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Flávia Pinheiro em "Diafragma 3.0". Foto: Danilo Galvão/DivulgaçãoFlávia Pinheiro em "Diafragma 3.0". Foto: Danilo Galvão/Divulgação

Com o avanço da tecnologia, a possibilidade de exercer controle sobre os corpos instalou a  ideia de superação dos limites impostos pela dimensão material da natureza humana. Se antes eram sujeitos à “fraqueza” inerente a essa condição, os corpos agora passam a ser máquinas eficientes em vida mental e física, devidamente adequadas às novas configurações do tempo, com fluxos ininterruptos que não esperam o levantar após a queda.

Em Diafragma 3.0: como manter-se vivo?, performance apresentada no Trema! Festival e terceiro desdobramento de uma pesquisa, Flávia Pinheiro traz um corpo em constante disputa entre a fragilidade da existência e a tentativa de emancipação da sua própria matéria. Acompanhado de duas esferas iluminadas que se movem através de tecnologia bluetooth, um corpo anda por um tablado branco que delimita o espaço da apresentação. São movimentos precisos e bem marcados, como uma máquina, mas que ainda estão sujeitos à imprevisibilidade de ser e estar vivo  tropeçar, cair, interromper o fluxo.

No linóleo branco, parece existir uma espécie de parede invisível, onde nem o corpo nem as esferas ultrapassam, como um símbolo para a impossibilidade de libertação que a tecnologia diz oferecer. O corpo que (ainda) não é máquina inicia uma sequência de rolamentos, mostrando-se disciplinado à repetição perfeita – remetendo à ideia de rotina, automatização e instrumentalização do nosso tempo, introjetadas mental e fisicamente. A fragilidade é colocada em questão na performance, com a quebra dos padrões de movimento – uma perna trêmula determinado momento, a dificuldade em levantar –, trazendo um alívio, um respiro lento, ao evidenciar que aquele corpo ali presente (ainda) é humano.

Na mesma semana, Flávia já havia se apresentado no festival com a performance Utopyas to every day life, em parceria com a artista Carolina Bianchi (leia aqui). A urgência do movimento como forma de resistência é um tema que permeia as duas obras. Não por acaso, o tema do mesmo festival para o qual foram selecionados os trabalhos foi distopias e realidades. Ao encararmos como realidade a ideia de que vivemos em uma distopia – conexões infinitas, mutações genéticas fabricadas, condição pós-humana –, que estratégias podemos traçar para nos mantermos vivos? Ou, a pergunta que surge diretamente é ainda mais preocupante: e se já “não somos mais humanos?”, como diz a performer durante a apresentação. O que fazer ao perceber que já não somos mais donos da pele em que habitamos?

capa 199
CONTINENTE #199  |  Julho 2017

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