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Leia crítica sobre Ossos, apresentada no Trema! Festival, no Recife

Heleno e Cícero, personagens de "Ossos", do Coletivo Angu de Teatro. Foto: Danilo Galvão/DivulgaçãoHeleno e Cícero, personagens de "Ossos", do Coletivo Angu de Teatro. Foto: Danilo Galvão/Divulgação

Na mitologia grega, Eros e Tânatos são, respectivamente, o deus do amor e da morte. O primeiro (o cupido, na mitologia romana) andava sempre com um arco e flecha a mirar corações para o amor, para a vida. Tânatos, no entanto, sendo o deus da morte, é um antagonista direto. Certa vez, por um descuido de Eros, suas flechas de vida misturaram-se com as flechas da morte, de modo que o amor, agora, passaria a portar vida e morte numa só aljava. Foi nessa atmosfera de vida, amor e morte que o Coletivo Angu de Teatro (PE) apresentou Ossos no Teatro Marco Camarotti, como parte do Trema! Festival.

A montagem do coletivo, partindo desse ponto, trabalha com essa sincronia entre a vida e a perda dela, numa narrativa não linear em que começo, meio e fim parece se perder entre o coro dos urubus (bastante bem-humorados e sarcásticos). Inspirado na obra Nossos ossos, do escritor pernambucano Marcelino Freire, o espetáculo é um vislumbre contemporâneo erótico, sarcástico e misterioso. Tanto na obra literária quanto na cênica, o dramaturgo-personagem Heleno de Gusmão enfrenta uma missão para entregar o corpo de um michê, com o qual se relacionara, à sua cidade natal. O que se acontece no espaço cênico, no entanto, dá até a entender que o palco, o Teatro, é justamente esse local em que as flechas de vida e morte se misturam, numa analogia ao mito. Heleno de Gusmão, interpretado por André Brasileiro, "amaldiçoa" o coletivo por trazer à vida sua história (ou sua morte), como bem afirma no livro: “Minha história estará escrita em meus ossos”.

Descobrimos, no entanto, no decorrer da montagem, que nós – sim, o público, você que lê, eu que escrevo – estamos mortos. Afinal, o “amor fede”, como anuncia os urubus, e até mesmo nos avisa a desconfiar de quem se perfuma demais para esconder seu odor. Ora, cadáveres fedem! E se retomarmos novamente a ideia de que liga amor-vida-morte, não fica tão difícil pensar que, quando amamos, um pedaço de nós morre, por menor que seja. Pois Cícero, o michê que morre de uma maneira estranha – dando espaço para indagar quem, de fato, o matou – também matou Heleno com sua própria morte.

É imprescindível falar de Ossos sem observar todos os detalhes técnicos que, por fora da própria narrativa, possuem uma beleza singular, um cuidado que, no final, acrescenta simbologicamente ao espetáculo. Tanto a direção de arte de Marcondes Limas, como o desenho das luzes de Jathyles Miranda, combinados com a trilha sonora original criada por Juliano Holanda, oferecem um deleite.

Foto: Danilo GalvãoFoto: Danilo Galvão

Na noite de ontem (11/5), em vista à morte de Henrique Celibi, que tanto contribuiu para Ópera, do mesmo coletivo, a montagem foi apresentada como uma homenagem. Todos os atores, plenamente iluminados, de tal forma que não escondiam suas faces contraídas pelo choro, agradeceram, tudo isso depois de cantar que o “o palco é nosso lugar sagrado”, local onde se faz justiça, clamando e reivindicando os ossos (as histórias) de Hermilo Borba, Pernalonga, Luiz Mendonça etc. Uma infeliz coincidência, o palco a que tanto doou-se Celibi, desde o Vivencial, agora o reclama para si: uma vértice digna de Eros e Tânatos. 

capa 197
CONTINENTE #197  |  Maio 2017

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