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Teatro Infantil: Coisa de criança, coisa de adulto

Elevação da qualidade das encenações questiona os limites da compreensão do mundo equivalentes à faixa etária, aproximando os públicos

TEXTO Rafael Teixeira

01 de Outubro de 2010

Os atores Arlindo Lopes e Fernanda de Freitas, em cena no premiado espetáculo musical infantil 'A ver estrelas', que tem texto e direção de João Falcão

Os atores Arlindo Lopes e Fernanda de Freitas, em cena no premiado espetáculo musical infantil 'A ver estrelas', que tem texto e direção de João Falcão

Foto Gustavo Gracindo/Divulgação

Um menino vive, desde que nasceu, com a mãe, numa casa isolada na floresta – até que chega a idade de ir à escola. Agora, em contato com outras pessoas, ele começa a se comportar de forma estranha. Entre os sintomas, uma inexplicável euforia diante do vermelho do vestido da professora e um apreço sem igual por carne crua – que pode ser da amiguinha da classe. A mãe se desespera, embora já previsse o fato. O pai do garoto, que ele nunca conheceu, era um ogro – o que faz de seu filho também um ogro, com os seus comportamentos típicos. Com toques de drama familiar e suspense psicológico, este não é Shrek. É Ogroleto, protagonista da peça da canadense Suzanne Lebeau, cuja montagem brasileira, dirigida pela dramaturga Karen Acioly, cumpriu temporada de oito meses de sucesso (novembro de 2009 a julho deste ano), no Rio de Janeiro. Ambos, pais e filhos, saíam encantados com o espetáculo e, quanto a isso, a autora não se surpreendia.

“O que eu aprendi, em todos esses anos trabalhando com crianças, é que não são elas que impõem os limites do que pode ou não ser dito. São os adultos”, diz a dramaturga, que viu a versão brasileira de sua peça vencer, no início do ano, em quatro categorias do Prêmio Zilka Salaberry, o mais importante do teatro infantil no país: melhor peça, direção, ator (Maurício Grecco) e atriz (Carolina Kasting).

Suzanne Lebeau é hoje considerada uma das agentes de um movimento na cena teatral carioca pela elevação do nível de qualidade da dramaturgia infantil. Diretora artística da companhia de teatro Le Carrousel, ela já recebeu diversos prêmios por sua contribuição ao teatro para crianças. Uma contribuição na qual são apagados os limites entre o que se destina aos pequenos e o que, aparentemente, só serviria para os mais velhos.


Montagem brasileira da peça da canadense Suzanne Lebeau, dirigida por Karen Acioly, Ogroleto conquistou quatro categorias do Prêmio Zilka Salaberry.
Foto: Ilana Bessler/Divulgação 

No Brasil, esses frágeis limites também são objeto de debate e estudo entre profissionais da área. E não faltam iniciativas no sentido de fundi-los. É o caso de João Falcão, diretor de peças adultas como A máquinaClandestinos e Ensina-me a viver, emprestando seu olhar cheio de melancolia adulta a produções infantis como O pequenino grão de areia e A ver estrelas. Ou do grupo Atores de Laura, que já encenou dramaturgos como Molière, conferindo humor inteligente a O barbeiro de ervilha, adaptação para crianças da ópera O barbeiro de Sevilha, de Rossini, que também leva adultos a gargalhadas. Ou da companhia Teatro de Anônimo, cujo mais recente espetáculo, In conserto, com três palhaços no palco, tem piadas voltadas para adultos (e só compreendidas por eles), mas diverte também as crianças.

Na direção do prestigiado Festival Intercâmbio de Linguagens (FIL), que teve sua última ediçao em julho na capital carioca, e reunindo companhias de todo o mundo, Karen Acioly se empenha a cada ano na fusão desses dois mundos. E enfrenta reações curiosas. “Sempre que realizamos o FIL ou quando nos esforçamos para criar um bonito espetáculo, muitos pais nos perguntam: ‘Mas isso é para crianças ou é para mim?’. Acho interessante tal questão, de muitos adultos separarem interesses. Por que separar, se podemos unir?”, indaga Karen.

PRIMEIRAS EXPERIÊNCIAS
Um dos pioneiros desse debate, Ilo Krugli, fundador do grupo Ventoforte, lembra-se de um episódio ocorrido durante a apresentação de uma de suas peças, que revelou como a mente da criança pode estar além do que um adulto possa imaginar: “Em uma cena, um rei enviava os guardas para rasgar os poemas que os atores-poetas inventavam com o público. Os guardas, terríveis e repressores, fuzilam os poetas. Foi quando uma criança discutiu com um ator que fazia um guarda:‘Vocês não vão matar todos os poetas, porque não podem matar os poetas que ainda não nasceram!’ ”


Mais recente espetáculo da companhia Teatro de Anônimo, In conserto tem piadas voltadas para adultos, mas diverte também as crianças. Foto: Gustavo Gracindo/Divulgação

Com base nessa muito particular sabedoria infantil, Karen Acioly rejeita a ideia de que o teatro para crianças deva ser obrigatoriamente mais raso do que o para adultos, como se houvesse um código para se fazer entendido por indivíduos ainda em formação.

“As crianças são bem mais dotadas que nós, adultos, em suas percepções e sabedoria. Para fazer teatro infantil, são necessários ingredientes que as crianças têm de forma abundante e generosa: inteligência, sensibilidade, bom gosto, abertura, sinceridade, curiosidade, profundidade e, sobretudo, potência de vida”, diz Karen, levando em conta as perguntas que uma criança faz a si mesma quando se vê diante de um mundo hostil e injusto como o dos adultos. “De que maneira podemos contribuir para que suas curiosidades apontem caminhos mais abertos?”, indaga-se. O teatro que estimula a curiosidades, que apura o senso crítico e estético e que atinge as emoções íntimas é para todos.

Suzanne Lebeau tem opinião semelhante: “Toda vez que conseguimos quebrar o silêncio em torno da criação para crianças temos uma importante vitória. O silêncio é tão denso, tão pesado, e os adultos responsáveis pelas crianças, motivados por boas intenções, têm tantos preconceitos com relação ao que podemos ou não dizer a elas... Temos que analisar o teatro enquanto adultos, falando sobre os personagens, as imagens, a coerência, a linguagem”, aponta. “Se a peça não é boa para adultos, não será para crianças. E não podemos negar que nós, adultos e crianças, vivemos no mesmo mundo e carregamos as mesmas questões existenciais durante toda a vida.”


O barbeiro de ervilha é a adaptação para público infantil da ópera O barbeiro de Sevilha, de Rossini, feita pelo grupo Atores de Laura, que já encenou dramaturgos como Molière.
Foto: Renato Mangolim/Divulgação

TEMAS A TRATAR
Apesar dessas defesas, há concordância entre os agentes da cena teatral quanto a certos assuntos não caberem no teatro infantil, sobretudo temas que estimulem a erotização precoce. “Não dá para sexualizar o universo da criança como se ela tivesse o mesmo enfoque de um adolescente ou adulto. Só vai conturbar os signos de seu universo em formação”, diz o jurado do Prêmio Zilka Salaberry, Caique Botkay, que toma Ogroleto como exemplo de que o teatro infantil não precisa ser ingênuo: “É uma fábula sobre a infinita inadequação da formação interna do jovem, o tumulto do crescimento, com as revelações dos impulsos e desejos mais primitivos que habitam o Ogroleto de todos nós – é a grande discussão. E aqui podemos incluir morte, canibalismo, ódio, vingança, cobiça, inveja e todos os sentimentos ditos proibidos e negativos, velhos conhecidos desde a Grécia Antiga”.

Diretora teatral e dramaturga, Lucia Coelho é outra profissional que há anos se vê nesse debate. Seu primeiro espetáculo infantil, Tá na hora, tá na hora, é de 1978. E, como Botkay, ela aposta em um teatro infantil corajoso frente a temas adultos.

“Nos primeiros anos de vida, já tivemos contato com o amor, a dor, o prazer, o medo, a alegria, a rejeição. O teatro é uma fantasia da vida, em doses equivalentes às idades e às experiências. É preciso tratar as emoções com verdade. A dor dói, não adianta disfarçar. Mas a dose é temperada de acordo com os limites da idade e da compreensão. A realidade e a fantasia se equilibram e se complementam porque elas têm o mesmo grau de importância no fazer teatral e na vida”, observa Lucia. 

RAFAEL TEIXEIRA, jornalista.

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