tela, 1,20x1,60m.

'Gilvan Samico e Marcelo Peregrino' (2010), de Roberto Ploeg. Óleo sobre tela, 1,20x1,60m.

Imagem Reprodução

Foi o pintor Roberto Ploeg quem me ensinou: “onde existe amor, aí está Deus”. Mas eu já sabia de Sto. Agostinho: “ama e faz o que quiseres”. Me lembro disso por antinomia ou antagonismo quando vi o retrato que ele fez de Mané Tatu, meu filho, também eu incluído na lista de convidados, como modelo, da série dos fora-da-lei encetada pelo pintor. Às vezes o cara de fora—embora Ploeg não seja mais estrangeiro a não ser quanto à origem, e isso significa muito, creio—vê mais do que nós que, pela repetição, já não conseguimos enxergar esse tipo de retrato a contragosto, do bandido, banalizado pela televisão. Nem sempre a contragosto porque alguns até posam rindo como aquela personagem que dizia: “Mamãe, eu estou na Globo”. Mas a maioria ainda parece temer esses quinze minutos de fama que muito antes de Andy Warhol já assinalava Lima Barreto (O Triste Fim de Policarpo Quaresma). São indivíduos procurando esconder a cara, entortando o pescoço, enrolando a camisa nos pulsos para disfarçar as algemas. E não somente batedor de carteira e a bandidagem miúda, assassinos de sinal de trânsito, descuidistas, ventanistas, ou gangues de arrombadores de caixa-eletrônico ou membros de grupos maiores que recebem as ordens vindas de dentro dos presídios e outros tipos mil de criminosos, uxoricidas, estupradores e pedófilos, e sei mais lá o que, mas os de maior envergadura, os de colarinho branco que ocupam altos cargos, muitos dos quais até pouco tempo “livravam a cara” tranquilamente: estes desfilam de paletó em vez de camisa enrolada no pulso com ares de cidadão de bem, naquela encenação de constrangimento como se fossem vítimas de algum mal-entendido.

Mesmo nesses retratos “de brincadeira” o bom retratista que é Ploeg mostra a sua competência, embora sempre me recuse a usar esse termo discutível— competência — quando se fala de arte: em que consiste, aonde vai, de acordo com qual época, na visão de quem, em relação a que, onde, mediante quais parâmetros? Muita epistemologia para minha pouca ciência.

Pode-se viver sem poesia mas sem água não, já dizia o poeta Wystan Hugh Auden, inglês (1907-1973). Muitos séculos antes, Sócrates fez a seguinte pergunta a um menino que encontrou na rua: “Onde podemos encontrar os bens necessários à vida?” O menino respondeu: “No mercado”. E respondendo “no mercado” ao futuro mestre, o menino Xenofonte não deve ter imaginado, entre os bens necessários à vida, a pintura, embora na terra de Zêuxis. Os que fazemos dela profissão, bem que poderíamos ser mandados para a lavoura ou outra atividade produtiva, ser arrolados no lumpemproletariado, algemados como delinquentes, aparecermos na televisão virando a cara para a parede, cobrindo a cabeça ou as algemas com a camisa. Mas “nem só de pão vive o homem” já dizia Cristo.

A simulação de Ploeg não deixa de ter sua razão de ser. Picasso disse “a pintura é uma mentira que mostra a verdade”. Parece que quanto mais se faça para melhorar a vida material dos seres humanos, num primeiro momento o que vem à tona é a ferocidade, numa volta à barbárie.

Outro dia lembrei numa crônica, falando da exposição de Ismael Caldas, a expressão “antenas da raça”, dirigida aos artistas. Trotski disse “O artista é um profeta. As obras de arte encarnam pressentimentos” (Literatura e revolução). Sempre houve os “anunciadores de desgraças”, como no poema de Ascenso Ferreira. Lembro Ismael Caldas, Gil Vicente além de Roberto Ploeg, só aqui no Recife e me ocorre o título de Faulkner Enquanto agonizo. Não custa imaginarmo-nos, mesmo quando a humanidade tiver resolvido seus problemas materiais, agonizantes no meio da fartura. Na necessidade ancestral de bode expiatório, tanto se pode partir para a execução dos dirigentes, dos que mandam, dos que detêm o poder, como para o massacre da arraia-miúda, dos indefesos, do referido lumpemproletariado, dos fora-da-lei.

Ploeg realizou uma série de quadros que é um hino à arte de Pernambuco, me perdoem o arroubo. Lamentável seja tal conjunto desmembrado, perdendo-se a visão do todo. Vale a pena ver juntos todos os retratos permitindo-nos comparar o quanto consegue o pintor captar a individualidade de cada modelo, o fulgor, pegado no ar, do olhar de Samico, a elegância consumada de Pedro Frederico, a humildade franciscana de Reynaldo Fonseca, a fidelidade ao aspecto físico que aumenta o valor desse inspirado testemunho. 

JOSÉ CLÁUDIO, artista plástico.

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