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A arquitetura e a onda verde

TEXTO Fabiano Sobreira

01 de Outubro de 2010

Fabiano Sobreira

Fabiano Sobreira

Foto Divulgação

O discurso em torno de práticas ambientais, verdes, ecológicas ou sustentáveis (termo que varia conforme a “linha retórica” – e não necessariamente “teórica” – escolhida) definitivamente já entrou no universo da Arquitetura. Podemos atribuir uma parcela dessa “onda verde” a uma preocupação coletiva crescente com o meio ambiente, motivada e estimulada pela crise ambiental e energética, ou a preocupações mais racionais e objetivas, como a economia de recursos. Mas outra relevante parcela – e talvez a mais forte – está relacionada ao interesse mercadológico e publicitário pelos “ecoprodutos”, e a Arquitetura tem sido inserida como mais uma linha na prateleira.

Os empreendedores – e também os arquitetos – descobriram que o marketing em torno do “consumo sustentável” poderia ser aplicado também à Arquitetura, e que os “selos verdes” seriam uma forma de orientar o “consumidor”. Como consequência, tem-se observado nesse campo artístico o início de um processo que nasceu no marketing em meados dos anos 1980: o greenwash. O termo se refere à estratégia de marketing com o objetivo de aumentar a venda e a visibilidade de um produto, baseadas em uma falsa imagem ecológica do mesmo. Uma prática questionável, portanto, que tem conduzido os arquitetos por caminhos pouco éticos, em que a propaganda ou imagem publicitária associada ao aspecto “verde” do projeto oculta problemas intrínsecos de qualidade arquitetônica.

Seriam os “selos ecológicos”, por exemplo, mais uma forma de greenwash na Arquitetura? A grande referência internacional, no que diz respeito à certificação ambiental de edificações e empreendimentos, é o Leed (Leadership in Energy and Environmental Design). Os críticos acusam-no de greenwash, por se fundamentar prioritariamente na utilização de novas tecnologias e produtos, pela orientação ao consumo e ao mercado, pela pouca ênfase no projeto e pela ausência de uma contextualização local. Se seguirmos a “cartilha da certificação”, proposta pelo Leed, projetos que simplesmente seguem os princípios lançados por Armando de Holanda, em seu Roteiro para construir no Nordeste (que já ensinava a construir de maneira sustentável antes mesmo da onda verde), não obteriam as classificações máximas propostas pelo selo.

O mesmo ocorreria com boa parte da arquitetura moderna brasileira, como é o caso das obras dos arquitetos Luís Nunes, Delfim Amorim, Acácio Gil Borsoi, entre outros. Da mesma forma, não teria lugar, na classificação do selo, a “arquitetura do povo”, como “as casas sobre palafitas do Amazonas”, descritas por Joaquim Cardozo, em 1955, como “uma arte de construir que, atendendo às contingências de acidentes topográficos diversos e às dificuldades econômicas das populações mais humildes, é quase sempre realizada com espontaneidade singular, caracterizando-se, sobretudo, pelo emprego de materiais de fácil aquisição e mais adequados à aplicação local”.

Enfim, os projetos podem até se utilizar da certificação ambiental como instrumento de referência, mas nunca devem se limitar a ela. Caso contrário, a Arquitetura – como no greenwash – será apenas um instrumento para a promoção de empreendimentos e iniciativas que já nascem insustentáveis, camuflados pela retórica da onda verde. 

FABIANO SOBREIRA, arquiteto e urbanista.

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