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Cena da peça que estreou em 2007, pelo Coletivo Angu de Teatro (PE). Foto: Lucas Emanuel/DivulgaçãoCena da peça que estreou em 2007, pelo Coletivo Angu de Teatro (PE). Foto: Lucas Emanuel/Divulgação

Se existe uma característica que possa definir e catalogar o Vivencial Diversiones com mais clareza e lealdade, esta palavra é excentricidade. Em Ópera, espetáculo (re)apresentado na noite da sexta-feira (12/5), desta vez pelo Trema! Festival, o Coletivo Angu de Teatro (PE) realizou não somente uma obra de homenagem ao grupo, mas levou ao palco do Teatro Apolo uma montagem que, embora criada há mais de 10 anos, mantém-se atual. Trata-se de uma crítica tão forte à realidade que, mesmo com o sarcasmo tão presente nas montagens do coletivo, não passa despercebida.

Eis que Ópera não segue uma narrativa única ou linear, tal qual Ossos, do mesmo grupo (ambas montagens integraram o Trema! neste ano). Aliás, essas obras possuem, num primeiro olhar, pouca similaridade, sendo mais vista a semelhança no erotismo, no humor e na herança do Vivencial correndo em suas veias. Enfim, durante toda a obra, várias histórias se contam em cada cena, todas elas bem-recebidas pelo público, que gargalhavam e batiam palmas a cada apagar das luzes. Observando, no entanto, o que cada ato passava, pode-se dizer que Ópera se construiu sobre o amor e tudo o que isso acalenta, seja aceitação, seja respeito, seja a paixão.

Isso acontece, por exemplo, logo na primeira cena, na qual os atores interpretam uma rádio-novela de antigamente sobre uma família que se choca ao saber que Surpresa, o cachorro deles, na verdade é gay. O próprio nome da rádio-novela, Entre o amor e o preconceito, já revela em quais princípios Ópera se desvendará nas cenas seguintes. No entanto, um dos pontos em que mais se escancarou a capacidade de misturar crítica e humor numa só cena é quando um dos atores se veste metade mulher, metade homem, em todos os detalhes, inclusive nos cabelos, cantando o que parece ser alguma ópera francesa. Aqui, especialmente nesta cena, o que se entende é que as realidades de cada ser humano vão além de suas genitálias, e que intrinsecamente estamos muito mais relacionados com o modo como nos vemos.

A direção musical e a trilha sonora de Henrique Macedo, assim como acontece em Ossos, é um deleite à parte. Com metade do elenco interpretando anjos, com asas feitas e refeitas por Henrique Celibi – homenageado na noite – André Brasileiro e Robério Lucado interpretam um romance entre um homem e um michê, tal qual em Ossos. Aqui, o erotismo e o apelo sexual atingem o seu ápice, em simulação de cenas de sexo, com os alados cantando como num coral.

Talvez Ópera tenha seu nome ligado justamente à importância da música na condução do espetáculo: nenhuma cena teve ausência de uma trilha sonora, seja cantada, ou somente instrumental. E assim, para coroar uma noite de amor e aceitação, Beautiful, de Christina Aguilera, foi interpretada. Os atores, unidos a uma mulher no centro, despem-se de seus figurinos, e cada qual, novamente se vestem com roupas comuns. É interessante notar que cada ator possui sua própria fisionomia, outros mais magros, outros mais gordos, um ou outro com um corpo atlético, mas todos de diferentes idades. Despir-se, ficando nu, e novamente se vestir com roupas do dia a dia, ao mesmo tempo em que um coração cheio de glitter desce do teto e é refletido no cenário, é talvez dizer que a empatia e o respeito não podem ser considerados uma utopia. É um grito de resistência numa sociedade mergulhada em seus próprios umbigos. 

Leia crítica sobre Ossos, apresentada no Trema! Festival, no Recife

Heleno e Cícero, personagens de "Ossos", do Coletivo Angu de Teatro. Foto: Danilo Galvão/DivulgaçãoHeleno e Cícero, personagens de "Ossos", do Coletivo Angu de Teatro. Foto: Danilo Galvão/Divulgação

Na mitologia grega, Eros e Tânatos são, respectivamente, o deus do amor e da morte. O primeiro (o cupido, na mitologia romana) andava sempre com um arco e flecha a mirar corações para o amor, para a vida. Tânatos, no entanto, sendo o deus da morte, é um antagonista direto. Certa vez, por um descuido de Eros, suas flechas de vida misturaram-se com as flechas da morte, de modo que o amor, agora, passaria a portar vida e morte numa só aljava. Foi nessa atmosfera de vida, amor e morte que o Coletivo Angu de Teatro (PE) apresentou Ossos no Teatro Marco Camarotti, como parte do Trema! Festival.

A montagem do coletivo, partindo desse ponto, trabalha com essa sincronia entre a vida e a perda dela, numa narrativa não linear em que começo, meio e fim parece se perder entre o coro dos urubus (bastante bem-humorados e sarcásticos). Inspirado na obra Nossos ossos, do escritor pernambucano Marcelino Freire, o espetáculo é um vislumbre contemporâneo erótico, sarcástico e misterioso. Tanto na obra literária quanto na cênica, o dramaturgo-personagem Heleno de Gusmão enfrenta uma missão para entregar o corpo de um michê, com o qual se relacionara, à sua cidade natal. O que se acontece no espaço cênico, no entanto, dá até a entender que o palco, o Teatro, é justamente esse local em que as flechas de vida e morte se misturam, numa analogia ao mito. Heleno de Gusmão, interpretado por André Brasileiro, "amaldiçoa" o coletivo por trazer à vida sua história (ou sua morte), como bem afirma no livro: “Minha história estará escrita em meus ossos”.

Descobrimos, no entanto, no decorrer da montagem, que nós – sim, o público, você que lê, eu que escrevo – estamos mortos. Afinal, o “amor fede”, como anuncia os urubus, e até mesmo nos avisa a desconfiar de quem se perfuma demais para esconder seu odor. Ora, cadáveres fedem! E se retomarmos novamente a ideia de que liga amor-vida-morte, não fica tão difícil pensar que, quando amamos, um pedaço de nós morre, por menor que seja. Pois Cícero, o michê que morre de uma maneira estranha – dando espaço para indagar quem, de fato, o matou – também matou Heleno com sua própria morte.

É imprescindível falar de Ossos sem observar todos os detalhes técnicos que, por fora da própria narrativa, possuem uma beleza singular, um cuidado que, no final, acrescenta simbologicamente ao espetáculo. Tanto a direção de arte de Marcondes Limas, como o desenho das luzes de Jathyles Miranda, combinados com a trilha sonora original criada por Juliano Holanda, oferecem um deleite.

Foto: Danilo GalvãoFoto: Danilo Galvão

Na noite de ontem (11/5), em vista à morte de Henrique Celibi, que tanto contribuiu para Ópera, do mesmo coletivo, a montagem foi apresentada como uma homenagem. Todos os atores, plenamente iluminados, de tal forma que não escondiam suas faces contraídas pelo choro, agradeceram, tudo isso depois de cantar que o “o palco é nosso lugar sagrado”, local onde se faz justiça, clamando e reivindicando os ossos (as histórias) de Hermilo Borba, Pernalonga, Luiz Mendonça etc. Uma infeliz coincidência, o palco a que tanto doou-se Celibi, desde o Vivencial, agora o reclama para si: uma vértice digna de Eros e Tânatos. 

Leia crítica sobre Orgia, apresentada no Trema! Festival, no Recife


"Orgia" passando pelo Parque Treze de Maio, Recife. Foto: Lucas Emanuel/Divulgação"Orgia" passando pelo Parque Treze de Maio, Recife. Foto: Lucas Emanuel/Divulgação

Entrei naquele apartamento aconchegante, às beiras do Rio Capibaribe, na Rua da Aurora, com certa ansiedade. Assim que entramos (eu e mais algumas outras pessoas), fomos recebidos como velhos amigos pelos atores Luiz Gustavo Jahjah, Paulo Arcuri e Ronaldo Serruya. Acomodados naquela sala de piso de madeira, sofás e cadeiras espalhadas pelo espaço retangular, as conversas entre público e atores parecia fluir tão naturalmente que, de fato, parecia que já nos conhecíamos. Uma linha bastante tênue separou a convivência e o início do espetáculo Orgia ou de como corpos podem substituir as ideias, do Teatro Kunyn (SP), que integra o Trema! Festival neste ano.

Quando toda a sala parecia bastante cheia, Ronaldo Serruya convida-nos a um brinde. Conversas regadas por vinho, com um Recife ensolarado a se perder de vista na enorme janela do cômodo, a brisa da maré contribuindo para inebriar as ideias, falamos sobre livros, e sobre como uma leitura pode nos proporcionar uma morada. É que, na verdade, Orgia foi inspirada no livro-diário homônimo de Tulio Carella, um escritor e dramaturgo argentino que – à convite da Universidade Federal de Pernambuco – veio à capital para dar aulas na década de 1960. Aqui, experimentou o mel da sexualidade aflorada, aventurando-se em corpos masculinos pela primeira vez: tudo isso foi escrito em seu diário.

Eis que o primeiro ato da montagem é justamente neste clima de despedida de Buenos Aires e de sua esposa, Camila. Os três atores interpretavam a mesma pessoa, e iam e vinham de diferentes cômodos; entretanto, pareciam ser mesmo um único ser: uma só entidade dividida em três corpos. Talvez pelo efeito do vinho, ou não, seja lá se foi proposital, senti-me em casa: uma orgia de afetos, de histórias compartilhadas, misturando-se à própria encenação teatral, como galhos de um único tronco.

Participar (ou assistir) de Orgia também foi como reencontrar-me novamente com o Recife. Por muitas vezes, com a combustão da rotina, passamos por locais, vias e ruas, e não nos deixamos ser conduzidos pela memória. Sendo guiado por aqueles “Tulios”, com um MP3 conectado aos ouvidos tocando uma melodia tão suave e lúgubre ao mesmo tempo, vislumbrei o Recife afetivo que se guardava na minha mente. De ruas perambuladas, de beijos aqui e ali trocados, como relicários da memória mesmo. Deu um nó na garganta, uma sensação de angústia e nostalgia no ventre, de tal forma que os olhos marejaram. Ao mesmo tempo, participando das descobertas do próprio Tulio Carella anotadas no diário, um novo Recife se construía ao redor, uma cidade construída pela perspectiva do próprio argentino.

E foram suas experiências em orgias, uma “geografia corporal”, de sexos e sarros – e suas consequências – que se traduziu no medo. A festa, no meio do Parque 13 de maio, bastante carnavalesca, foi substituída pela opressão de casacos militares. Vestidos de animais, em referência aos próprios escritos poéticos de Carella (vale prestar uma atenção singular ao king kong), os que antes eram festeiros agora nos conduziam entre gritos, cercados por uma corda, a um lugar desconhecido. “É viado!”, gritou um homem a certa altura do trajeto, talvez ao ver os vestidos coloridos daqueles que nos conduziam.

Ver-se preso pelas cordas e pelos gritos, a cena que se constrói após é o ápice do sufoco. Seus corpos, desprovidos de quaisquer roupas, soterrados pela ditadura militar, refletiam não somente a biografia de Carella enquanto torturado pelos anos de chumbo, mas refletiam igualmente a barbárie. Confesso, senti-me oprimido tal qual o que via à frente. Três corpos em orgias de ideias e significados. 

Leia crítica sobre a Trilogia Abnegação, apresentada no Trema! Festival, no Recife
 

Cena de "Abnegação 2" com os atores Vinícius Meloni, André Capuano e Vitor Vieira. Foto: Danilo Galvão/DivulgaçãoCena de "Abnegação 2" com os atores Vinícius Meloni, André Capuano e Vitor Vieira. Foto: Danilo Galvão/Divulgação

 

Cena 1 – Em 1980, é criado no Brasil o Partido dos Trabalhadores, o PT.
Cena 2 – Em 1982, o partido elege seu primeiro prefeito, na cidade de Diadema (SP): o ferramenteiro Gilson Menezes.
Cena 3 – Inicia-se o processo de redemocratização do país, após 20 anos de ditadura militar. Tancredo morre antes de se tornar presidente, Sarney assume o posto. 1985.
Cena 4 – 1989. O sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva, fundador do PT, disputa a primeira eleição presidencial do Brasil desde 1960, perdendo para Collor, do então PRN-Alagoas.
Cena 5 – Impeachment de Collor, 1992.
Cena 6 – Em 1997, Celso Daniel é eleito prefeito da cidade de Santo André, no ABC paulista.
Cena 7 – Em 2001, Toninho do PT, prefeito de Campinas (SP), é assassinado a tiros. 
Cena 8 – “Em 20 de janeiro de 2002, o corpo do então prefeito de Santo André, Celso Daniel, foi encontrado morto com onze tiros. As razões do assassinato nunca foram completamente esclarecidas...” (Alexandre Dal Farra, Abnegação 2)
Cena 9 – Lula é eleito presidente do Brasil, assumindo em 1º de janeiro de 2003. Celso Daniel, que seria seu chefe de campanha, não pôde testemunhar o momento. Aos poucos, membros históricos do PT se apartam do partido.
Cena 10 – Em 2011, Dilma Rousseff (PT) sucede o mandato de Lula, tornando-se a primeira presidenta do Brasil.
Cena 11 – Em 2014, estreia no Centro Cultural São Paulo a peça Abnegação 1, pelo grupo Tablado de Arruar (SP), com texto de Alexandre Dal Farra, diretor da encenação ao lado de Clayton Mariano.
Cena 12 – Ano seguinte: o grupo apresenta, em São Paulo, a segunda obra da trilogia, Abnegação 2 – O começo do fim.
Cena 13 – Em 2016, Dilma é destituída de seu segundo mandato, através de um processo de impeachment. Golpe branco ou institucional. No Sesc Ipiranga, o Arruar fecha sua trilogia com Abnegação 3 – Restos.

 

Esta semana, nos dias 8, 9 e 10 de maio, o público do Recife teve a oportunidade de encarar, de uma vez, as três peças de Alexandre Dal Farra, um jovem autor cuja cara de bom moço não revela, de imediato, o quão brutais podem ser suas palavras, ainda mais ditas em cena. Se levarmos em conta a potência do teatro, além do contexto político atual no Brasil, diríamos que chega a doer em quem assiste, ou melhor, em quem presencia o desenrolar de suas peças. Aqui, ele não está interessado em agradar ninguém, a não ser mostrar as feridas em carne viva que macularam a história da esquerda neste país. Não há dúvidas de que estamos diante de um artista corajoso, que ascende sua força com a encenação do grupo Tablado de Arruar.

Na denotação do dicionário, abnegar significa renunciar ou sacrificar-se em benefício de outrem ou em nome de uma ideia, uma causa. E então Dal Farra nos pergunta com a trilogia Abnegação: até onde um ser humano vai, em sua práxis política, para realizar objetivos que não estavam explícitos em um programa de governo? Dinheiro, álcool, cocaína, prostituição, esquemas de corrupção e outros vícios do poder são testemunhados pelo público, que, aliás, não é mero espectador, mas cúmplice de cenas repulsivas.

Talvez não estivéssemos preparados. “A esquerda pensa que o horror é só da direita, e não é. A gente queria abrir espaço para as coisas que estão aí e não queremos lidar. As pessoas compartilham coisas do (site) 247 que, às vezes, são completamente falsas, mas 'foda-se se é mentira, a gente tem que se reafirmar'. A esquerda é feita de ilhas de consenso. Então, o nosso lance foi provocar”, disse Alexandre Dal Farra, durante o debate da última quarta (10/5) do Trema! Festival (Diálogos Tremáticos 3 - Esquerda brasileira: distopias e realidades), cuja programação incluiu a trilogia.

Final da apresentação de "Abnegação 1" no Teatro Hermilo, no Trema!. Foto: Lucas Emanuel/DivulgaçãoFinal da apresentação de "Abnegação 1" no Teatro Hermilo, no Trema!. Foto: Lucas Emanuel/Divulgação

Talvez não quiséssemos encarar; não agora, em um contexto pós-golpe. As peças, pelo menos as duas primeiras, são inevitavelmente uma porrada na esquerda e em sua representação principal, o PT, mas foram escritas e estrearam antes do impeachment de Dilma. O cenário mudou, sem dúvida, o que fez o diretor Clayton Mariano falar em “chutar cachorro morto”, se considerarmos sua encenação no Brasil atual. Mas, na verdade, para Clayton – presente no elenco do primeiro espetáculo e ex-filiado do PT – o que acontece é que o partido nunca se deu verdadeiramente a chance de se fazer uma autocrítica, ou mesmo aceitar críticas – ainda que vindas da esquerda. Sendo assim, parece que nunca houve o momento ideal para expor suas contradições, embora saibamos que este seja um momento um tanto arriscado para tamanha ousadia.

Antes que o leitor ou mesmo alguém que esteve no Teatro Hermilo nestes dias de saga pense que esta é uma trilogia “de direita”, “antipetista” ou mesmo “uma sátira de mau gosto”, como alguém da plateia de Abnegação 2 falou em voz alta, é preciso dizer que estamos diante de uma obra de arte e não de um pensamento que só cabe de um lado ou de outro, como em posts de rede social. O trabalho não está interessado em alimentar Fla x Flu político, pois a ambiguidade é aqui a matéria-prima de criação e não o discurso direto – ou como alguns poderiam dizer, “panfletário”. A tentativa foi “transformar fato em forma e não em assunto”, citando a explicação do autor, ao se referir, por exemplo, às suas pesquisas em relação ao caso da morte de Celso Daniel, levada a cabo em Abnegação 2. A maneira como se deu essa transformação na linguagem teatral é que parece ser a questão.

Se há um consenso entre os criadores, é que a trilogia Abnegação se mostra uma obra “da esquerda para a esquerda”. E sendo mais à(s) esquerda(s) a inclinação política de grande parte do público que frequenta esse tipo de teatro (contemporâneo, autoral, sem concessões), já dá para imaginar o quão tem sido difícil para essa plateia ter que se ver, de alguma maneira, no espelho. O exercício é interessante para os que estão dispostos a sair da zona de conforto. E Dal Farra sabe ser cirúrgico: “Antes, era até mais difícil falar sobre essas questões, pois havia esperança. O risco de hoje é a gente santificar uma memória. Comparo este momento (da encenação das peças), então, a uma autópsia: é preciso olhar para o cadáver, tocar nas feridas e perguntar: por que ele morreu?”. Dissequemos então o cadáver, levando em conta o conselho de Abnegação: “Não sinta culpa, fique triste”.

ABNEGAÇÃO 1

Zé (Vitor Capuano) e Paulo (Clayton Mariano) em "Abnegação 1". Foto: Lucas Emanuel/DivulgaçãoZé (Vitor Capuano) e Paulo (Clayton Mariano) em "Abnegação 1". Foto: Lucas Emanuel/Divulgação

Ao adentrarmos no Teatro Hermilo, nos deparamos com um ambiente escuro. Uma luminária direciona um feixe de luz a uma mesa, às bebidas alcóolicas e ao quarteto de homens que se movimenta. Desde o início, pelas expressões dos personagens, um deles, de nome Celso, tenta gradualmente apresentar documentos e convencer os demais personagens de que estão cavando seu próprio buraco – na verdade, o dele próprio.

As coisas não são óbvias, mas o recado é direto. Além dos elementos de composição cênica referidos, alguns papéis repousam no canto da mesa, sugerindo qual é o lugar dos processos legais ante os interesses. A memória oficial como incômodo. Na medida em que a narrativa se constrói, os personagens se desmascaram. Um deles se chama Zé, aspirante a governador que não tira o charuto da boca e balbucia palavras “sem sentido” enquanto bebe no gargalo de um Johnny Walker (o próprio, vale salientar).

O espetáculo Abnegação 1 é uma espécie de preparação para o espectador, uma preparação para o que está por vir: o descontrole de um jogo de poder comandado por homens, aspecto mais evidente em Abnegação 2. Se há um território marcado pela misoginia, este é o da política, e Dal Farra faz questão de mostrar isso, embora sob uma perspectiva bem masculina. A coragem dele está, inclusive, no modo ríspido com o qual apresenta os diálogos machistas. Estamos diante de um horror caricato, que não escolhe direita ou esquerda, mas neste caso pertence à segunda. Nas primeiras falas violentas direcionadas à única personagem mulher em cena, Zé (André Capuano), Celso (Vitor Vieira), Jonas (Vinícius Meloni) e Paulo (Clayton Mariano) demonstram que o papel dela ali é servi-los. Nem que para isso a “hora extra” valha “R$ 400”. Flávia (Alexandra Tavares), a mulher, só é necessária àquele ambiente quando está de acordo. Ela se submete ao jogo, mas atua também como uma voz dissonante.

Flávia (Alexandra Tavares) e o jogo de "Abnegação 1". Foto: Lucas Emanuel/DivulgaçãoFlávia (Alexandra Tavares) e o jogo de "Abnegação 1". Foto: Lucas Emanuel/Divulgação

ABNEGAÇÃO 2
“Em 20 de janeiro de 2002, o corpo do então prefeito de Santo André, Celso Daniel, foi encontrado morto com onze tiros. As razões do assassinato nunca foram completamente esclarecidas. Essa peça não tem qualquer intenção documental. É uma criação inteiramente ficcional, livremente inspirada nos fatos ligados a esse acontecimento.” O acontecimento a que se refere o autor no texto de abertura de Abnegação 2 – O começo do fim é o fio condutor do mais controverso e incômodo dos três espetáculos. Estamos diante de um estágio mais avançado de abnegação, em que as figuras envolvidas estão dispostas a tudo para abnegar. E abnegar aqui não significa se sacrificar em nome de um ideal, mas em prol de um jogo cujo objetivo é mais a manutenção de um poder e uma imagem, mesmo que a morte esteja no caminho.

É corajosa também a disposição dos criadores em desenterrar, cerca de 10 anos depois (em 2013), um caso justificado oficialmente como crime comum pela polícia, mas ainda hoje investigado pelo Ministério Público pelas evidências de seu teor político. Mais do que isso: ficcionalizar um fato que virou tabu para o PT e ainda hoje segue assombrando por sua falta de desfecho – desde então, mais oito pessoas relacionadas ao assassinato do ex-prefeito morreram por razões tão “misteriosas” quanto (questão não tratada diretamente pela peça).

André Capuano e Vitor Vieira, que faz Jorge (Celso Daniel) em "Abnegação 2". Foto: Danilo Galvão/DivulgaçãoAndré Capuano e Vitor Vieira, que faz Jorge (Celso Daniel) em "Abnegação 2". Foto: Danilo Galvão/Divulgação

Embora se diga não documental, o espetáculo coloca em cena as figuras do caso, muitas vezes com os seus nomes reais, a exemplo de Sérgio, o Sérgio Sombra, ex-segurança de Celso Daniel, suspeito de ser o mandante do crime. Mas na segunda montagem do Arruar Celso chama-se “Jorge” e o seu irmão Bruno Daniel – peça-chave nas investigações – atende por Antônio.

Impossível deixar tudo isso para a ficção, mas é por ela que entramos na realidade. A cada peça, temos novos recursos cênicos, que falam por si. O modo particular que Dal Farra e Clayton Mariano transformam isso em teatro tira da banalidade o que jamais deveria ser banal. E é justamente escancarando isso que nos levam ao constrangimento. “Mas nada vai sair dessa sala”, diz Jorge, olhando para a plateia. “Mas isso é para construir um mundo melhor”, um texto na boca de diferentes personagens, em momentos distintos. Enquanto isso, somos torturados com cenas histriônicas (como se o texto não bastasse), que poderiam ser dispensáveis, mas funcionam para a ideia de descontrole. Como “alívio”, somos postos diante de uma mal-estar intercalado por cenas curtas, camadas de dramaturgia em que, diante de uma luz baixa, os atores (incluindo mais uma atriz) nos fitam para narrar histórias de estupro, pedofilia e violência extrema. Em uma delas, um bandido conta com naturalidade como arrancou os dois olhos de um menino a faca. São requintes de crueldade que encontram exemplos análogos no “real”.

ABNEGAÇÃO 3

Os atores Vitor Vieira, Janaina Leite, Ligia Oliveira, Antonio Salvador e André Capuano em "Abnegação 3". Foto: Lucas Emanuel/DivulgaçãoOs atores Vitor Vieira, Janaina Leite, Ligia Oliveira, Antonio Salvador e André Capuano em "Abnegação 3". Foto: Lucas Emanuel/Divulgação

A última parte da trilogia é menos estridente, mas igualmente trágica. Uma ressaca do que ficou, na voz de pessoas a quem não resta outra coisa senão sentar e contar situações de uma vida comum que ecoam os valores de uma dada classe média, e suas contradições, no contexto pós-ascensão do Partido dos Trabalhadores ao poder.  Aqui a referência ao PT é mais diluída, mas há uma lona vermelha como pano de fundo no cenário. O que restou é sangue ou ideologia? O que fazer com ela?

Há outras perguntas e não há uma só resposta. Talvez possamos ensaiar algum caminho diante das duas falas finais de Abnegação 2. Na primeira delas, o personagem que faz o irmão de Celso Daniel nos diz: “O que me entristece é a morte de um sonho. De uma utopia, que era muito maior do que tudo isso. Você, Paulo, é parte disso, desse assassinato: vocês mataram a utopia, que naquela época o meu irmão, inclusive, dizia isso, que a utopia estava virando realidade. O que me entristece nisso é que não é só você que deixou de sonhar, não são só vocês. É praticamente a população inteira. Um país inteiro totalmente incapaz de imaginar algo de diferente, um modo diferente, um país niilista, cético, sem imaginação. (...) nós precisamos reacordar a utopia, precisamos reinserir o sonho na nossa imaginação política. Porque senão a realidade vai ficar impossível de suportar”.

Na segunda, dita por Paulo, o codinome para um dos articuladores políticos da Prefeitura de Santo André à época, escutamos assim: “O problema, Antônio, não é que tal ‘sonho’ esteja em risco, que ele esteja acabando, que o país não saiba mais sonhar... O problema é justamente que ele ainda não acabou completamente. Esse sonho aí, essa utopia que a gente tinha, e que no seu caso não suportou nem seis meses de contato com o mundo real, ela precisa acabar de vez, desaparecer de forma irrevogável, todas as utopias e sonhos, tudo isso precisa sumir, desaparecer da nossa cabeça, porque só quando não houver mais nenhum resquício disso, só quando estivermos totalmente despidos das nossas esperanças, e olharmos para a desgraça do mundo de frente, por muito tempo, sem nenhuma perspectiva redentora além da realidade nua e crua, só então é que poderemos talvez encontrar uma outra capacidade de imaginar, que não se funde na esperança de um sucesso mágico, de uma vitória milagrosa, feita de boas ações. (...) Uma utopia que nascerá do contato com a finitude, com o erro, com o que existe de ruim: com os fatos concretos.

E os fatos concretos quase sempre carregam um pouco de dor”.

De uma forma ou de outra, a solução não está pronta e é importante sermos firmes diante da abnegação. Isso não significa ser isento.

capa 197
CONTINENTE #197  |  Maio 2017

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