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Cena da peça que estreou em 2007, pelo Coletivo Angu de Teatro (PE). Foto: Lucas Emanuel/DivulgaçãoCena da peça que estreou em 2007, pelo Coletivo Angu de Teatro (PE). Foto: Lucas Emanuel/Divulgação

Se existe uma característica que possa definir e catalogar o Vivencial Diversiones com mais clareza e lealdade, esta palavra é excentricidade. Em Ópera, espetáculo (re)apresentado na noite da sexta-feira (12/5), desta vez pelo Trema! Festival, o Coletivo Angu de Teatro (PE) realizou não somente uma obra de homenagem ao grupo, mas levou ao palco do Teatro Apolo uma montagem que, embora criada há mais de 10 anos, mantém-se atual. Trata-se de uma crítica tão forte à realidade que, mesmo com o sarcasmo tão presente nas montagens do coletivo, não passa despercebida.

Eis que Ópera não segue uma narrativa única ou linear, tal qual Ossos, do mesmo grupo (ambas montagens integraram o Trema! neste ano). Aliás, essas obras possuem, num primeiro olhar, pouca similaridade, sendo mais vista a semelhança no erotismo, no humor e na herança do Vivencial correndo em suas veias. Enfim, durante toda a obra, várias histórias se contam em cada cena, todas elas bem-recebidas pelo público, que gargalhavam e batiam palmas a cada apagar das luzes. Observando, no entanto, o que cada ato passava, pode-se dizer que Ópera se construiu sobre o amor e tudo o que isso acalenta, seja aceitação, seja respeito, seja a paixão.

Isso acontece, por exemplo, logo na primeira cena, na qual os atores interpretam uma rádio-novela de antigamente sobre uma família que se choca ao saber que Surpresa, o cachorro deles, na verdade é gay. O próprio nome da rádio-novela, Entre o amor e o preconceito, já revela em quais princípios Ópera se desvendará nas cenas seguintes. No entanto, um dos pontos em que mais se escancarou a capacidade de misturar crítica e humor numa só cena é quando um dos atores se veste metade mulher, metade homem, em todos os detalhes, inclusive nos cabelos, cantando o que parece ser alguma ópera francesa. Aqui, especialmente nesta cena, o que se entende é que as realidades de cada ser humano vão além de suas genitálias, e que intrinsecamente estamos muito mais relacionados com o modo como nos vemos.

A direção musical e a trilha sonora de Henrique Macedo, assim como acontece em Ossos, é um deleite à parte. Com metade do elenco interpretando anjos, com asas feitas e refeitas por Henrique Celibi – homenageado na noite – André Brasileiro e Robério Lucado interpretam um romance entre um homem e um michê, tal qual em Ossos. Aqui, o erotismo e o apelo sexual atingem o seu ápice, em simulação de cenas de sexo, com os alados cantando como num coral.

Talvez Ópera tenha seu nome ligado justamente à importância da música na condução do espetáculo: nenhuma cena teve ausência de uma trilha sonora, seja cantada, ou somente instrumental. E assim, para coroar uma noite de amor e aceitação, Beautiful, de Christina Aguilera, foi interpretada. Os atores, unidos a uma mulher no centro, despem-se de seus figurinos, e cada qual, novamente se vestem com roupas comuns. É interessante notar que cada ator possui sua própria fisionomia, outros mais magros, outros mais gordos, um ou outro com um corpo atlético, mas todos de diferentes idades. Despir-se, ficando nu, e novamente se vestir com roupas do dia a dia, ao mesmo tempo em que um coração cheio de glitter desce do teto e é refletido no cenário, é talvez dizer que a empatia e o respeito não podem ser considerados uma utopia. É um grito de resistência numa sociedade mergulhada em seus próprios umbigos. 

capa 197
CONTINENTE #197  |  Maio 2017

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