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Neorrealismo: Uma geração que mudou o olhar do cinema mundial

Há 65 anos, era lançado 'Roma, cidade aberta', de Roberto Rossellini, dando início ao modo de filmar que tinha no real o seu maior trunfo

TEXTO Guilherme Carréra

01 de Dezembro de 2010

'Roma, cidade aberta', de Roberto Rossellini, inaugura, em 1955, o Neorrealismo

'Roma, cidade aberta', de Roberto Rossellini, inaugura, em 1955, o Neorrealismo

Foto Reprodução

A primeira metade do século 20 foi profícua em relação ao desenvolvimento da arte cinematográfica, que rompia com a estrutura clássica norte-americana que se convencionava já a partir de sua segunda década. Marcado pelo horror das guerras mundiais, aquele contexto histórico definiria muito o que seria produzido artisticamente no período, tornando conteúdo e estética fortes aliados. Ocupada pelos nazistas de 1943 a 1945, a Itália e seus diretores foram mestres em equalizar contexto social e concepção artística.

Durante a Segunda Guerra Mundial, o neorrealismo italiano foi responsável por agrupar cineastas que acreditavam na proposta de transpor para a tela a banalidade do cotidiano, valorizando as locações externas e o idioma falado nas ruas. Com isso, não eram apenas as temáticas, antes ignoradas, que ganhavam destaque, mas também uma nova abordagem fílmica, sustentada por uma montagem discreta e explorando mais os planos médios e gerais.

Não interessavam assuntos alheios à condição do povo, mergulhado na miséria que assombrava a Europa. Os filmes deveriam centrar-se no homem comum, no operário que sustenta a casa e nos elementos que compõem o ambiente desses personagens. Nesse sentido, ir ao encontro do povo era uma prerrogativa para a realização das obras. O lendário crítico de cinema André Bazin acreditava ser o Neorrealismo o patenteador da imagem-fato: quando os filmes trazem à tela acontecimentos que não precisam representar algo para além de si, eles valem por si mesmos.


Rossellini (C) concatenou princípios que foram assimilados por Vittorio de
Sica (E) e Federico Fellini (D). Foto: Reprodução

EXPOENTES
O diretor Roberto Rossellini, um dos mais importantes do cinema italiano, concatenou princípios também assimilados por seus contemporâneos em Roma, cidade aberta, lançado em 1945 e hoje considerado o marco daquela corrente cinematográfica. Filmada logo após a retirada das tropas alemãs, a obra é um comentário acurado sobre a situação em que os italianos se encontravam, em meio ao domínio dos oficiais de guerra. Evidenciando as ruas e edificações em ruínas, a cidade de Roma não funciona apenas como pano de fundo para as ações, mas ela própria é filmada como personagem.

Os elementos definidores da estética neorrealista no longa-metragem avançam sobre o funcionamento da própria narrativa. Não à toa, Pina (Anna Magnani), uma das protagonistas, é baleada, ainda distante do desfecho do filme. O espectador se assusta, mas acredita que a personagem – relevante para o prosseguimento da trama – irá se salvar. Rossellini subverte o jogo, desestabilizando a plateia: não só Pina morre, como também a sequência é filmada sem o clímax esperado para uma cena-chave como essa. Dentre tantas outras, também sua morte havia se tornado banal.

O fato de se tratar de uma obra marcada pela sobriedade temática não excluía o diálogo do Neorrealismo com outros gêneros cinematográficos. Uma de suas interfaces, por exemplo, se vincula ao melodrama, explorado de forma sutil no filme de Vittorio De Sica, Ladrões de bicicleta (1948). Nele, o enredo exemplifica a valorização do fato corriqueiro como alicerce dramatúrgico: um trabalhador passa a perambular pelas ruas romanas, ao lado do filho pequeno, em busca do ladrão que lhe roubou uma bicicleta. Diferentemente do cinema clássico, embora haja certa evolução dramática, o longa é estruturado de maneira episódica, e as situações vivenciadas por pai e filho não necessariamente influenciam a trama central.


O filme Ladrões de bibicleta valoriza o fato corriqueiro como alicerce dramatúrgico.
Foto: Reprodução

Quem dá vida ao protagonista em Ladrões de bicicleta é Lamberto Maggiorani, que não tinha formação como intérprete quando foi convidado para participar do filme. Se, hoje, o uso de não profissionais para desempenhar papéis de destaque no cinema se tornou comum, naquela época era ainda uma ousadia aliar improviso à interpretação. E o Neorrealismo manteve a estratégia de utilizar não atores para aproximar-se do público em parte de seus filmes, embora não abrisse mão de trabalhar com grandes estrelas da época – caso de Aldo Fabrizi e Anna Magnani, par protagonista do próprio Roma, cidade aberta.

Antes ainda da obra-prima de Rossellini, Luchino Visconti havia realizado, em 1943, o menos emblemático Obsessão, adaptado do romance norte-americano O destino bate à sua porta, de James M. Cain. Para Gilles Deleuze, já podem ser percebidos nesse filme elementos da estética neorrealista. Na visão do filósofo, o filme de Visconti representa uma mudança na construção comportamental dos personagens. Eles não mais reagem às situações, ao contrário do que acontecia no cinema de Hollywood. Tal qual o espectador, os personagens se veem paralisados diante dos acontecimentos à sua volta. Deleuze acredita que a passividade em situações-limite e a ação descoordenada tenham início no Neorrealismo, característica depois retrabalhada por diversas cinematografias.

LEGADO
Embora, nos anos 1920, o cinema soviético de mestres como Eisenstein e Vertov já relacionasse fortemente o contexto social – a Revolução Russa e os ideais socialistas – aos temas abordados em suas produções, foi com a corrente italiana que essa equação se desenvolveu ao longo das décadas. Críticos mais conservadores creditam ao Neorrealismo os filmes somente realizados em meados dos anos 1940, mas é interessante observar de que forma aquele ideário se expandiu.


Para Deleuze, Visconti antecipou, em 1943, o Neorrealismo, com
Obsessão. Foto: Reprodução

Na própria Itália dos anos 1950 e 1960, nomes como Federico Fellini e Michelangelo Antonioni – hoje considerados autores pop no circuito alternativo – trabalharam questões caras ao Neorrealismo. No caso de Fellini, A estrada da vida (1954) e Noites de Cabíria (1957) são histórias contadas em locações reais, muitas vezes incluindo a participação popular nas sequências. No filme de 1954, esse retrato da paisagem é intensificado pelo teor de road movie que há na trama – os protagonistas são artistas circenses que se apresentam de cidade em cidade.

Em Antonioni, a ideia defendida por Deleuze ganha ressonância. Conhecido pela trilogia da incomunicabilidade, composta por A aventura (1960), A noite (1961) e O eclipse (1962), o diretor põe em cena personagens que se sentem paralisados em face ao imprevisível. Ele pretende explorar justamente os espaços vazios, os tempos mortos e os instantes em que os personagens não sabem qual caminho tomar, criando um universo próprio, porém ligado a diretrizes antecedentes.

Ainda que o engajamento político-ideológico propulsor daquela filmografia tenha se arrefecido com o passar dos anos, os neorrealistas encamparam um projeto de reconstrução social, motivado pelos fatos da guerra. E, mesmo que tenha enfrentado dificuldades de inserção no mercado cinematográfico dominado pela produção norte-americana, não se pode dizer que o Neorrealismo tenha sido um fracasso de público. No ano de seu lançamento, Roma, cidade aberta obteve a maior bilheteria da temporada. Os filmes de baixo custo – se comparados aos orçamentos da indústria hollywoodiana – encontraram um nicho e foram responsáveis pela sedimentação de um estilo que mudaria a história do cinema, sendo reverenciado nas décadas seguintes.

CLÁSSICOS DO NEORREALISMO ITALIANO

La trema terra (1948)
de Luchino Visconti

Foto: Reprodução

A história se passa em Acitrezza, na Sicília, num povoado de pescadores que se sentem explorados pela burguesia. Para dar mais autenticidade à trama, Visconti filmou com os próprios habitantes da ilha, e os manteve falando o dialeto local no filme.

Alemanha Ano Zero (1948)
de Roberto Rosselini

A valorização da presença infantil pode ser considerada outro enfoque privilegiado nas produções neorrealistas. Em Ladrões de bicicleta, uma criança forma com o pai a dupla protagonista. Aqui, mais uma vez, o personagem principal é um garoto – espécie de não ator por excelência, já que não possui experiência no ofício. Filmado na Berlim pós-guerra, o filme explora a caótica situação da Alemanha com o fim do conflito bélico.

Stromboli (1950)
de Roberto Rosselini


Foto: Reprodução

Ingrid Bergman interpreta Karen, uma lituana que se casa com um pescador, vivido por um nativo, para escapar de um campo de prisioneiros. A personagem, no entanto, não se adapta à ilha mediterrânea onde vive com o marido e, cansada dos conflitos com a população local, resolve enfrentar o vulcão que cerca a ilha para abandonar o lar.

Umberto D (1952)
de Vittorio de Sica

A condição dos idosos é outro tema de interesse do Neorrealismo. Nesse filme, o foco é a decadência de Umberto D, um aposentado que não tem como pagar o aluguel de seu apartamento, e não sabe se pede dinheiro nas ruas ou mantém sua cultuada dignidade. 

GUILHERME CARRÉRA, jornalista.

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