Clique ao lado para visualizar o sumário da nova CONTINENTE.

Arquivo

Todo Duro: Ele ainda quer (e muito) estraçaiá

O boxeador pernambucano, que viveu seu auge nos anos 1990, tem sua trajetória de vitórias e provocações revista em documentário

TEXTO Thiago Lins

01 de Maio de 2011

Luciano 'Todo Duro'

Luciano 'Todo Duro'

Foto Marcos André

Ele é tão “modesto” quanto Romário, tão “talentoso” quanto Rocky Marciano e tão “carismático” quanto Cristiano Ronaldo (ok, quem sabe seja, ainda, tão controverso quanto o “animal” Edmundo, dadas as qualidades que costuma atribuir a si mesmo). Mas Todo Duro é o cara. Ou pelo menos insiste que é. Prestes a ter sua trajetória “de muito pau” revista no documentário Eu vou estraçaiá, dirigido por Tiago Leitão, o boxeador – que não revela a idade e diz que ainda vai viver muito até “morrer com 36”– não mudou nada. Não perdeu a mania de interromper entrevistas para desafiar meio mundo. Nem Vitor Belfort (meio-pesado de outra modalidade, o UFC) escapa.

A provocação ao lutador é apimentada: “Quero a mulher dele de troféu. Mas não vou bater nela, só pegar”, esclarece. Belfort é casado com a turbinada Joana Prado, a ex-Feiticeira, uma “assistente de palco” que ocupou o imaginário poluído de quem cresceu na passagem dos anos 1990 para 2000.

É, Todo Duro não mudou mesmo. Desde o começo da carreira, ele costuma dedicar mais atenção às mulheres dos adversários que aos próprios. O maior deles, o baiano Reginaldo Holyfield, ex-campeão brasileiro, sul-americano e mundial dos supermédios (categoria que vai até 76 kg), travou brigas antológicas com o pernambucano, tanto dentro quanto fora do ringue. (Claro, Todo Duro faz questão de sublinhar que a mulher de Holyfield o teria traído com ele.)

Os dois protagonizam uma rivalidade que atravessa o tempo, nos moldes Pelé versus Maradona, ou Beatles versus Stones. O documentário, inclusive, conta com uma passagem hilária, em que TD visita uma casa funerária, munido de um documento, supostamente um atestado de óbito, à procura de um caixão para o rival.

Nos anos 1990, durante uma entrevista coletiva que precedia o combate, TD, à sua maneira, interrompeu a coletiva acertando em cheio um tapa no peito de Holyfield, que respondeu com uma sequência de jabsuppers. Os adversários só pararam a briga com a intervenção de suas respectivas equipes, que se arriscaram em meio aos supermédios. Depois, irado, Holyfield afirmou que só iria “bater na boca (de TD) para ele engolir toda a empáfia”. Holyfield bem que tentou (venceu o pernambucano duas vezes), mas o rival não engoliu a tal empáfia. Até hoje, lembra o ocorrido com doses de recursos dramáticos. Afirma veementemente que o baiano “voou” com o tapa.

“Acabei com a carreira de muito boxeador na Bahia”, reforça o ex-campeão do WBS (World Bridge Series, campeonato mundial da federação homônima). “Naquela época (os anos 1990), quem mandava na Bahia era ACM, mas quando chegava lá eu era o cara. Eu mandava ali”, completa o pernambucano, que “nunca” foi nocauteado. Na verdade, chegou a “jogar a toalha”, numa luta clássica com o arquirrival, na terra do axé. Mas ele tem uma explicação para esse fato isolado: “Tinha gente com revólver perto do ringue, era muita pressão”. Ah, sim: não foi no braço.


Todo Duro nunca vai esquecer Holyfield, seu arquirrival. Embate registrado em 2001.
Foto: Márcia Mendes/Arquivo JC

TAPA NO OUVIDO
Ainda sobre Holyfield, o atleta afirma que o baiano ficou “meio doido, de tanto pau que eu dei no pé do ouvido dele”. De fato, alguns vídeos com o baiano no YouTube (o da briga durante a entrevista já contabiliza mais de 400 mil acessos, um clássico) mostram uma oralidade comprometida, especialmente quando TD, piadista de plantão, faz alguma surpresa. Numa dessas, descobriu que Holyfield estava participando de um programa de auditório. Não perdeu tempo. Conseguiu o número da emissora, entrou no ar (o programa era ao vivo) e começou a provocar Holyfield – e a mulher dele, como sempre.

O baiano, aparentando um mix de choro com embriaguez, não consegue responder à altura e o episódio é encerrado pelo apresentador: “Holyfield não está em condições nem de falar”, atesta o jornalista. “Quando Holyfield escuta minha voz, ele perde a dele. Ele sabe que fui eu que arruinei a carreira dele”, diz o oponente. Quanto à suspeita do baiano ter enlouquecido, Todo Duro faz pouco caso: “Todo mundo que eu nocauteei, endoidou”.

E, reza a lenda, foram muitos: conta-se que, ainda nos tempos da capoeira (esporte que ele praticou na adolescência, antes do boxe), o atleta mandava “dois, três (adversários) por dia pro hospital”. O bom e velho Todo Duro encerra o “capítulo Holyfield” chamando o mesmo “e a Bahia todinha pro cacete”. Repete, pela enésima vez, que pegou a mulher de Holyfield e que nunca vai passar dos 36 anos, sugerindo que seja feita uma fila de “cinco, seis baianos pra eu estraçaiá tudinho”. O fato: os baianos teriam medo dele.

Seria esse o caso de outro campeão baiano, o Popó? TD, que não deixa passar nada, levanta a voz e olha para o gravador, de dedo em riste: “Eu vou estraçaiá você de pau. E provar pra Bahia toda que você não é Popó. É o Popozinho, Popozinho (imprimindo uma delicadeza, na voz, de fazer inveja à atriz Zooey Deschanel)”.

Todo Duro tem um dom, com o qual nem George Foreman, nem Muhammad Ali (os dois maiores boxeadores da história) foram contemplados: instantaneamente, ele transforma os adversários em “gafanhotos pra estraçaiá”. Mas se engana quem acha que sua lista de dádivas fica por aqui.

“Eu sou um psicopata, até hoje dou sete, oito (imagine o quê) todos os dias”, declara de peito aberto o pai de três filhas – com mulheres diferentes, como faz questão de ressaltar.


Boxeador "encara" o documentarista Tiago Leitão. Foto: Fábio Monteiro/Divulgação

O atleta, revelando sua faceta Charlie Sheen, acrescenta que, entre tantos relacionamentos que teve, chegou a manter três simultaneamente. Sobre as filhas, afirma que são “todas gatas”, o que lhe propiciou o “pagamento de todos os pecados”. Diz-se que, nos tempos áureos, as jornalistas que quisessem entrevistar Todo Duro eram submetidas a uma sabatina: ele gostava de saber antes o que o esperava. Mas, seja a mulher loira ou morena, alta ou baixa, repórter ou fã, ele parece tratar com o mesmo respeito reservado aos “gafanhotos”. O lutador jura que, até hoje, volta com “três ou quatro periguetes” de qualquer viagem que faça. “É muita lapada”, gaba-se, usando a gíria nordestina para algo não mencionável.

Ele pode até ser um abençoado, porém deve, ainda, ter algum segredo para tanta performance (sob toda e qualquer acepção da palavra), mas nos priva desse furo de reportagem. Revela, apenas, que tem a própria Caixa de Pandora. Um livro, ditado por ele e redigido por uma colaboradora. Algo como um manual para futuros campeões, que tem apenas 40 páginas (além de tudo, o camarada tem poder de síntese!). Por enquanto, tudo o que o nosso Sun Tzu pode adiantar é que quem colaborar com o desenvolvimento do livro “vai ficar rico”. Não bastasse conter toda a sabedoria necessária à formação de qualquer campeão, Todo Duro afirma que o livro vai “abalar o mundo”.

PELA FAMA
Enquanto o mundo está em compasso de espera para o lançamento do best-seller porradeiro, o astro vai ocupando espaços, estrelando o documentário. “Eu sempre quis algo que me desse fama e destaque”, assume TD, empolgado em levar seu jeitão expansivo e magnético às telas. Tiago Leitão, o responsável pelo resgate da lenda local, se diz surpreso com a repercussão que o documentário alcançou antes mesmo da estreia. “Já fomos para programa de TV, jornais em Pernambuco e em São Paulo, além de vários sites e revistas divulgando o filme”, destaca.

O diretor conta que registrar o personagem era uma ideia antiga, ocorrida depois de testemunhar tantas lutas e “situações engraçadas” vivenciadas pelo boxeador. Leitão, outro morador de Casa Forte (bairro da Zona Norte recifense onde Todo Duro é figura fácil), comprava frutas na quitanda da família do atleta, aproximação que o fazia pensar mais e mais no futuro filme. Certo dia, estava discutindo os planos com os colegas da Opara Filmes, produtora que dirige. Mais tarde, a caminho de casa, avistou o atleta na calçada.

Sem titubear, deu meia-volta no carro e fez contato. Estava fechada a parceria. “Daí para frente, foram algumas conversas de pesquisa, ajuste da equipe e preparação das gravações”, resume Leitão. Por último, o diretor sensível fala de seu astro durão: “Ele, realmente, é um personagem incrível”. É isso aí. Todo Duro estraçaia

THIAGO LINS, repórter especial da revista Continente.

Publicidade

veja também

Em meio às engrenagens

'Limite': O maior enigma do cinema brasileiro

Coletivo Angu: Algumas espetadas no coração feminino

comentários