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Um típico faroeste aos pés da Sierra Madre

Há 100 anos, o movimento libertário, encabeçado por Pancho Villa e Emiliano Zapata, promovia a ascensão de Francisco Madero, começando uma sucessão de eventos confusos e contrarrevolucionários

TEXTO Fernando Monteiro

01 de Março de 2011

Embora se unindo na revolução, Pancho Villa e Emiliano Zapata (sentados, o segundo e o terceiro, da esquerda para a direita) vinham de motivações políticas diversas

Embora se unindo na revolução, Pancho Villa e Emiliano Zapata (sentados, o segundo e o terceiro, da esquerda para a direita) vinham de motivações políticas diversas

Foto Underwood & Underwood/COR BIS/Corbis (DC)/Latinstock

Neste começo de ano, veio o velho Egito exibir a sua face de revolta, afinal, contra o presidente Mubarak, um governante tão longevo quanto detestado. O noticiário sobre os distúrbios vitoriosos ao pé da esfinge – logo após a “revolução dos jasmins” na Tunísia – fez pensar no estopim aceso aos pés da Sierra Madre, há um século precisamente, quando também a China se levantou em armas contra o mandarinato.

A mexicana foi uma revolução que ainda hoje evoca o clima de um western cheio de som e fúria – despontando em novembro de 1910 para, três meses depois, consolidar-se com a tomada da importante cidade de Juárez, decisiva na derrubada do ditador Porfírio Díaz. Logo em seguida, o movimento libertário promoveria a ascensão ao poder de Francisco Madero, rico proprietário que empunhava bandeiras de justiça social no incendiado país dos astecas.

Começava uma enfiada de acontecimentos confusos, surtos contrarrevolucionários e dissensões, inclusive no meio dos maderistas com interesses próprios de haciendados, camponeses, pequenos comerciantes e funcionários, idealistas românticos, liberais e bandoleiros convertidos à causa com euforia às vezes suspeitosa. Entre altos e baixos, caminharia assim a variegada humanidade dos revoltosos de sombrero, enquanto os chineses, no outro lado do planeta, decidiam pelo destino à parte de um imperador recluso numa “Cidade Proibida” em plena modernidade do século 20.

Não é forçado aproximar tais cenários do que acontece hoje no Oriente Médio, sob o influxo internetiano – enquanto o míope Departamento de Estado americano não dá mostras de entender nada do que se passa em nações insatisfeitas por viver sob a meia-lua do obscurantismo. O “rastilho de gás” (como diria Lawrence da Arábia) do mundo agora virtual atinge a geopolítica de alguns regimes fechados, da Tunísia ao Iêmen, com uma arma letal: informação sem fronteiras.


Francisco Madero foi presidente do México, de 1911 a 1913. Foto: Reprodução

É a nova pólvora – velha invenção chinesa – capaz de se acender no ânimo dos revolucionários em busca da liberdade, conforme aconteceu no México profundo, há 100 anos.

VIVA VILLA!”
A colorida Revolução mexicana não contou com perfis hieráticos como o do carismático líder da revolta chinesa (Sun Yat-Sem, 1866-1925), porém arregimentou homens tão díspares quanto empenhados em se lançar rumo ao futuro, nos trens de tropas animadamente seguidos pelos galopes de guerrilheiros.

De norte a sul, nas planícies de Chihuahua a Morelos, os ginetes dos ventos de liberdade foram cavaleiros velozes na ação – e na confusão – ideológica. Para muitos, o movimento pela reforma do mundo arcaico que imperava no México español teve como protagonista a falta de ideias claras, correndo na frente e atrás dos rebeldes. A “revolução” do ex-bandoleiro Francisco Villa não era a mesma do outro Francisco – o fazendeiro Ignacio Madero. Os argumentos ideológicos que atraíram o primeiro (simploriamente sacados do liberalismo burguês) despertavam a instintiva desconfiança de um Emiliano Zapata, naquele cenário que o filme de Eisenstein – Que viva México! – quis captar por inteiro.

Para Villa, talvez fosse suficiente acenar com alternância no poder, rotatividade no executivo, eleições honestas, juízes independentes e algumas satisfações não só da sua vaidade de “general”. Emiliano, por sua vez, emergira de dramas mais tragicamente campesinos e exigia, antes do mais, uma ampla reforma agrária, seguida do atendimento “às mais justas aspirações do povo, plantadas as mais imperiosas necessidades sociais e propostas as mais importantes reformas econômicas e políticas, sem cuja implantação o país passará inevitavelmente ao abismo, deprimindo-se no caos da ignorância, da miséria e da escravidão”, segundo o semianalfabeto Zapata fez escrever por si.

Também pouco letrado, Pancho havia sido ladrão de gado, nas suas origens em torno de Durango. Nascido numa família de meeiros (1878), foi batizado com o prosaico nome de José Doroteo Arango. Com 16 anos, ao partir para vingar a afronta à sua irmã Martina – ameaçada de estupro por um dos membros da família de proprietários (não há certeza de que tenha chegado a matá-lo) –, teve que se refugiar no meio de bandidos que mantinham sua base de operações na alta Sierra. Começava ali a vida aventurosa de Villa, até ser convocado para virar revolucionário contra o governo.


Viúva de Pancho Villa, Luz Corral sobreviveu ao herói
lendário e manteve sua casa-museu sobre o movimento.
Foto: Reprodução

“Uma figura”, conforme se diz, sob qualquer ângulo de visão. Mesmo no México de hoje, quem o percorra com olhar atento irá perceber um culto remanescente em torno de Pancho, talvez mais espontâneo do que a aura que também cerca Zapata no campo. Lá, ser “villista” ou ser “zapatista” ainda remete para duas maneiras de ver as coisas, 100 anos depois da convivência mais ou menos conflituosa entre esses dois homens pobres lançados contra opressores civis e militares.

John Reed, o escritor norte-americano que deixou um irretocável documento sobre a Revolução no admirável livro México insurgente, traçou um retrato de Villa que o mostra tão brutal quanto carismático, sujeito a tempestades de mau humor e arroubos generosos, parecidos com os dos bandoleiros daqueles tempos de assaltos, pilhagens, gringos e “federales” da caricatura de cinema (embora a psicologia real de homens violentos tenha bem mais nuances do que as simplificações dos filmes).

Luz Corral de Villa – viúva “oficial” de Pancho – deixou este depoimento de quem sobreviveu tantos anos ao marido cuja lembrança poderia estar um tanto reforçada pela lenda:

“Nos seus últimos anos, ele se sentia traído, mas ainda assim não pressentia a tragédia que se aproximava. Pancho era um camponês que não fez a Revolução por política, mas, sim, pelos pobres e para os pobres. Sabia que seus homens eram bons lutadores, que as montanhas eram um excelente refúgio e que tentar mudar as coisas pelas armas se impunha como uma necessidade. Na verdade, era a única forma de sobreviver, naquela época. Não se sabe realmente quem mandou matá-lo, mas eu sei que não foram operários e camponeses, porém homens da cidade que temiam a verdade representada por ele”.


Trecho do mural En la trinchera, de Diego Rivera,
sobre os acontecimentos revoltosos do seu país.
Imagem: Reprodução

Villa foi assassinado em 20 de julho de 1923, numa emboscada provavelmente organizada pela polícia secreta em associação com pistoleiros – que atingiram o caudilho dentro do automóvel no qual se dirigia para uma festa de compadres. O carro de luxo, com todas as perfurações dramáticas, ainda pode ser visto no Museo de la Revolución. Sepultado no cemitério de Parral (Chihuahua), seu cadáver foi mutilado por ordem de alguém que queria – por admiração ou por ódio – a cabeça de um mito do México insurgente para o qual Villa (“Viva!”) nunca teria sido ladrão de gado, nem qualquer coisa mais desonrosa do que “diretor” improvisado de um filme que ninguém chegou a ver.

Esse filme tratava-se de história que parecia ficção de um Juan Rulfo: em 1914, Pancho foi procurado, no seu retiro da Canutillo (Durango), por Frank Thayer, em nome da Mutual Film Company, com a proposta da filmagem de um revival das batalhas da Revolução, com o próprio “general” em cena, ao lado dos seus antigos comandados simulando a violência das lutas enfrentadas anos antes. Do ponto de vista financeiro, era irrecusável – e o velho Pancho de imediato partiu para reunir o maior número possível dos veteranos das redondezas.

Feito isso, correu tudo muito bem: as cenas de autênticos “revolucionários” em refregas violentas foram rodadas com um verismo inusitado para os pioneiros de Los Angeles; entretanto, reveladas as latas de negativo, os chefes do estúdio temeram pela reação do público (Columbus ainda estava fresca na memória ianque), tão “crus” lhe pareceram os combates realisticamente encenados. Apesar dos gastos, condenaram o material, digamos, “dirigido” pelo próprio Villa, e mandaram contratar atores profissionais a fim de refazer tudo ali mesmo na Meca do cinema, segundo o padrão de artificialismo de Hollywood, portanto, preferindo seus produtos de entretenimento sem maiores compromissos, principalmente com revoluções.

VIVA ZAPATA!”
Emiliano Zapata não entraria numa dessas. Era uma pessoa bem diferente do “general” responsável pela Divisão do Norte. Sua intensidade era a de um índio sofrido, tentando se libertar pessoalmente – e ao país – das garras do analfabetismo e do latifúndio concentrador das riquezas na mão de algumas poucas famílias poderosas desde a aventura de Maximiliano I (se não, desde os espanhóis colonizadores de ferro, com armaduras e corações duros).

Símbolo internacional do agrarismo, Zapata nasceu em 1879, no meio do deserdado campesinato de Anenecuilco (Morelos), filho de Gabriel Zapata y Cleofas Salazar (nome estranho para uma mulher). No ano de 1906, é assinalado como uma das presenças numa reunião, em Cuautila, na qual estava em pauta a ideia da terra para o povo. Ele trabalhou em várias fazendas e, em 1909, foi eleito presidente da Junta de Defesa das Terras, no seu longínquo povoado próximo da Vila de Ayala. Esse foi o início da carreira do líder popular, que logo se envolveria nas eleições para governador da região, militando no partido do oposicionista Patrício Leyva. Com a vitória do candidato da situação (Pablo Escandón), Zapata se torna objeto de perseguições que frustram o plano da entrega de parcelas de terra para os “seus” camponeses.


As tropas federais alistavam até menores de idade. Foto: Reprodução

Nesse revés, firma a imagem de protetor da gente miserável, e, assim, será logo arrastado para o fogaréu da Revolução acesa com vistas a iluminar o caminho de Madero até o palácio presidencial.

Estamos no ano de 1911, e Zapata vai ter a sua primeira decepção com o partido maderista – conduzido por um proprietário que, afinal, não pretendia ir às últimas consequências em matéria de distribuição de terras. O líder agrarista passa a combater a tibieza do presidente que havia ajudado a eleger pela ação revolucionária, já então produzindo suas primeiras contradições, encarnadas em homens como Victoriano Huerta – o militar, comandante das tropas federais, que conspirava contra o presidente Madero e pretendia apear Villa do seu prestígio crescente (pois não hesita em mandar prendê-lo por uma questão referente a cavalos do exército não devolvidos pelos “villistas”).

O incidente vai levar o ex-bandoleiro para o círculo de influência de Don Venustiano Carranza (1859-1920), governador de Coahuila e próximo aspirante à presidência mexicana, mais uma vez disputada por meio de conspirações combinadas com a garantia de forças, como o Exército Constitucionalista, formado pelo novo presidente Carranza (sucessor de Francisco Carvajal, que assumira logo após o assassinato de Francisco Madero).

Cheia de Franciscos nada santos, a “Revolución” irá oferecer, a partir daí, um espetáculo de instabilidade política dos mais lastimáveis. A firmeza de caráter parece quase reservada exclusivamente para Zapata, com as teses agraristas correndo no seu sangue índio (teses que, de um modo ou outro, todos irão trair mais cedo ou mais tarde). O seu Exército Libertador do Sul não fora constituído para lhe garantir mais impacto do que já trazia da fortaleza dessas convicções – pelas quais volta a se unir às tropas nortenhas do jogador esperto que é Pancho Villa.


Tropa zapatista ingressa em cidade mexicana. Foto: Reprodução

É assim que, triunfalmente, entram na cidade do México, em novembro de 1914, para tentar “consertar” a Revolução. Villa se põe de acordo com grande parte do ideário zapatista, e esse é, talvez, o momento que virou o clichê de ambos: dois revolucionários aboletados (com certo ar de desconforto) nas poltronas palacianas arranhadas por esporas, os sorrisos incertos como o destino da maior parte das revoluções.

Cada vez que revejo essas imagens, penso nos homens de ação envolvidos na complexa malha de políticos profissionais de gabinete, na iminência do passo que vai dar errado e poderá levar até à tragédia. Enquanto posam ao lado de ordenanças (todos com caras de bandoleiros), é essa a sombra que logra empanar suas esperanças ingênuas, na euforia dos movimentos traídos pela confiança nos poderes que “tudo mudam – para que tudo possa continuar no mesmo”.

Carranza é o político da vez, que se revelará ansioso, agora, por se livrar desses incômodos “generais de sandálias” e, pior, vindos do nada – se deles pudessem ser arrancadas as medalhas pela condução de soldados irregulares e até “soldaderas” (as mulheres que participaram ativamente dos combates mais renhidos do levante romântico), antes de chegarem os políticos profissionais e os militares golpistas.

Em 1919, Zapata irá morrer em Chinameca, entre artimanhas e ardis dos generais Pablo González, Jesus Guarjardo e mais um certo Luis Patiño, todos para sempre odiados pela longa serpente da memória dos excluídos. Na verdade, em vez de colorida – como aqui foi chamada –, a cinematográfica Revolução de 1910-1911 desenrola uma comédia de erros começados por uns e terminados por outros (enquanto o povo recolhia seus mortos anônimos, nas praças da “vitória”)...

Como resume o professor Antonio S. Bichir: “Os índios – ao menos de Morelos – tomaram para si a propriedade da terra, por certo momento, coletivizando-a. E depois? Os terratenientes tomaram tudo novamente, por conta de desorganização e da falta de quadros, além da confusão de ideias, característica dos movimentos espontâneos, frutos de uma sufocante exploração”.


As soldaderas acompanhavam os batalhões da guerra civil. Foto: Reprodução

Essa revolta popular, em conluio com o exército forjado sob a égide da luta contra Napoleão (um dos exércitos mais sanguinários e corruptos das Américas), criou o México moderno, necessariamente, com um partido institucional dominante por sobre a poeira, depois que cabeças foram perdidas e legendas se alçaram aos céus das vilas mais remotas.

As conversas dos velhos ao pé das fogueiras, como testemunhas vivas dos feitos dos heróis nos seus cavalos de São Jorge e tudo o mais, fizeram os “vivas” pintados na cal dos muros se imprimirem na imaginação de um povo que ainda cultua a morte, no Dia de Finados, com desconcertantes festas noite adentro.

Villa morreu? Não, Pancho não morreu (com 47 balas no corpo), mas ainda cavalga pelas montanhas de névoa e ouro do passado. Sua cabeça jaz no coração do povo herdeiro dos indígenas que os espanhóis foram os primeiros a tentar exterminar, muito antes do crime organizado e da corrupção erguerem suas cabeças de medusas modernas.

O grito “Viva Zapata!” alimentou corridos (cordéis mexicanos), novelas, romances e filmes, feitos até por estrangeiros comovidos por um assassinato que segue longamente projetado, em câmera lenta, no cinema da história que se repete: em 1994, foi a memória de Emiliano que inspirou a criação do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), em novo ayuntamiento de camponeses que ainda hoje se mantêm rebeldes contra o governo, em Chiapas, num dos impasses que o México precisa resolver para aspirar a um futuro menos problemático.

No labirinto da solidão, referido pelo prêmio Nobel Octavio Paz, há, como sempre, a contradição de ser vizinho de uma potência difícil como a norte-americana, para a qual tantos mexicanos continuam a emigrar como se o velho Porfírio não houvesse um dia falado pela boca de praga dos ditadores cínicos: “Pobre México. Tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos.” 

FERNANDO MONTEIRO, escritor, poeta e cineasta, autor de A cabeça no fundo do entulho, entre outros.

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