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Leia crítica sobre a Trilogia Abnegação, apresentada no Trema! Festival, no Recife
 

Cena de "Abnegação 2" com os atores Vinícius Meloni, André Capuano e Vitor Vieira. Foto: Danilo Galvão/DivulgaçãoCena de "Abnegação 2" com os atores Vinícius Meloni, André Capuano e Vitor Vieira. Foto: Danilo Galvão/Divulgação

 

Cena 1 – Em 1980, é criado no Brasil o Partido dos Trabalhadores, o PT.
Cena 2 – Em 1982, o partido elege seu primeiro prefeito, na cidade de Diadema (SP): o ferramenteiro Gilson Menezes.
Cena 3 – Inicia-se o processo de redemocratização do país, após 20 anos de ditadura militar. Tancredo morre antes de se tornar presidente, Sarney assume o posto. 1985.
Cena 4 – 1989. O sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva, fundador do PT, disputa a primeira eleição presidencial do Brasil desde 1960, perdendo para Collor, do então PRN-Alagoas.
Cena 5 – Impeachment de Collor, 1992.
Cena 6 – Em 1997, Celso Daniel é eleito prefeito da cidade de Santo André, no ABC paulista.
Cena 7 – Em 2001, Toninho do PT, prefeito de Campinas (SP), é assassinado a tiros. 
Cena 8 – “Em 20 de janeiro de 2002, o corpo do então prefeito de Santo André, Celso Daniel, foi encontrado morto com onze tiros. As razões do assassinato nunca foram completamente esclarecidas...” (Alexandre Dal Farra, Abnegação 2)
Cena 9 – Lula é eleito presidente do Brasil, assumindo em 1º de janeiro de 2003. Celso Daniel, que seria seu chefe de campanha, não pôde testemunhar o momento. Aos poucos, membros históricos do PT se apartam do partido.
Cena 10 – Em 2011, Dilma Rousseff (PT) sucede o mandato de Lula, tornando-se a primeira presidenta do Brasil.
Cena 11 – Em 2014, estreia no Centro Cultural São Paulo a peça Abnegação 1, pelo grupo Tablado de Arruar (SP), com texto de Alexandre Dal Farra, diretor da encenação ao lado de Clayton Mariano.
Cena 12 – Ano seguinte: o grupo apresenta, em São Paulo, a segunda obra da trilogia, Abnegação 2 – O começo do fim.
Cena 13 – Em 2016, Dilma é destituída de seu segundo mandato, através de um processo de impeachment. Golpe branco ou institucional. No Sesc Ipiranga, o Arruar fecha sua trilogia com Abnegação 3 – Restos.

 

Esta semana, nos dias 8, 9 e 10 de maio, o público do Recife teve a oportunidade de encarar, de uma vez, as três peças de Alexandre Dal Farra, um jovem autor cuja cara de bom moço não revela, de imediato, o quão brutais podem ser suas palavras, ainda mais ditas em cena. Se levarmos em conta a potência do teatro, além do contexto político atual no Brasil, diríamos que chega a doer em quem assiste, ou melhor, em quem presencia o desenrolar de suas peças. Aqui, ele não está interessado em agradar ninguém, a não ser mostrar as feridas em carne viva que macularam a história da esquerda neste país. Não há dúvidas de que estamos diante de um artista corajoso, que ascende sua força com a encenação do grupo Tablado de Arruar.

Na denotação do dicionário, abnegar significa renunciar ou sacrificar-se em benefício de outrem ou em nome de uma ideia, uma causa. E então Dal Farra nos pergunta com a trilogia Abnegação: até onde um ser humano vai, em sua práxis política, para realizar objetivos que não estavam explícitos em um programa de governo? Dinheiro, álcool, cocaína, prostituição, esquemas de corrupção e outros vícios do poder são testemunhados pelo público, que, aliás, não é mero espectador, mas cúmplice de cenas repulsivas.

Talvez não estivéssemos preparados. “A esquerda pensa que o horror é só da direita, e não é. A gente queria abrir espaço para as coisas que estão aí e não queremos lidar. As pessoas compartilham coisas do (site) 247 que, às vezes, são completamente falsas, mas 'foda-se se é mentira, a gente tem que se reafirmar'. A esquerda é feita de ilhas de consenso. Então, o nosso lance foi provocar”, disse Alexandre Dal Farra, durante o debate da última quarta (10/5) do Trema! Festival (Diálogos Tremáticos 3 - Esquerda brasileira: distopias e realidades), cuja programação incluiu a trilogia.

Final da apresentação de "Abnegação 1" no Teatro Hermilo, no Trema!. Foto: Lucas Emanuel/DivulgaçãoFinal da apresentação de "Abnegação 1" no Teatro Hermilo, no Trema!. Foto: Lucas Emanuel/Divulgação

Talvez não quiséssemos encarar; não agora, em um contexto pós-golpe. As peças, pelo menos as duas primeiras, são inevitavelmente uma porrada na esquerda e em sua representação principal, o PT, mas foram escritas e estrearam antes do impeachment de Dilma. O cenário mudou, sem dúvida, o que fez o diretor Clayton Mariano falar em “chutar cachorro morto”, se considerarmos sua encenação no Brasil atual. Mas, na verdade, para Clayton – presente no elenco do primeiro espetáculo e ex-filiado do PT – o que acontece é que o partido nunca se deu verdadeiramente a chance de se fazer uma autocrítica, ou mesmo aceitar críticas – ainda que vindas da esquerda. Sendo assim, parece que nunca houve o momento ideal para expor suas contradições, embora saibamos que este seja um momento um tanto arriscado para tamanha ousadia.

Antes que o leitor ou mesmo alguém que esteve no Teatro Hermilo nestes dias de saga pense que esta é uma trilogia “de direita”, “antipetista” ou mesmo “uma sátira de mau gosto”, como alguém da plateia de Abnegação 2 falou em voz alta, é preciso dizer que estamos diante de uma obra de arte e não de um pensamento que só cabe de um lado ou de outro, como em posts de rede social. O trabalho não está interessado em alimentar Fla x Flu político, pois a ambiguidade é aqui a matéria-prima de criação e não o discurso direto – ou como alguns poderiam dizer, “panfletário”. A tentativa foi “transformar fato em forma e não em assunto”, citando a explicação do autor, ao se referir, por exemplo, às suas pesquisas em relação ao caso da morte de Celso Daniel, levada a cabo em Abnegação 2. A maneira como se deu essa transformação na linguagem teatral é que parece ser a questão.

Se há um consenso entre os criadores, é que a trilogia Abnegação se mostra uma obra “da esquerda para a esquerda”. E sendo mais à(s) esquerda(s) a inclinação política de grande parte do público que frequenta esse tipo de teatro (contemporâneo, autoral, sem concessões), já dá para imaginar o quão tem sido difícil para essa plateia ter que se ver, de alguma maneira, no espelho. O exercício é interessante para os que estão dispostos a sair da zona de conforto. E Dal Farra sabe ser cirúrgico: “Antes, era até mais difícil falar sobre essas questões, pois havia esperança. O risco de hoje é a gente santificar uma memória. Comparo este momento (da encenação das peças), então, a uma autópsia: é preciso olhar para o cadáver, tocar nas feridas e perguntar: por que ele morreu?”. Dissequemos então o cadáver, levando em conta o conselho de Abnegação: “Não sinta culpa, fique triste”.

ABNEGAÇÃO 1

Zé (Vitor Capuano) e Paulo (Clayton Mariano) em "Abnegação 1". Foto: Lucas Emanuel/DivulgaçãoZé (Vitor Capuano) e Paulo (Clayton Mariano) em "Abnegação 1". Foto: Lucas Emanuel/Divulgação

Ao adentrarmos no Teatro Hermilo, nos deparamos com um ambiente escuro. Uma luminária direciona um feixe de luz a uma mesa, às bebidas alcóolicas e ao quarteto de homens que se movimenta. Desde o início, pelas expressões dos personagens, um deles, de nome Celso, tenta gradualmente apresentar documentos e convencer os demais personagens de que estão cavando seu próprio buraco – na verdade, o dele próprio.

As coisas não são óbvias, mas o recado é direto. Além dos elementos de composição cênica referidos, alguns papéis repousam no canto da mesa, sugerindo qual é o lugar dos processos legais ante os interesses. A memória oficial como incômodo. Na medida em que a narrativa se constrói, os personagens se desmascaram. Um deles se chama Zé, aspirante a governador que não tira o charuto da boca e balbucia palavras “sem sentido” enquanto bebe no gargalo de um Johnny Walker (o próprio, vale salientar).

O espetáculo Abnegação 1 é uma espécie de preparação para o espectador, uma preparação para o que está por vir: o descontrole de um jogo de poder comandado por homens, aspecto mais evidente em Abnegação 2. Se há um território marcado pela misoginia, este é o da política, e Dal Farra faz questão de mostrar isso, embora sob uma perspectiva bem masculina. A coragem dele está, inclusive, no modo ríspido com o qual apresenta os diálogos machistas. Estamos diante de um horror caricato, que não escolhe direita ou esquerda, mas neste caso pertence à segunda. Nas primeiras falas violentas direcionadas à única personagem mulher em cena, Zé (André Capuano), Celso (Vitor Vieira), Jonas (Vinícius Meloni) e Paulo (Clayton Mariano) demonstram que o papel dela ali é servi-los. Nem que para isso a “hora extra” valha “R$ 400”. Flávia (Alexandra Tavares), a mulher, só é necessária àquele ambiente quando está de acordo. Ela se submete ao jogo, mas atua também como uma voz dissonante.

Flávia (Alexandra Tavares) e o jogo de "Abnegação 1". Foto: Lucas Emanuel/DivulgaçãoFlávia (Alexandra Tavares) e o jogo de "Abnegação 1". Foto: Lucas Emanuel/Divulgação

ABNEGAÇÃO 2
“Em 20 de janeiro de 2002, o corpo do então prefeito de Santo André, Celso Daniel, foi encontrado morto com onze tiros. As razões do assassinato nunca foram completamente esclarecidas. Essa peça não tem qualquer intenção documental. É uma criação inteiramente ficcional, livremente inspirada nos fatos ligados a esse acontecimento.” O acontecimento a que se refere o autor no texto de abertura de Abnegação 2 – O começo do fim é o fio condutor do mais controverso e incômodo dos três espetáculos. Estamos diante de um estágio mais avançado de abnegação, em que as figuras envolvidas estão dispostas a tudo para abnegar. E abnegar aqui não significa se sacrificar em nome de um ideal, mas em prol de um jogo cujo objetivo é mais a manutenção de um poder e uma imagem, mesmo que a morte esteja no caminho.

É corajosa também a disposição dos criadores em desenterrar, cerca de 10 anos depois (em 2013), um caso justificado oficialmente como crime comum pela polícia, mas ainda hoje investigado pelo Ministério Público pelas evidências de seu teor político. Mais do que isso: ficcionalizar um fato que virou tabu para o PT e ainda hoje segue assombrando por sua falta de desfecho – desde então, mais oito pessoas relacionadas ao assassinato do ex-prefeito morreram por razões tão “misteriosas” quanto (questão não tratada diretamente pela peça).

André Capuano e Vitor Vieira, que faz Jorge (Celso Daniel) em "Abnegação 2". Foto: Danilo Galvão/DivulgaçãoAndré Capuano e Vitor Vieira, que faz Jorge (Celso Daniel) em "Abnegação 2". Foto: Danilo Galvão/Divulgação

Embora se diga não documental, o espetáculo coloca em cena as figuras do caso, muitas vezes com os seus nomes reais, a exemplo de Sérgio, o Sérgio Sombra, ex-segurança de Celso Daniel, suspeito de ser o mandante do crime. Mas na segunda montagem do Arruar Celso chama-se “Jorge” e o seu irmão Bruno Daniel – peça-chave nas investigações – atende por Antônio.

Impossível deixar tudo isso para a ficção, mas é por ela que entramos na realidade. A cada peça, temos novos recursos cênicos, que falam por si. O modo particular que Dal Farra e Clayton Mariano transformam isso em teatro tira da banalidade o que jamais deveria ser banal. E é justamente escancarando isso que nos levam ao constrangimento. “Mas nada vai sair dessa sala”, diz Jorge, olhando para a plateia. “Mas isso é para construir um mundo melhor”, um texto na boca de diferentes personagens, em momentos distintos. Enquanto isso, somos torturados com cenas histriônicas (como se o texto não bastasse), que poderiam ser dispensáveis, mas funcionam para a ideia de descontrole. Como “alívio”, somos postos diante de uma mal-estar intercalado por cenas curtas, camadas de dramaturgia em que, diante de uma luz baixa, os atores (incluindo mais uma atriz) nos fitam para narrar histórias de estupro, pedofilia e violência extrema. Em uma delas, um bandido conta com naturalidade como arrancou os dois olhos de um menino a faca. São requintes de crueldade que encontram exemplos análogos no “real”.

ABNEGAÇÃO 3

Os atores Vitor Vieira, Janaina Leite, Ligia Oliveira, Antonio Salvador e André Capuano em "Abnegação 3". Foto: Lucas Emanuel/DivulgaçãoOs atores Vitor Vieira, Janaina Leite, Ligia Oliveira, Antonio Salvador e André Capuano em "Abnegação 3". Foto: Lucas Emanuel/Divulgação

A última parte da trilogia é menos estridente, mas igualmente trágica. Uma ressaca do que ficou, na voz de pessoas a quem não resta outra coisa senão sentar e contar situações de uma vida comum que ecoam os valores de uma dada classe média, e suas contradições, no contexto pós-ascensão do Partido dos Trabalhadores ao poder.  Aqui a referência ao PT é mais diluída, mas há uma lona vermelha como pano de fundo no cenário. O que restou é sangue ou ideologia? O que fazer com ela?

Há outras perguntas e não há uma só resposta. Talvez possamos ensaiar algum caminho diante das duas falas finais de Abnegação 2. Na primeira delas, o personagem que faz o irmão de Celso Daniel nos diz: “O que me entristece é a morte de um sonho. De uma utopia, que era muito maior do que tudo isso. Você, Paulo, é parte disso, desse assassinato: vocês mataram a utopia, que naquela época o meu irmão, inclusive, dizia isso, que a utopia estava virando realidade. O que me entristece nisso é que não é só você que deixou de sonhar, não são só vocês. É praticamente a população inteira. Um país inteiro totalmente incapaz de imaginar algo de diferente, um modo diferente, um país niilista, cético, sem imaginação. (...) nós precisamos reacordar a utopia, precisamos reinserir o sonho na nossa imaginação política. Porque senão a realidade vai ficar impossível de suportar”.

Na segunda, dita por Paulo, o codinome para um dos articuladores políticos da Prefeitura de Santo André à época, escutamos assim: “O problema, Antônio, não é que tal ‘sonho’ esteja em risco, que ele esteja acabando, que o país não saiba mais sonhar... O problema é justamente que ele ainda não acabou completamente. Esse sonho aí, essa utopia que a gente tinha, e que no seu caso não suportou nem seis meses de contato com o mundo real, ela precisa acabar de vez, desaparecer de forma irrevogável, todas as utopias e sonhos, tudo isso precisa sumir, desaparecer da nossa cabeça, porque só quando não houver mais nenhum resquício disso, só quando estivermos totalmente despidos das nossas esperanças, e olharmos para a desgraça do mundo de frente, por muito tempo, sem nenhuma perspectiva redentora além da realidade nua e crua, só então é que poderemos talvez encontrar uma outra capacidade de imaginar, que não se funde na esperança de um sucesso mágico, de uma vitória milagrosa, feita de boas ações. (...) Uma utopia que nascerá do contato com a finitude, com o erro, com o que existe de ruim: com os fatos concretos.

E os fatos concretos quase sempre carregam um pouco de dor”.

De uma forma ou de outra, a solução não está pronta e é importante sermos firmes diante da abnegação. Isso não significa ser isento.

capa 199
CONTINENTE #199  |  Julho 2017

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