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Juliana Galdino é Eulálio em "Leite derramado, de Roberto Alvim. Foto: Danilo Galvão/DivulgaçãoJuliana Galdino é Eulálio em "Leite derramado, de Roberto Alvim. Foto: Danilo Galvão/Divulgação

Antes, tomemos emprestado este parágrafo-síntese da contracapa do livro Leite derramado (2009), de Chico Buarque, escrito pela crítica Leyla Perrone-Moisés para, daí em diante, partirmos para o espetáculo homônimo encenado no Teatro de Santa Isabel no último fim de semana, no encerramento do Trema! Festival. Resume Leyla: “Um homem muito velho está num leito de hospital. Membro de uma tradicional família brasileira, ele desfia, num monólogo dirigido à filha, às enfermeiras e a quem quiser ouvir, a história de sua linhagem desde os ancestrais portugueses, passando por um barão do Império, um senador da Primeira República, até o tataraneto, garotão do Rio de Janeiro atual. Uma saga familiar caracterizada pela decadência social e econômica, tendo como pano de fundo a história do Brasil dos últimos dois séculos”.

Na encenação de Leite derramado (Morente Forte Produções Teatrais e Club Noir/SP), à medida que os espectadores ocupavam seus respectivos lugares, encontravam, à sua frente, os dizeres do prólogo “Nossa tragédia é toda sua”, dispostos antes de se abrirem as cortinas do passado, como na música Aquarela do Brasil, uma das que compõem a trilha sonora da peça. O que seria apresentado ali, de fato, era um pouco de nossa história, a história deste país pelas memórias do personagem Eulálio Montenegro d'Assumpção (interpretado por Juliana Galdino). O espetáculo nos rememora que a história do Brasil nos percorre, que os fatos de outrora ressoam até hoje – ainda mais nas atuais circunstâncias politicas e econômicas – e por isso nos é demandado ir à luta, às ruas. Nós, les brésiliens.

A tragédia em ambiguidade. Uma referência ao gênero teatral – mesmo que a adaptação do dramaturgo Roberto Alvim não seja exatamente uma tragédia, não em seus moldes tradicionais –, mas também ao sentido adjetivado, característico do que é trágico, como se apontasse para o espectador e afirmasse: “Isto aqui, esta história também é sua”. Já de início, três moscas vestidas de roupas de hospital sambam antes mesmo de as cortinas abrirem. Não há como não estranhar logo no primeiro momento. Lembra Kafka, tanto pelos seres meio insetos, meio humanos, quanto pelo estranhamento e curiosidade que as figuras geram aos olhos do senso comum.

A história é contada no livro a partir do ponto de vista de Eulálio, mas na encenação de Alvim, o diretor optou não por um monólogo, mas pela inserção de outros personagens que dialogam com o protagonista e suas memórias. Outro aspecto interessante é a escrita bastante experimental do livro, do ponto de vista literário, que é incorporada à montagem. Por se tratar de uma narrativa construída a partir de memórias, ou seja, sem cronologia ou espaço muito definidos, o experimentalismo se acentua justamente pelo texto bastante fragmentado, explorado na adaptação do diretor.

É preciso se desprender das formas tradicionais dos gêneros dramáticos para se experienciar este tipo construção cênica – e literária –, livrar-se das demarcações de tempo e espaço. Mas, a exemplo de Leite derramado, é preciso ainda se livrar das noções de personagens tradicionais também, já que um personagem pode, com o recurso de mudar o tom e o timbre da voz, representar outros personagens. Por falar nessas trocas de vozes, é possível que alguns espectadores não soubessem – tamanho o "naturalismo" de sua interpretação  –, mas é a atriz Juliana Galdino quem faz o papel do velho protagonista. Anteriormente, a atriz já havia interpretado um macaco que se transformou em um humano na peça Comunicação a uma academia, também pela Club Noir. A escolha da cenografia, além disso, cria um contraste com a densidade e melancolia do texto, com referências à “brasilidade”: há elementos super coloridos que vão desde a maquiagem a objetos no palco, por exemplo. Em diversos momentos, o elenco executa movimentos coreografados, mas a questão coreográfica também está na iluminação do espetáculo.

Uma das críticas apresentadas, através de nuances de ironia do texto que encontram na montagem uma feroz aliada, foi em relação à visão de progresso industrial. Com um dos hinos da ditadura militar, Pra frente Brasil, o personagem Eulálio corre em círculos, até que uma cadeira de rodas com duas bandeiras brasileiras se aproxima, como se a pressa para crescer trouxesse o cansaço. Uma peça feita a partir de um livro escrito por Chico Buarque, um dos maiores compositores deste país e exemplo de resistência nos anos de chumbo, que traz em sua trilha a versão do próprio autor cantando Deus lhe pague, sabe ser potente. O teatro nos lembrando que todos têm direito ao pão pra comer e a muito mais do que um chão pra dormir. Deus lhe pague!

capa 197
CONTINENTE #197  |  Maio 2017

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