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Leia crítica sobre Orgia, apresentada no Trema! Festival, no Recife


"Orgia" passando pelo Parque Treze de Maio, Recife. Foto: Lucas Emanuel/Divulgação"Orgia" passando pelo Parque Treze de Maio, Recife. Foto: Lucas Emanuel/Divulgação

Entrei naquele apartamento aconchegante, às beiras do Rio Capibaribe, na Rua da Aurora, com certa ansiedade. Assim que entramos (eu e mais algumas outras pessoas), fomos recebidos como velhos amigos pelos atores Luiz Gustavo Jahjah, Paulo Arcuri e Ronaldo Serruya. Acomodados naquela sala de piso de madeira, sofás e cadeiras espalhadas pelo espaço retangular, as conversas entre público e atores parecia fluir tão naturalmente que, de fato, parecia que já nos conhecíamos. Uma linha bastante tênue separou a convivência e o início do espetáculo Orgia ou de como corpos podem substituir as ideias, do Teatro Kunyn (SP), que integra o Trema! Festival neste ano.

Quando toda a sala parecia bastante cheia, Ronaldo Serruya convida-nos a um brinde. Conversas regadas por vinho, com um Recife ensolarado a se perder de vista na enorme janela do cômodo, a brisa da maré contribuindo para inebriar as ideias, falamos sobre livros, e sobre como uma leitura pode nos proporcionar uma morada. É que, na verdade, Orgia foi inspirada no livro-diário homônimo de Tulio Carella, um escritor e dramaturgo argentino que – à convite da Universidade Federal de Pernambuco – veio à capital para dar aulas na década de 1960. Aqui, experimentou o mel da sexualidade aflorada, aventurando-se em corpos masculinos pela primeira vez: tudo isso foi escrito em seu diário.

Eis que o primeiro ato da montagem é justamente neste clima de despedida de Buenos Aires e de sua esposa, Camila. Os três atores interpretavam a mesma pessoa, e iam e vinham de diferentes cômodos; entretanto, pareciam ser mesmo um único ser: uma só entidade dividida em três corpos. Talvez pelo efeito do vinho, ou não, seja lá se foi proposital, senti-me em casa: uma orgia de afetos, de histórias compartilhadas, misturando-se à própria encenação teatral, como galhos de um único tronco.

Participar (ou assistir) de Orgia também foi como reencontrar-me novamente com o Recife. Por muitas vezes, com a combustão da rotina, passamos por locais, vias e ruas, e não nos deixamos ser conduzidos pela memória. Sendo guiado por aqueles “Tulios”, com um MP3 conectado aos ouvidos tocando uma melodia tão suave e lúgubre ao mesmo tempo, vislumbrei o Recife afetivo que se guardava na minha mente. De ruas perambuladas, de beijos aqui e ali trocados, como relicários da memória mesmo. Deu um nó na garganta, uma sensação de angústia e nostalgia no ventre, de tal forma que os olhos marejaram. Ao mesmo tempo, participando das descobertas do próprio Tulio Carella anotadas no diário, um novo Recife se construía ao redor, uma cidade construída pela perspectiva do próprio argentino.

E foram suas experiências em orgias, uma “geografia corporal”, de sexos e sarros – e suas consequências – que se traduziu no medo. A festa, no meio do Parque 13 de maio, bastante carnavalesca, foi substituída pela opressão de casacos militares. Vestidos de animais, em referência aos próprios escritos poéticos de Carella (vale prestar uma atenção singular ao king kong), os que antes eram festeiros agora nos conduziam entre gritos, cercados por uma corda, a um lugar desconhecido. “É viado!”, gritou um homem a certa altura do trajeto, talvez ao ver os vestidos coloridos daqueles que nos conduziam.

Ver-se preso pelas cordas e pelos gritos, a cena que se constrói após é o ápice do sufoco. Seus corpos, desprovidos de quaisquer roupas, soterrados pela ditadura militar, refletiam não somente a biografia de Carella enquanto torturado pelos anos de chumbo, mas refletiam igualmente a barbárie. Confesso, senti-me oprimido tal qual o que via à frente. Três corpos em orgias de ideias e significados. 

capa 197
CONTINENTE #197  |  Maio 2017

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