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Aquarela de Simone Mendes. Imagem: DivulgaçãoAquarela de Simone Mendes. Imagem: Divulgação

[conteúdo na íntegra - edição 199 da Revista Continente - julho 2017]


Sejam na sala, no quarto, na porta da geladeira ou pintadas nas paredes, as cores de Simone Mendes são vistas por todos os lados de sua casa: estão em ímãs, em quadros, ou em papéis bem organizados em sua mesa de trabalho. Seu apartamento parece uma extensão de sua aura afetiva e criativa, como numa exposição de sua criatividade, que se nutre do sentimento, da memória e do mais íntimo de si mesma. É uma artista que se relaciona com a vida de maneira intensa, e expressa suas experiências em cores aquareladas, ou em cadernos que usa como diários.

A jornada artística de Simone começou ainda em Ouricuri, cidade onde nasceu e formou boa parte do que é hoje, lá no sertão pernambucano. Naquela época, rabiscava alguns desenhos, buscando ou imitando os traços de Mafalda. Entretanto, foi somente quando cursou (e depois largou) Arquitetura na Universidade Federal de Pernambuco, que seu desenho começou a ser mais elaborado. Isso aos 19 anos, em 2003: eram traços simples, ainda imaturos, somente com rostos e faces felizes povoando quase uma página inteira de um caderno. No entanto, “a arte é um caminho solitário”, como ela mesma define, e sentiu uma necessidade de partilhar, de trocar. O contato com os ilustradores Gustavo Aimar, Mauricio Planel e Romolo Eduardo levou ao que Simone cataloga como “uma volta para o analógico”, já que por muito tempo criou seus desenhos utilizando o recurso digital. Era tempo de utilizar a técnica da aquarela.

É importante contar um pouco sobre Simone para compreender que seu modo de desenhar está ligado à história pessoal. O fato de ter produzido até meados de 2012 e 2013 somente obras de temática infantil relaciona-se com a perda da sua mãe ainda muito cedo, com 14 anos de idade, em 1997. “Não somos preparados para a morte”, diz a artista, em entrevista à Continente. Não somente a perda da mãe interferiu no seu processo criativo, mas também a simbologia do Sertão: é fácil encontrar cactos em suas aquarelas, principalmente na imagem que é sua assinatura: um rostinho envolto com um chapéu em formato de cacto.

 



Eu já passei por uma crise por ser tachada ou vista apenas como uma artista que faz ilustrações infantis”, conta Simone, fazendo aspas com as mãos. Foi daí que veio a ideia de se aprofundar em conteúdos mais eróticos, explorar a sexualidade feminina, porém, em contemplação direta com seu modo de desenhar e pintar. Em 2013, sua primeira exposição individual, na Casa do Cachorro Preto, em Olinda, mostrou uma de suas primeiras aquarelas eróticas. O erotismo de Simone Mendes é sutil, delicado, quase escondido. São cogumelos em formatos de pênis, ou baleias num ménage à trois um tanto imperceptível para quem bate o olho rapidamente.

Uma de suas outras crises foi notar que nenhuma de suas criações possuía uma veia crítica à situação política atual. Talvez, de fato, um de seus trabalhos mais explicitamente político tenha sido a arte que fez para o coletivo Deixa Ela em Paz, com uma vaca profana na frente. Porém, ela mesma reconhece: “Mas a maneira que eu vivo já é (política). As pessoas estão muito distantes, está tudo muito seco. A arte aproxima, traz suavidade. Nesse sentido, eu acho que estou fazendo minha parte”. Sua própria maneira de viver, dando aulas no Laboratório de Aquarela, ali mesmo na sua casa, mostra que ser artista vivendo exclusivamente de sua arte é também ser resistente.

Suas obras atuais transitam entre o erotismo e a solidão, numa “necessidade de aprender a ficar só, não é à toa que meu trabalho está diferente. Estou num momento em que eu acharia estranho se meu trabalho não refletisse isso”. 

capa 199
CONTINENTE #199  |  Julho 2017

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