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Kilian Glasner

As possibilidades do desenho

TEXTO Mariana Oliveira

01 de Abril de 2011

em 'O brilhante futuro da cana-de-açúcar' (2010), o artista utiliza a combustão da planta como metáfora da explosão econômica brasileira

em 'O brilhante futuro da cana-de-açúcar' (2010), o artista utiliza a combustão da planta como metáfora da explosão econômica brasileira

Foto Kilian Glasner

Uma grande investigação sobre os desenhos. Essa seria uma boa forma de definir o conjunto da obra do artista pernambucano Kilian Glasner. Trabalhando com instalações, fotografias, vídeos ou qualquer outro suporte, as suas inquietações sempre recaem sobre o desenho, sua posição e representação na arte contemporânea. Avesso a obras fechadas, que não se conectam com o público, Kilian preza bastante – algo raro no cenário artístico pós-pós-Duchamp – pela técnica, valorizando a plástica, a luz e as formas, não apenas o conceito, como dita a regra atualmente.


Trabalho da série Rua do Futuro (2009) une fotografia e desenho. Foto: Kilian Glasner


Ruínas do ateliê do artista serviram de suporte para criação de efeito cenográfico.
Foto: Kilian Glasner

Essa base acadêmica forte deve-se aos anos dedicados ao estudo e à sua formação como artista. Ainda criança, foi capturado pelo desenho nas aulas da Escolinha de Arte do Recife. Chegou a cursar Música e Arquitetura, mas voltou às Artes Plásticas. Durante mais de dois anos, Kilian aprimorou sua técnica com Shunishi Yamada, com quem estabeleceu uma clássica relação discípulo/mestre. Depois, foi para Paris, onde viveu durante oito anos e cursou a École Nacionale Supérieure des Beaux-Arts, o que, segundo ele, foi fundamental não apenas para o desenvolvimento de suas habilidades técnicas, mas para sua compreensão do mercado da arte.


Dos poucos trabalhos do artista a explorar a figura humana,
este retrata rosto de assassino real. Foto: Kilian Glasner

Valorizando o figurativismo, Kilian passeia entre o real e o imaginário em paisagens, e algumas vezes em figuras humanas. Num de seus primeiros trabalhos, visitando prisões e delegacias, ele fez uma série de desenhos de rostos de assassinos reais, que já apontavam para um universo sombrio, num jogo de luz e sombras – algo marcante em sua produção. Algumas de suas paisagens saltam do papel e se expandem pelas paredes, portas e janelas, provocando efeitos visuais e dialogando com a Arquitetura, a exemplo das duas casas revestidas com suas obras, em São Paulo e no Recife.


Na obra Silêncio, um pastel sobre papel, Glasner brinca com efeitos de luz e sombra, conferindo-lhe um ar sombrio e fantasmagórico. Foto: Kilian Glasner

Em Pista sobre o mar e Pista de decolagem (foto abaixo), a opção foi por composições panorâmicas. Foto: Kilian Glasner


Foto: Kilian Glasner

Em seu mais recente trabalho, O brilhante futuro da cana-de-açúcar, Kilian volta a usar os espaços físicos como suporte para desenhos. Desta vez, foi-lhe cedido o estacionamento subterrâneo da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa. A partir das características do lugar, e levando em consideração que o fundador da instituição era conhecido como o “Senhor do Petróleo”, o artista se viu instigado ao questionamento do uso de certas energias e do surgimento de outras, tidas como mais naturais, a transformar aquele ambiente num grande canavial. Para isso, ele ornou a parede poente do edifício com grandes desenhos de cana-de-açúcar, num tamanho 100 vezes maior que o real, transformando o espaço num ambiente de fantasia. Quando carros entram no estacionamento, os faróis refletem nos adesivos que compõem o desenho, dando a impressão de que as canas estão ali, queimando, numa cena que seria trivial para os que trafegam pela Zona da Mata da região nordestina, mas não para os portugueses. 

MARIANA OLIVEIRA, repórter especial da revista Continente.

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