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Carolina Bianchi e Flávia Pinheiro. Foto: Danilo Galvão/DivulgaçãoCarolina Bianchi e Flávia Pinheiro. Foto: Danilo Galvão/Divulgação

Em todo processo de transformação energética, parte dessa energia é perdida e liberada no espaço. O corpo humano, dono da força obtida por suas reações metabólicas, converte essa força em movimento, eletrizando corpos e liberando calor 
– o suor. Quando dois corpos inquietos, inconformados e dançantes impregnam de calor-energia o mesmo espaço de outros corpos estagnados, é impossível não haver reação. Ao entrar na sala do Museu de Artes Afro-Brasil Rolando Toro, às 16h de uma segunda-feira, sons característicos do cotidiano das metrópolescarros, ônibus e construçõesainda são ouvidos de longe. As performers Flávia Pinheiro (PE) e Carolina Bianchi (SP), cada uma em um canto da sala, iniciam uma pequena movimentação. A cada minuto da primeira apresentação de Utopyas to every day life, que integra a programação do Trema! Festival de Teatro, somos levados à abertura de nossos corpos e mentes, antes tomados pela rigidez da rotina diária, perdendo-se no tempo e espaço.

A performance dialoga com uma instalação em canos de PVC, no alto da sala, de onde um líquido azulado goteja em três pontos diferentes do chão, alternando fluxos. Durante três horas consecutivas, as artistas permanecem em “estado de dança” contínuo, levando seus corpos ao esgotamento. Ao som de músicas pop, que vão desde Roberto Carlos à baladas oitentistas como Take my breath away, dois corpos irônicos dançam, cantam, atiram-se contra as paredes, riem e correm pela sala; equilibram-se em um único pé, caem e escorregam.

Carolina Bianchi e Flávia Pinheiro. Foto: Danilo Galvão/DivulgaçãoCarolina Bianchi e Flávia Pinheiro. Foto: Danilo Galvão/Divulgação

Desenvolvida pelas duas artistas durante residência em São Paulo, a “instalação performática” utiliza a ausência de uma
mise en scène e a horizontalidade do espaço para potencializar a apresentaçãoelementos que integram a pesquisa de Flávia, que já havia se apresentado no Trema. Numa partitura aberta à improvisação, Carolina e Flávia se fazem presentes por toda a extensão da sala, energizam e esquentam o ambiente, instigando também a participação de alguns espectadores (?) que dançam e cantam em alguns momentos –, tornando a experiência uma utopya coletiva.

Para Bauman, vivemos em tempos de uma modernidade (ou contemporaneidade) líquida, fluída, superficial, cheia de incertezas e inseguranças. Vivendo em contextos distópicos, dançar é uma forma de resistir ao fluxo que tenta nos empurrar contra a parede, solidificando nossa presença e identidade no mundo. Em tempos líquidos, a dança também é uma utopia.

Carolina Bianchi e Flávia Pinheiro. Foto: Danilo Galvão/DivulgaçãoCarolina Bianchi e Flávia Pinheiro. Foto: Danilo Galvão/Divulgação

Atores partem da relevância social, cultural e política de "Cabeça dinossauro". Foto: Bernardo Cabral/DivulgaçãoAtores partem da relevância social, cultural e política de "Cabeça dinossauro". Foto: Bernardo Cabral/Divulgação

"Aa-uu, aa-uu." Quem é o homem que urra na capa do disco Cabeça dinossauro, de 1986? Quem é o que homem que urra no Brasil dos dias atuais? O espetáculo Cabeça Um documentário cênico, de Felipe Vidal, atenta para questões sobre um Brasil em que os ecos do regime ditatorial ressoam hoje com a mesma força dos primeiros anos de redemocratização no país. Em cenário e iluminação de show de rock, oito atores tocam e cantam as faixas do disco Cabeça dinossauro, dos Titãs, intercaladas a provocações que misturam memórias afetivas sobre os anos 1980, poemas e citações.

No centro do palco, são projetadas palavras e imagens que transitam entre o passado e o presente, numa narrativa construída a partir da conexão entre as inquietações do grupo musical nos anos 1980 e temas que (ainda) permeiam aspectos políticos e sociais da atualidade. Dividido em duas partes, exatamente como os lados A e B do vinil, o espetáculo tem momentos mais sérios e outros mais leves e humorados, sem perder a ironia e o tom ácido das críticas ao conservadorismo.

A primeira parte pega encalço na agressividade punk rock de músicas como Polícia, Estado violência, A face do destruidor e Porrada, trazendo a ideia de uma violência onipresente, que se manifesta nas formas físicas, verbais e psicológicas. Relatos sobre a violência policial e os discursos de ódio do pastor norte-americano Jimmy Swaggart famoso na época pela legião de fiéis que acompanhavam seu programa nas televisões do mundo inteiro ilustram essa ideia.

Se há cerca de 30 anos Jimmy Swaggart lotava o Maracanã e aumentava sua fortuna com doações de fiéis, no Brasil atual o fundamentalismo religioso parece se utilizar de estratégias similares, representado por figuras como Edir Macedo, Marco Feliciano e Silas Malafaia. Naquela época, a presença de evangélicos na esfera pública ainda era pouco expressiva. Hoje, o Congresso Nacional conta com uma bancada evangélica de 87 deputados e três senadores, muitos deles detentores de veículos de comunicação.

Ao ser interrogado sobre o exercício da profissão, um ator recebe uma porrada de perguntas, que soam mais como afirmações. "Você mama nas tetas do governo!", "Você sobrevive da Lei Rouanet!", frases que remetem novamente à ideia de que somos constantemente violentados. Em tempos nos quais as redes socais são palco de disputas ideológicas, a intolerância e hostilidade encontram solo fértil nos comentários anônimos da internet, em mónologos que trazem verdades absolutas.

Entre trânsitos temporais, a peça se debruça sobre uma experiência democrática que sempre esteve em crise, infiltrada pelas raízes de um regime autoritário que nunca foram cortadas completamente. Sarney, à frente do país na época de lançamento do disco, era vice-presidente de Tancredo Neves falecido em 1985 , e chegou à presidência por outro caminho que não o voto popular. Parece que os tempos de hoje tem muitas coisas em comum com a segunda metade dos anos 1980.

Personagens dividem questões em um cômodo da casa. Foto: Deivyson Teixeira/DivulgaçãoPersonagens dividem questões em um cômodo da casa. Foto: Deivyson Teixeira/Divulgação

Um pressuposto elementar a qualquer obra-prima é a capacidade de manter-se viva e não atingir o esgotamento. Quanto mais potente um produto artístico, mais se torna passível de recriação e de interpretações intermináveis. Em casos particulares, como em obras que não chegaram a ser concluídas, então, o mistério é aguçado à enésima potência. Aquele sentimento “a vida inteira que poderia ter sido e que não foi”, descrito por Manuel Bandeira, pode servir de estímulo para a imaginação de outros artistas. Dito isto porque foi a partir de fragmentos de Fatzer, conjunto de histórias inconclusas do dramaturgo alemão Bertold Brecht, que o Teatro Máquina (CE) desenvolveu seu Diga que você está de acordo! MáquinaFatzer, em cartaz no Recife pelo Trema! Festival. Entre as versões deste trabalho brechtiano, escrito entre as décadas de 1920 e 1930, há o desfecho trazido por Heiner Müller com O declínio do egoísta Johann Fatzer, publicado no Brasil pela extinta Cosac Naify.

Permeado por extremos, o espetáculo do grupo cearense se movimenta a partir de expressões faciais, rangidos, violência e força física. Quem conhece o Teatro Hermilo Borba Filho sabe de sua aproximação entre a plateia e o espaço cênico. Para um teatro como o apresentado pelo grupo cearense, a relação entre a encenação e esta proximidade funcionou muito bem. De perto, víamos todo o processo de desmonte do cenário à medida que a narrativa ia se desenvolvendo. O cenário, inclusive, composto em maior parte de madeira, acomodava uma casa, além dos cinco personagens interpretados por Loreta Dialla, Fabiano Veríssimo, Felipe de Paula, Márcia Medeiros e Levy Mota em um único cômodo no chão de blocos de madeira. Entre espectador e espetáculo, fez-se o pacto das representações quando associados a outros recursos teatrais. O que unia aquelas pessoas naquele ambiente de fuga acabava sendo reproduzido dentro daquele ambiente cênico. 

Elementos cênicos remetem a um estado de guerra. Foto: Deivyson Teixeira/DivulgaçãoElementos cênicos remetem a um estado de guerra. Foto: Deivyson Teixeira/Divulgação

Os personagens falavam uma língua desconhecida a mim, mas que remetia à fonética germânica. Mesmo sem compreender aquelo código, a narrativa se construiu perfeitamente. Personagens empoeirados, feridos e latentes, em uma organização que se desconstruía ao longo da narrativa. Por outros recursos da linguagem teatral, a roupa empoeirada, o cenário, suas inquietudes e o quão abrupta eram suas ações, compreendi que se passava em uma guerra, provavelmente a Primeira Guerra Mundial. Experimentei, naquela atmosfera de guerra e desespero, o contrafluxo da humanidade que é uma realidade de guerra. A partir da encenação de Diga que você está de acordo! Máquinafatzer, percebe-se que o que Brecht nos despertava século passado ainda faz todo sentido. Como em um processo cíclico, ao nos aproximarmos demais da razão, podemos nos perder novamente.

Leia mais sobre o festival AQUI.

 André Braga em "Noite". Fotos: Danilo Galvão/DivulgaçãoAndré Braga em "Noite". Fotos: Danilo Galvão/Divulgação

 

O peito encostado ao zinco sujo
Duma geração de subúrbio presente
Aqui os jovens, com a canga nos ombros
E o mundo poderia desabar dentro de 5 minutos
O copo estilhaça os vidros esfregados
Nos ombros
No peito onde uma veia rebenta
Para mostrar o radioso canto
Depois dança contorce-se embriagado
Sobre o rosto suado
Com a ponta dos dedos espalha sangue e cuspo
Construindo a derradeira máscara
Cai para dentro do seu próprio labirinto
” 

Al Berto, no poema Noite de Lisboa com autorretrato e sombra de Ian Curtis

 

Nossos afazeres cotidianos, se pensarmos, são esboçados em torno de diversas correntes elétricas, sejam os impulsos biolétricos ou as próprias instalações elétricas convencionais. Espaços ocupados por luzes, numa espécie de relação dialética, ditam o fluxo de pessoas em determinado território, mas também invocam luzes aos lugares. O submundo, talvez por trazer uma simbologia do escuro, seria por vezes compreendido como um território insociável. Contudo, por toda parte, quando o dia é coberto pelo véu da noite, começa-se o preparo para o que está por vir.

É neste ambiente de iminência das transformações suscitado pelo noturno que o espetáculo Noite, da Cia. Circolando (Portugal), se desenvolve. As ações invocadas pelos objetos cênicos escolhidos, mesmo que não sejam consolidadas em cena, despertam para o que poderia ser. Luvas de boxe, roupas, máscaras do modo utilizado pelos três bailarinos (André Braga, Paulo Mota e Ricardo Machado), dão autonomia ao público para que construa suas interpretações, ainda mais quando associados aos movimentos apresentados no espetáculo. Apesar do título no singular, são várias as noites recriadas pelo grupo a partir da obra poética do português Al Berto. Isto, entre aspectos comuns, além dos particulares de cada uma destas "noites" representadas.

 

Na abertura do Trema! Festival, por volta de 20h15, Pedro Vilela, o diretor artístico subiu ao palco do Teatro Barreto Júnior para brevemente fazer as apresentações. Entre o que foi dito, deram o tom do que nos espera no festival deste ano (cujo tema é 'distopias e realidades') provocações como a frase do escritor de Admirável mundo novo, Aldous Huxley: “E se esse mundo for o inferno de outro planeta?”; ou ainda: “O nosso lema será sempre resistir”.

Trio dos performers na abertura do Trema!, dia 3/5, no Teatro Barreto Jr., no RecifeTrio dos performers na abertura do Trema!, dia 3/5, no Teatro Barreto Jr., no Recife

Voltando à noite, em momentos da apresentação surgem alguns devaneios. Mascarar-se com expressões de sanha ou vestir luvas de boxe poderiam imediatamente intimar o espectador participante a pensar em embates, num sentido mais denotativo. Entretanto, no ambiente cênico desenvolvido pelos três ao lado do DJ André Pires – também presente no palco –, estas representações acontecem através de sugestões e tensões. Nos território de iminência das ações, como dito anteriormente. Os atritos propostos pelos artistas lembram que conflitos – até quando físicos – não se consolidam apenas por meio de pancadas ou socos, eles se estabelecem também no plano simbólico. Isto, para trazer da abundância atual de conflitos desta esfera no Brasil e no mundo.

A base dos elementos cênicos em Noite são as pilhas de pneus e, claro, os três corpos masculinos que percorrem o palco. Eles transformam-se. Dançam entre escuridão e as diversas luzes. Mas é pela mistura, entre recursos do teatro, da dança e da performance, que a ordem dá lugar à desordem, contribuindo para o processo caótico. Diversos materiais besuntam desde os bailarinos aos componentes cênicos, por toda a apresentação. A fricção entre os pneus, os corpos e os fios dispostos pelo palco ecoam, inclusive, sonoridades que se regulam à trilha desenvolvida pela mesa de som de André Pires.

Ainda sobre a sonoplastia, sempre inserindo no universo da música eletrônica, o espetáculo traz o tango, a ópera e a música clássica, além dos ruídos. A composição cênica em outros campos de Noite sugere questões sobre o amor, o caos, a ironia e a solidão. Eles extendem ao palco a zona de combates simbólicos que é a sociedade e levam o espectador, alguns momentos com humor, a cair dentro de seus próprios labirintos.

capa 197
CONTINENTE #197  |  Maio 2017

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