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Internet: Processando novos dados

O esforço de pensadores, jornalistas, amadores e juristas para atualizar seus campos, em meio a uma revolução que já provou ser muito mais do que apenas digital

TEXTO Thiago Lins

01 de Setembro de 2011

Imagem Hallina Beltrão

Não se estranhe se, de repente, alguém lhe disser para esquecer tudo o que aprendeu sobre teoria e mercado da comunicação. Ou, pelo menos, rever seus conceitos, com a consciência de que eles podem mudar em pouco tempo, em decorrência de um post. Ou de um tweet. Notícias ficam velhas de uma hora para outra, o que ocorre também com a Teoria da Comunicação, o Direito e os fluxos de mercado.

“Os valores estão sendo processados a cada momento”, declama o webguru Manuel Castells, em Comunicación y poder, um calhamaço necessário ao entendimento da comunicação na era 2.0. Ou seria 3.0? É, a tal “pedra angular da economia política clássica” não tem uma resposta pronta sobre a sociedade conectada, como o espanhol reforça. Com uma visão mais mercadológica, seu contemporâneo Chris Anderson é direto e vai mais longe, situando-nos no processo histórico.

Em A cauda longa, o editor-chefe da Wired (“revista de cabeceira” dos nerds) expõe argumentos pertinentes e traça paralelos entre a internet e outras grandes revoluções da humanidade, sublinhando a importância do distanciamento temporal para o entendimento das mesmas. “Não é à toa que estamos discutindo Darwin até hoje”, resume, em seu best-seller. Não é à toa, também, que os teóricos comparam a Era digital à Revolução Industrial – outro fato histórico que ainda não deixou de ser discutido.

A associação não soa exagerada. A história condiciona a definição do tempo e do espaço à aparição de novas estruturas sociais, algo com o qual estamos nos deparando agora. Acontece que, dessa vez, não é físico. É digital. Mas também econômico, político e, principalmente, social. E é esse “caráter democrático” que mais intriga acadêmicos e analistas. Grosso modo, a cultura de massa não deixou de existir, mas deixou de ser o único mercado, dada a consolidação de nichos propiciada pela internet. A constatação dispensa dados.

Basta lembrar os blogs e perfis do Twitter que visitamos: são pessoais em sua maioria. Quando deixaram de ser, é porque o número de visitantes chamou a atenção de algum portal, o que os fez mudar de endereço e de dimensão, mas não necessariamente de conteúdo. Provavelmente, as pastas do seu iPod têm músicas bem diferentes das tocadas nas previsíveis FMs, ou na recauchutada MTV: você pode ter visto o onipresente clipe de Oração, da Banda Mais Bonita da Cidade, no Fantástico. Mas certamente o viu primeiro no Youtube, a partir da indicação de algum amigo no Facebook ou no Twitter, alguém com quem você divide afinidades.

Nas redes sociais, o conteúdo é autogerado, enquanto a recepção é autosselecionada. Você pode fazer. Alguém pode escolher. Bilateral é pouco. Os conceitos são muitos e amplos: autocomunicação de massas, comunicação plurilateral, sistema de resposta. A diversidade é um reflexo da “economia da abundância” dissecada por Chris Anderson, para quem a acessibilidade a praticamente qualquer conteúdo na rede acabou enterrando a velha “economia da escassez”, da era pré-internet, quando a televisão e o rádio ditavam o que era notícia. O conceito de “monomídia” hoje é tão obsoleto, que causa estranhamento.

A multimídia, por sua vez, agrega neologismos ainda mais curiosos: massclusivity (exclusividade em massa), narrowcasting (dirigido a um público segmentado, ao contrário da generalização do broadcast) e customização de massas. Na prática, os termos dizem respeito a nichos que têm se revelado filões rendosos, mudando os números e até a essência do mercado da comunicação.


O pesquisador Chris Anderson defende que não se pode subestimar o poder de “um milhão de amadores”. Foto: Divulgação

Imagine, há 10 anos, a probabilidade de sucesso de um site de amigos sobre cultura pop em geral. Soa batido, se considerarmos o espaço usual que os jornais e revistas concedem a cinema, música etc. Mas esses veículos raramente privilegiam, por exemplo, imagens do set do próximo longa da franquia Batman, ou de um uniforme alternativo disponível no game do personagem. Há quem ache que só os nerds de plantão, aqueles que se fantasiam de Darth Vader na estreia de algum Star Wars, se interessem por tais detalhes. Engano.

Foi mesclando cobertura jornalística tradicional (embora seus textos transmitam mais familiaridade com os assuntos e mais paixão do que os de cadernos culturais, por exemplo), com insights geeks, que oOmelete, um site bonitinho sobre cultura pop, alcançou status de portal. Hoje, contabiliza nada menos que 2,2 milhões de visitantes por mês, totalizando 27 milhões de page views no mesmo período. Os dados estão disponíveis no botão de anúncio, onde há o link para falar com a “equipe comercial” do endereço: um negócio segmentado e exclusivo, de certa forma. E bom.

Como é recorrente com endereços que se tornam referência em um nicho, o Omelete acabou hospedado no iG, este, sim, um portal, num sentido mais pleno, agregando notícias em geral. Grosso modo, ter um blog hospedado em um portal representa para os seus autores mais ou menos o que um contrato com uma grande gravadora representava para os músicos há alguns anos: um atestado de sucesso.

“Há uma relação de conteúdo e uma relação comercial”, detalha Gustavo Belarmino, editor do portal NE10, do Sistema Jornal do Commercio. Portais ganham conteúdo, blogueiros ganham dinheiro. Sem fugir à regra, o portal em queBelarmino trabalha já hospeda blogs incensados. O editor, que também é professor de pós-graduação em Jornalismo online, admite que volta e meia ainda se surpreende com o número de visitas em blogs do NE10, lembrando que o custo, “relativamente barato” da internet, favorece à explosão no meio.

DIVERSIFICAÇÃO
À medida que os portais diversificam seu conteúdo, jornalistas têm que fazer o mesmo com suas habilidades. Formado em 1999, Belarmino ministra disciplinas e trabalha com ferramentas que não existiam naquela época. Reconhece, no entanto, que não deixa de aplicar alguns conceitos de jornalismo daquele tempo, assim como sua própria “experiência de mundo”.

Requisitos antigos e mais específicos, como língua estrangeira e especialização, não deixam de ser determinantes em certas áreas, mas hoje podem perder força, num contexto genérico. É simples: o jornalista não vai entrevistar um estrangeiro todo dia. Provavelmente, não vai, também, escrever sobre sua especialidade com a mesma frequência de antes. Nunca vai parar de escrever. Acontece que esta prática, agora, está quase sempre acompanhada de fotografar, filmar e editar. Há redações em que o jornalista se desdobra entre o impresso e o digital. Estaríamos dando conta dessa ramificação de exigências?

“Um bom jornalista deve saber escrever,dominar outras línguas e manipular as novas ferramentas para que elas ampliem a capacidade do seu trabalho. Acho que os novos dispositivos e suas ferramentas, como as redes e mídias ditas sociais, são, mais do que uma ameaça, uma oportunidade para que o jornalismo cumpra a sua função social de informar, de questionar os poderes constituídos, de ampliar as formas de transparência”, defende o professor André Lemos, do departamento de Comunicação da UFBA.


André Lemos, professor da UFBA, é um dos brasileiros que têm refletido sobre o cyberespaço. Foto: Divulgação

Doutor em Sociologia pela Sorbonne e autor de livros como Janela do cyberespaço (em coautoria com Marcos Palacios), Lemos atenta para outra questão: “O perigo é justamente ficarmos reféns dos fatos (sem saber discernir o conteúdo do envelope) ou dos artefatos (cuidando bem do uso dos instrumentos e esquecendo o domínio da escrita e da narrativa). Um bom jornalista deve saber contar histórias, dominar a escrita e as ferramentas, do lápis ao computador”.

“Saber contar histórias”, aliás, é o que pode explicar a resistência da profissão. “A economia das empresas jornalísticas é formada por valores intangíveis, como credibilidade, prestígio, projeção e influência”, defende o repórter Lourival Sant´Anna, no livro O destino do jornal. Fazendo coro com Lourival, a doutora em Comunicação, Adriana Santana, recorre a Janet Murray, autora de Hamlet no holodeck – O futuro da narrativa no cyberespaço, pinçando um argumento do livro: “Mesmo com todos os avanços tecnológicos, o investimento na narrativa ainda é o mais importante”, lembra. Estamos a salvo. O amador pode lançar um vídeo e atingir milhões de visualizações, mas isso não quer dizer, necessariamente, que deixemos de acompanhar uma matéria posterior, sobre o mesmo assunto, na TV ou num impresso.

O próprio Chris Anderson, que lista críticas ao broadcast em seus artigos, afirma que não podemos subestimar “o poder de um milhão de amadores”, mas ressalva que os amadores participam da mídia porque querem. Querem compartilhar conteúdo, e não lucro. Afinal, o dinheiro está entre os tais valores em reprocessamento. Tweets e o botão “curtir” no Facebook já foram praticamente instituídos como moedas de troca, modo de operar que a empresa de consultoria Frog Design define como “Era da recomendação”. A empresa americana talvez esteja muito avançada, mas afirma que a era mencionada já substituiu a da informação.

O dinheiro de papel, por sua vez, ainda não foi substituído. Mas, recentemente, uma moeda começou a circular em bits, de onde deriva o nome: Bitcoin. O programa, ainda em fase beta, funciona como uma troca de serviços, concentrados num banco de dados. Um desenvolvedor de software, por exemplo, pode prestar um serviço e ser “pago” com acesso ao código de algum outro software do seu interesse. Essa é uma negociação mais recorrente no Bitcoin, mas o programa ainda permite a troca de bens materiais. E o dinheiro de papel, como veremos, continua circulando pelos conglomerados da comunicação.

DIÁRIOS
Embora os diários (impressos e virtuais) estejam em queda nos EUA e Europa, o panorama não é tão ruim quanto parece. O recente prejuízo de mais de 10 milhões de dólares que a News Corp (do “controverso” Rupert Murdoch) teve com o diário virtual The Daily pode, na verdade, ser considerado um investimento. A Amazon.com não deu lucro da noite para o dia: a empresa simplesmente estava à frente de seu tempo.

Enquanto isso, o bom e velho jornal impresso enfrenta situação, no Brasil, que em muito difere dos EUA e da Europa. O caso da Washington Post Corporation (que edita o jornal homônimo) é sintomático: depois de lucrar 92 milhões de dólares no segundo trimestre de 2009, a corporação não passou de 45 milhões, entre os últimos abril e junho, gerando uma queda de 4% na circulação da edição impressa, com 534 mil exemplares em média, de segunda a sábado. Aos domingos, o número chega a 745 mil. A tiragem ainda é expressiva, mas insuficiente para deter a queda nos anúncios, de 12%, no impresso e um alarmante 13%, no online.

Os dados divulgados pelo conglomerado, no entanto, sustentam que a demanda por TV aberta e por assinatura estão crescendo, e a queda da receita nesse setor (de 8% em um ano) pode ser justificada pelos próprios investimentos que a WPC vem fazendo. Por último, o relatório aponta a queda na publicidade impressa como um problema crônico. A perda de nada menos que 67 milhões de dólares se deveria à prioridade que empresas têm dado a ações virtuais, mais baratas.


Manual Castells é autor de Comunicación y poder, publicação necessária ao entendimento da comunicação hoje. Foto: Divulgação

No Brasil de Chatô e Roberto Marinho, a situação é inversa. No primeiro semestre deste ano, foi registrada a maior circulação da história dos jornais nacionais. A pesquisa do Instituto Verificador de Circulação (IVC) aponta que os impressos brasileiros somam quase 4 milhões e 500 mil cópias diárias. À frente, jornais como a Folha de S.Paulo, com mais de 305 mil exemplares todos os dias, seguida de perto pelo mineiro Super Noticias (302 mil). O tabloide popular é ponta de lança de um formato que surfa na emergência das classes C e D, as maiores beneficiadas pela grande expansão do crédito que marcou o Governo Lula: antes de essas classes comprarem computadores e assinarem planos de banda larga (o maior entrave à inclusão digital), elas compram tabloides e televisores.

A febre das TVs de LED e plasma parece ter contagiado a assinatura de programação a cabo, cujo crescimento foi significativo. Em janeiro, a Anatel publicou um levantamento segundo o qual as assinaturas aumentaram 30% em apenas um ano, atingindo praticamente 10 milhões de domicílios. Já a TV aberta fechou 2010 (ano de Copa do Mundo) no azul. O megaevento foi determinante para o crescimento de 20% da receita publicitária (mais de 16 bilhões de reais), de acordo com a instituição Inter-Meios. O mesmo estudo aponta para um crescimento de 17% da renda de todos os meios de comunicação no Brasil, desenhando um cenário positivo até para o rádio (subindo 11%) e revistas impressas (16%), mesmo número que indica um nicho promissor na internet. O conjunto representa o segundo maior crescimento do mercado da comunicação, em toda sua história, no Brasil.

AI-5 DIGITAL”
Os dados mencionados mostram que, pelo menos no Brasil, o mercado tem se revelado sólido em meios tradicionais, e promissor, no ramo digital. O segundo, que é usualmente celebrado por sua liberdade absoluta, pode ganhar seu primeiro “marco civil nacional”, para usar um eufemismo. O Projeto Azeredo, que data da época em que o mesmo ainda era senador, propõe o rastreamento de dados e navegação do usuário comum como medida de segurança, o que tem suscitado campanhas inflamadamente contrárias à ideia nas redes sociais, como a comunidade Não ao AI-5 Digital, que corre no Facebook.

Com previsão de apreciação na Câmara ainda esse mês, o projeto que “tipifica crimes” na web vem despertando críticas por estabelecer o que é crime antes mesmo de estabelecer direitos. Entidades da indústria do entretenimento já fazem lobby a favor. Por outro lado, críticos defendem que o Projeto de Lei ameaça a presunção da inocência, convertendo cidadãos em criminosos até que se prove o contrário. Talvez seja muito barulho por nada. Em tese, a TV e o rádio sempre foram regulados, mas suas concessões, que no papel são reguladas por uma série de exigências, na prática se revelam tão permissivas quanto qualquer outro negócio.

Há, ainda, interpretações que podem ser feitas a partir da lei “real e concreta”, como afirma o advogado Gustavo Escobar, especialista em propriedade intelectual. Escobar lembra, também, que a proposta do senador não é exatamente uma novidade, por listar e adaptar alguns artigos já existentes na Constituição, e alerta para o custo que sua implantação poderia acarretar.

Nas redes sociais, as críticas são contra a instituição do monitoramento do usuário e a provável vulnerabilidade de dados pessoais. Razões como essas foram mencionadas no abaixo-assinado “Pelo veto ao projeto de cibercrimes”, que somou mais de 160 mil nomes. Incisivo, o pesquisador Silvio Meira publicou um artigo, com o oportuno título A rede em risco, em que traça paralelos entre os pontos do Projeto de Lei e os interesses de “defensores do antigo status quo”, Meira alerta para uma suposta transformação da multimídia “em mídia”. Mais precisamente, um retrocesso. Seria o fim da internet como a conhecemos. Em outra ponta geográfica e virtual, a Islândia provou a força da internet enquanto ferramenta inclusiva. O governo daquele país está revisando sua Constituição, que data de 1944. Qualquer um pode participar do processo – via Facebook. Em artigo, Ronaldo Lemos, diretor do Creative Commons no Brasil, vibrou. “Os cidadãos participam em todos os momentos e não somente na hora do voto, para referendar um texto já pronto”, sublinhou, traçando um paralelo interessante com a nossa Constituinte de 1988, que aceitou emendas populares.

Enfim: novos mercados, conceitos e direitos. E isso é apenas o começo. “Estamos diante de uma linguagem nova e universal”, arrisca Gustavo Belarmino. Como o editor acertadamente lembra, o Google traduz este texto que você está lendo e infinitos outros. 

THIAGO LINS, repórter especial da revista Continente.

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