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Filosofia: Primeiro, entender. Depois, criticar.

Pierre Lévy, um dos grandes pensadores da cibercultura nos anos 1990, observa criticamente pesquisa cultural dos franceses e discorda das ideias sobre a internet difundidas entre os norte-americanos

TEXTO Marcelo Abreu

01 de Janeiro de 2011

Pierre Lévy

Pierre Lévy

Foto Karla Vidal/Divulgação

Mãos nos bolsos da calça, elegante no seu mais de um metro e oitenta de altura, cabeça erguida, jeitão tranquilo de quem está de bem com a vida, Pierre Lévy caminha impávido dentro de uma sala de aula do Centro de Artes e Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco, em frente a um pequeno grupo de jornalistas e curiosos. Falando um inglês propositalmente pausado, explica aos ouvintes como usa a internet em suas aulas na Universidade de Ottawa, no Canadá, onde ensina. “Enquanto dou aula, os alunos estão todos com laptops com conexão sem fio, e ando assim pela sala, observando se eles estão no e-mail ou no Facebook, em vez de estarem, como deveriam, checando o que eu digo no Wikipedia ou em sites relacionados ao assunto. Tenho de acompanhá-los pela frente, mas também por trás, para ver os computadores. Mas é como as coisas são agora. Estamos todos completamente interconectados.”

No meio do passeio, porém, uma surpresa: Lévy tropeça no fio de um microfone de uma câmera de vídeo. Por pouco, não se esparrama no chão. A pequena plateia dá um gritinho de susto. Recuperado, ele solta uma risadinha marota característica, em tom agudo, e não perde a pose. Continua a falar sobre inteligência coletiva, esfera semântica, hipercortex, metadados e temas correlatos, que são assuntos de seus 10 livros já publicados no Brasil e que fizeram sua fama internacional.

Aos 54 anos, o pensador francês nascido na Tunísia, considerado um dos principais gurus da cibercultura, esteve pela primeira vez no Recife, no mês de dezembro, convidado para falar no 3º Simpósio de Hipertexto e Tecnologia da Educação. Fez palestra sobre o tema de seu próximo livro, que será publicado em fevereiro na América do Norte, chamado A esfera semântica – Computação, cognição, economia da informação. Sua postura é geralmente fria, sóbria, mas com uma pitada de bom humor que se expressa na risada fácil. Seu discurso não demonstra a euforia de pesquisadores e profetas digitais ligados ao mercado.

O pensador, que teorizou sobre o mundo digital a partir dos anos 1990, em livros como As tecnologias da inteligência (1995), A inteligência coletiva (1998) e Cibercultura (1999), foi recebido no Recife como o “filósofo do futuro”. Mas, afinal, o que pensa Pierre Lévy sobre os problemas atuais relacionados à cultura digital? Para ouvir algumas respostas, a reportagem da Continente conversou com ele, reservadamente, após sua participação no simpósio.

CRÍTICAS À FRANÇA
Doze anos após ter se mudado para o Canadá, Pierre Lévy não se nega a comparar o ambiente intelectual da América do Norte com o da França. “A Europa em geral, e a França em particular, são mais orientadas para o passado do que para o futuro.” Segundo ele, nos anos 1990, “todos os pensadores e pesquisadores de ciências sociais interessados em novos meios de comunicação na França estavam criticando seus objetos de estudo, o que em si não é errado”. Mas Lévy acha que, quando o primeiro movimento é a crítica, as pessoas se esquecem de entender os fenômenos. “Primeiro é preciso entender – e digo ainda mais –, entender com a prática. Depois, se quiser, pode criticar. Mas filósofos como Virilio e Baudrillard, que estavam falando sobre ‘oh, o fim do mundo’, ‘o fim da cultura’, ‘o fim da mente’, ‘o fim da linguagem’, ‘o fim de tudo’, não tinham nem um endereço de e-mail. Falavam de coisas sobre as quais não conheciam nada. E na esfera pública da França é perfeitamente normal falar sobre um tema que não se conhece (risos). No Canadá, espera-se que a pessoa estude o tema antes. Na França, eu havia publicado muitos livros, era bem conhecido, mas não estava satisfeito, porque a cultura em torno não era realmente receptiva às minhas ideias nem às mudanças globais.”

NOVA IDEOLOGIA?
Considerando toda a onda mundial em torno da internet, na mídia e na academia, pergunto a Pierre Lévy se ele acha que a cultura digital tornou-se uma nova ideologia, no sentido marxista, isto é, um mecanismo da classe dominante que impede as pessoas de ver a realidade. Ele diz ter “grandes reservas” sobre a visão marxista. “Primeiro, não acredito que a base é material e que a ideologia é uma coisa superficial que coloca um véu na realidade material. Ao contrário, acho que o motor real da sociedade humana é a forma de pensar, a cultura. Em segundo lugar, na internet, estão os republicanos e os democratas, capitalistas e socialistas, cientistas e criacionistas, e assim por diante. Não é o vetor de uma ideologia e, sim, de todas”. E prossegue: “Agora, se você pergunta sobre o discurso do marketing, este não é uma ideologia, é apenas as pessoas gritando no mercado, dizendo: ‘venham ver minhas coisas, venham comprar’. A ideologia é o barulho. O problema é que muitos jornalistas ouvem o barulho e acham que isso é a coisa mais importante, mas não é verdade. É preciso ir além da superfície.”

Pergunto o que ele achou do artigo que a revista Wired publicou recentemente, intitulado A web acabou, no qual Chris Anderson defende que o futuro serão os tablets e as redes sociais fechadas. Será que um texto como esse não evidencia que estamos, afinal, no meio de uma guerra entre setores industriais pelo controle do mercado, já que nada parece estar seguro, nem mesmo a web? “Chris Anderson? A propósito, quem é Chris Anderson? O que ele fez?”, pergunta o filósofo. Anderson é editor-chefe da Wired, a mais importante publicação sobre cultura digital do mundo, o cara que inventou o conceito da “cauda longa”. “Ah, sim. Ok”, diz Lévy. “Acho que ele está errado. A web, que é o sistema abstrato que conecta os dados e permite os hiperlinks, nunca vai desaparecer. O artigo é absurdo, se pensarmos em termos técnicos. Tem algum significado em termos de tendência de marketing, se formos vender aplicativos (para tablets) em vez de vender endereços na web.”

O assunto passa a ser a crescente crítica à internet feita por intelectuais norte-americanos, expressa recentemente em livros. Citamos, por exemplo, Lee Siegel, que escreveu Against the machine, livro badalado nos Estados Unidos (Lévy balança a cabeça indicando que não conhece) e mencionamos Andrew Keen, autor de O culto do amador (agora ele faz um sinal afirmativo). E ainda outros como David Shenk, que escreveu The end of patience, e Mark Bauerlein, que fez The dumbest generation (A geração mais burra). Lévy dá uma gargalhada e parece se divertir muito com os títulos. E o que ele acha desses livros e ideias?

“Todos têm sua parte de verdade”, diz o filósofo. “O culto do amador, por exemplo: é óbvio que os blogs não são do mais alto padrão, vamos colocar assim (risos). E sobre o fim da paciência, tem gente que não deseja estudar profundamente nada. Sim, esse é um aspecto das coisas. Mas, fundamentalmente, eu discordo. Completamente (risos). Acho que, no nosso caso, temos um problema de poder. As pessoas que eram os mediadores, como intelectuais, críticos, jornalistas, professores, publishers, não gostam da internet porque é uma ameaça, um meio de comunicação que permite comunicação direta. O trabalho deles era a mediação. Para eles é um grande problema, eu posso entender isso. Mas dizer que um blog não é interessante...”.

Lévy se exalta: “E o que as pessoas estão falando é interessante? E nós vamos dizer a elas para calarem a boca? Elas dizem idiotices porque são seres humanos. Eles escrevem idiotices nos blogsporque são seres humanos. Qual é o problema? Você não é obrigado a ler isso. Você pode escolher. Você escolhe, não o mediador tradicional. Esse é o verdadeiro problema de poder”.

COMO DEUS
Insisto no tema perguntando se, 15 anos depois da popularização da internet, ele ainda está otimista, apesar do acirramento de problemas pela rede como fraudes, terrorismo, pedofilia, plágio, dispersão, pirataria, entre muitos outros. “Pense nessas palavras. Havia terrorismo antes da internet? Fraude? Plágio? O plágio ficou mais fácil com a internet, mas detectá-lo ficou também muito mais fácil. Então, é ao mesmo tempo o veneno e o remédio, como o pharmakon dos gregos. O melhor e o pior.”

E passa à sua reflexão preferida: o aumento do poder cognitivo. “O texto já é uma fortificação da linguagem. A linguagem pode dizer a verdade ou mentir, podemos ganhar conhecimento ou podemos aumentar a ilusão, nós aumentamos a linguagem com o texto, com a imprensa, com a mídia e com a internet. Mas é só um aumento da razão humana básica, do poder humano básico que é a linguagem. Para mim, todo aumento do poder humano é bom. Aí você diz: mas os seres humanos podem usar isso para o bem ou para o mal. Claro, essa é a definição de poder. Sou como Deus. Eu crio o homem com a habilidade de fazer o bem ou o mal. Dou a ele a liberdade. Agora, com a liberdade você tem a responsabilidade.” 

MARCELO ABREU, jornalista e professor da Unicap.

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