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Vinícolas: O momento dos vinhos jovens

Nordeste brasileiro e sul da França protagonizam as mais novas mudanças no velho mundo da vitivinicultura

TEXTO Antônio Martins Neto

01 de Abril de 2011

O Vale do São Francisco é a única região do mundo com duas safras e meia por ano

O Vale do São Francisco é a única região do mundo com duas safras e meia por ano

Foto Josicarlos Santana

Há dois anos, o enólogo francês Michel Fabre se divide entre o sul da França e o alto sertão de Pernambuco, mais precisamente o Vale do São Francisco, para participar de dois marcos simultâneos no mundo da vitivinicultura. Em Languedoc-Roussillon, próximo ao Mar Mediterrâneo, ele administra uma pequena vinícola familiar, uma das tantas que há 20 anos têm ajudado a elevar a qualidade do vinho de uma das mais antigas regiões produtoras da Europa, mas de reputação historicamente duvidosa. Já no Brasil, Fabre está à frente de uma empresa italiana que ao lado de outras cinco vinícolas produz vinho de padrão internacional em pleno semiárido nordestino, um feito até poucos anos considerado impossível pelos especialistas do setor.

O vaivém de Michel Fabre sobre o Oceano Atlântico – ele passa, em média, três meses por ano na França e nove no Brasil – ilustra bem os esforços dos produtores de várias partes do mundo para acompanhar a mais recente mudança no mercado de vinhos. O aumento do consumo, em especial nos Estados Unidos e nos países emergentes, como China e Índia, tem estimulado a produção dos chamados vinhos jovens, com pouca longevidade, aromas frutados e coloração viva. Justamente o que o sul da França e o sertão de Pernambuco têm de sobra para oferecer.

Em Languedoc-Roussilon, a produção tem sido abundante. Os vinhedos se espalham por uma área de 300 mil hectares, três vezes maior que Bordeaux, no sudoeste do país, e dão origem a uma de cada três garrafas de vinho consumidas na França. É uma tradição milenar, uma vez que o vinho é produzido na região desde o ano 600 a.C., quando os gregos plantaram ali as primeiras vinhas do país.

Mas foi só nas duas últimas décadas que as cooperativas de produtores passaram a se preocupar com a qualidade, o que para os enólogos significa produzir menos e melhor. “A produção está caindo. Temos de saber que antigamente esta região era conhecida pelo vinho de baixa qualidade, que se vendia em quase toda a França e que se tomava todos os dias”, diz Fabre.


A cidade medieval de Minervois está incrustada em área de produção vinícola no sul da França. Foto: Antônio Martins Neto

O tinto de mesa tosco e barato do passado vem dando lugar a vinhos atraentes e com personalidade marcante, resultado de um processo iniciado nos anos 1990, quando uma nova geração de produtores percebeu que, apesar da falta de cepas populares e de habilidade para fazer bons vinhos comerciais, Languedoc-Roussillon tinha clima e terra à vontade. Fabre lembra que foi preciso viajar a outras regiões do país para aprender mais sobre o cultivo de uvas viníferas e escolher as cepas que fariam parte dos novos vinhos que seriam feitos a partir de então. “Melhoramos o nosso terroir”, lembra o enólogo.

Foram plantadas, então, grandes áreas com uvas chardonnay, merlot, sauvignon blanc, viognier, syrah e cabernet sauvignon. A colheita e o processo de fermentação também passaram por transformação e chegaram a receber supervisão de enólogos da Califórnia, onde técnicas mais modernas de vinificação já eram adotadas. O resultado foi o crescente reconhecimento de Languedoc-Roussillon, que nos últimos anos passou a figurar nos livros de enologia como uma região digna de ser conhecida. “São varietais com ótima relação custo/benefício, muitas vezes rotulados sob a grande categoria regional Vin de Pays d´Oc”, afirma o crítico britânico Robert Joseph, autor de mais 20 livros sobre enologia e fundador da revista Wine.

“Hoje, produzo entre 25 e 32 mil garrafas e devo chegar a 40 mil, em dois anos. Não quero passar dessa produção, para manter a qualidade do meu vinho”, diz Fabre, que controla sozinho o processo de vinificação e divide com o pai e a mulher os cuidados diários com o vinhedo. A vinícola produz o rótulo La Croix de Saint Jean, um tinto com cortes de grenache, mourvèdre e syrah, que chega a Pernambuco pelas mãos do próprio produtor. A safra de 2007 recebeu 91 pontos do renomado crítico americano Robert Parker, cujo olfato está assegurado em um milhão de dólares e as avaliações podem arruinar uma vinícola ou lançar o preço de seus vinhos às alturas.

TERRAS NORDESTINAS
Já no Vale do São Francisco, Michel Fabre é responsável pela vinícola Chateaux Ducos, uma propriedade de 124 hectares às margens do Velho Chico. A casa faz no Brasil quatro tintos: um cabernet sauvignon, um syrah, um petit verdot – único do país – e uma assemblage dessas três castas. Os vinhedos produzem apenas 4 mil quilos por hectare, mil quilos abaixo da proporção-limite para garantir a qualidade das uvas, colhidas manualmente ao atingir a maturidade ideal e em horários bem específicos, das cinco às dez da manhã e das três às seis da tarde. Detalhe: elas são cultivadas ao som de música clássica, emitida por alto-falantes.

Mas, na aridez do Sertão, a combinação de sol ininterrupto, solo fértil e água na medida certa, distribuída pelo processo de irrigação, é o que tem feito do vale a nova fronteira do vinho brasileiro. A região produz cerca de 10 milhões de litros por ano, apenas 15% da produção nacional e fração ínfima da produção mundial, que chega a 27 bilhões de litros. No entanto, o potencial é surpreendente. A região é a única do mundo com duas safras e meia por ano, o que permite colher uvas e fazer vinho a todo momento. Na Europa, e mesmo nos países produtores do Novo Mundo, há apenas uma safra anual e a colheita ocorre em meses específicos, devido às estações climáticas bem-definidas.


O enólogo francês Michel Fabre divide-se entre sul da França e sertão pernambucano para a produção de vinhos

De resto, o Vale do São Francisco tem muito em comum com Languedoc-Roussillon. Enquanto os vinhedos do sul da França estão, no máximo, a 500 metros acima do nível do mar, as vinícolas do sertão ficam numa área cuja altitude varia de 350 a 400 metros. As duas regiões têm presença de rochas e areia, o que fornece boa drenagem. No caso francês, há predominância de xisto e calcário. No brasileiro, de calcário e quartzo rochoso.

O que falta hoje ao vale é um sistema de certificação que ateste a qualidade dos produtos mais sofisticados, além de uma legislação capaz de garantir parâmetros entre os diferentes rótulos. Mas antes é preciso conhecer o vinho feito na região, uma missão assumida pelos cientistas da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária. “O apoio que nós damos ao setor é tentar caracterizar e descrever os vinhos obtidos dessas variáveis, do clima, do solo, diversidades, data de elaboração”, diz o engenheiro agrônomo Giulliano Elias Pereira, supervisor do Laboratório de Enologia da Embrapa Uva e Vinho.

Os pesquisadores também estão atentos às inovações tecnológicas e aos novos vinhos que valorizem as condições do vale e que possam ser adotados pelo setor. “Não queremos copiar vinhos da região da França, da Austrália ou dos Estados Unidos, mas tentar definir, por exemplo, qual é o mês do ano em que nós conseguimos aqui vinhos de alta qualidade, vinhos que possam ser de guarda, de alta longevidade”, completa.

Já a França possui uma complexa legislação sobre rotulagem e certificação, com denominações e regras regionais, surgidas no início do século 20 como forma de proteger o consumidor de práticas fraudulentas por parte dos comerciantes. Por lei, os rótulos devem trazer informações como volume, endereço do produtor, origem geográfica, declaração de safra e cepa, teor alcoólico e classificação. As principais são vin de table, vin de paysvin délimité de qualité supérieure e appellation d´origine contrôlée, mas há ainda diferentes classificações regionais. Todas elas determinam as uvas que podem ser usadas e em que proporção, além do método de cultivo e do processo de vinificação permitidos.

Nesse intrincado sistema, os vinhos de Languedoc-Roussillon recebem a denominação de vin de pays e estão, portanto, sujeitos a uma legislação mais frouxa que a rigorosa appellation d´origine contrôlée. Isso permite às vinícolas fazer bons vinhos varietais com cepas não tradicionais, além de misturar uvas nativas e de outras regiões mais conhecidas internacionalmente como Alsácia, Bordeaux, Borgonha e Vale do Rhône. “As denominações de Languedoc-Roussillon são hoje responsáveis pelos mais atraentes vinhos da França, com cortes ricos e caráter nítido da região. É a resposta francesa ao Novo Mundo”, afirma Robert Joseph. 

ANTÔNIO MARTINS NETO, repórter especial da TV Jornal e correspondente do SBT no Nordeste.
JOSICARLOS SANTANA, fotógrafo.

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