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De como foi formada a família Stones

'According to The Rolling Stones' narra, através de depoimentos dos próprios músicos, a trajetória da banda de rock mais duradoura da história

TEXTO Débora Nascimento

01 de Setembro de 2011

Show em Paris, em 1964, teve prejuízo de 1400 libras, devido à destruição do Olympia provocada pelos fãs

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Foto Jean-Marie Périer/Divulgação

Os Estados Unidos criaram o rock’n’roll, mas o Reino Unido, especialmente a Inglaterra, vem gerando há 60 anos, em maior quantidade, as melhores bandas do gênero. A lista é enorme. Mas, para sermos mais sucintos, vamos ficar apenas com Beatles e Rolling Stones. A primeira, a melhor; a segunda, a maior de todas. Maior porque, nunca, na trajetória do estilo musical, um grupo foi tão duradouro, contrariando a expectativa de seu principal guitarrista e compositor, Keith Richards: “A gente se olhava e pensava: ‘Bem, isso não vai durar mais que dois anos’, porque ninguém durava”. Nesses cerca de 50 anos de atividade, são 60 discos lançados, milhares de shows realizados em todo o mundo, dezenas de litros de tinta para cabelo e, claro, muitas histórias para contar. Elas já foram narradas de diversas formas em vários livros, mas, pela primeira vez, é produzida uma publicação apenas com a fala dos Stones, ou, como queiram, suas versões dos acontecimentos.


Andrew Oldham (E) foi responsável por incentivar Mick Jagger (D) e Keith Richards a compor. Foto: Terry O’Neill/Divulgação

As declarações foram coletadas em 2002, durante a turnê Forty Licks, por Dora Loewenstein e Philip Dodd, organizadores de According to The Rolling Stones – A banda conta sua história (CosacNaify), que reúne depoimentos de Mick Jagger (voz), Keith Richards (guitarra), Charlie Watts (bateria) e Ronnie Wood (guitarra), a última e definitiva formação dos Stones, mesmo que no palco sejam vistos mais de 10 músicos. O livro também contém mais de 300 fotos raras que cobrem momentos marcantes da banda, feitas por fotógrafos renomados como David Bailey, Mario Testino e Val Wilmer, e também oriundas do acervo pessoal de cada um dos membros do quarteto. Além das fotografias, há reproduções de pinturas de Ronnie, que também é artista plástico.

Em 12 capítulos, os “rapazes de Londres” falam sobre suas famílias, amigos, clubes, drogas, o ambiente do pós-guerra, como se conheceram, a criação da banda, os primeiros shows capengas, os ídolos americanos que os influenciaram, os bastidores das gravações, sobre eles próprios e os ex-integrantes Dick Taylor (guitarra), Bill Wyman (baixo), Mick Taylor (guitarra) e Brian Jones, guitarrista e membro fundador do grupo, falecido, aos 27 anos, em julho de 1969. Há também 12 textos de pessoas importantes para os Rolling Stones, como o ex-diretor da Atlantic Records, Ahmet Ertegun. A publicação ainda conta com seções especiais, como a biografia em ordem cronológica, discografia, um quem-é-quem e reprodução dos autógrafos dos artistas.


Jagger com Howlin’ Wolf, um dos blueseiros que foram referência para a formação
do som dos Stones. Foto: Christopher Sykes/Divulgação

Em suas recordações, os músicos lembram figuras essenciais, como Ian Stewart, amigo que fazia as vezes de tecladista e motorista nos primórdios da banda, e Andrew Oldham, ex-assistente de Brian Epstein, empresário dos Beatles, que se tornou uma mistura de agente e produtor musical dos Stones, e entrou para a história como o cara que conseguiu convencer Jagger e Richards de que seriam capazes de compor; antes, eles tocavam apenas covers de hits americanos. Sobre esse fato, Keith Richards lembra que, certa vez, Andrew os trancou na cozinha a fim de que só saíssem de lá com uma música pronta. Ao que Mick retruca: “Keith gosta de contar essa história da cozinha, Deus o abençoe. Acho que Andrew pode ter dito algo assim em algum momento: ‘Eu deveria trancar vocês em um quarto até vocês fazerem uma música’ e assim, mentalmente, foi como se ele tivesse nos trancado, mas ele não nos trancou literalmente”.


No livro, os Stones contam como combinavam com os Beatles a alternância de lançamentos de seus singles e álbuns. Foto: Gered Mankovitz/Divulgação

Oldham, com apenas 19 anos, também foi o responsável por conseguir o primeiro contrato dos Rollings Stones com a Decca, através de uma rápida reunião com Dick Rowe, “o homem que rejeitou os Beatles”. “Você acha que ele diria não duas vezes?”, brinca Keith, aproveitando para exaltar a autonomia artística que a banda desfrutara desde o começo da carreira. “Eu não sabia o tamanho da brecha que isso abriria, porque para mim aqueles impérios monolíticos, EMI ou Decca, eram como o Império Britânico ou o Banco da Inglaterra”, revela o guitarrista, complementando que foi Oldham quem os alertou para essa plena liberdade musical que conseguiram espontaneamente – era algo raríssimo na indústria fonográfica da época.

Entre os atrativos do livro, estão as contradições nos depoimentos dos integrantes. E, como já deu para perceber, as declarações de Keith Richards tomam para si boa parte do foco da leitura. Suas afirmações, bem-narradas e ambientadas, são as mais interessantes e divertidas da publicação. “Acho que nós e os Beatles ficamos surpresos uns com os outros, porque a gente não sabia que eles tocavam em Liverpool e eles não sabiam o que a gente fazia aqui em Londres. Embora não fosse exatamente a mesma coisa, em parte porque a gente era mais voltada para o blues, na verdade havia muita coisa parecida. Ambos éramos fãs de Little Richard, Chuck Berry, Buddy Holly, Eddie Cochran e Carl Perkins.” Sobre Buddy Holly, Keith faz uma curiosa e breve análise: “Elvis era fantástico, mas, como Buddy usava óculos e tinha cara de bancário, você pensava: ‘Bem, então não é só para os caras que se parecem com Elvis’, porque de outro modo seria algo inatingível”.


Produtor convenceu o grupo a tirar fotos vestido de blazer, bem ao estilo da época.
Foto: Mark Hayward/Divulgação

Em suma, o livro desvenda como foi fundamental para a sobrevivência do conjunto abarcar diferentes personalidades que se completavam. Enquanto Keith é sossegadamente rebelde, Jagger é organizado, generoso e cortês; já Charlie é um gentleman comedido e centrado, e Ronnie, o funny guy, é fiel e companheiro. “Sempre fomos mais uma família do que uma banda”, afirma Watts. “O mais importante quando você está escolhendo um músico para a banda é que você precisa conviver com ele como pessoa, o que é tão importante quanto ser um grande músico”, aconselha o baterista, na obra de 360 páginas, que, além de ser item indispensável para os fãs dos Rolling Stones, pode ser uma ótima cartilha para quem pretende montar um grupo de rock e considera que basta apenas juntar uns caras que sabem tocar. 

DÉBORA NASCIMENTO, repórter especial da revista Continente.

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