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Obra de Sérvulo Esmeraldo. Aço pintado, 31x31x20 cm, década 1980. Imagem: ReproduçãoObra de Sérvulo Esmeraldo. Aço pintado, 31x31x20 cm, década 1980. Imagem: Reprodução

 

Sérvulo Cordeiro Esmeraldo (Crato, CE, 1929-Fortaleza, 2017). Foi ele tirando as gravuras dele das paredes do Clubinho, Clube dos Artistas e Amigos da Arte, um subsolo na Rua Rego Freitas, em São Paulo, 1956, e eu pregando meus desenhos diretamente na parede, que ninguém tinha dinheiro para moldura. No ano seguinte eu fui para a Itália, Roma, com bolsa da Fundação Rotelini, e Sérvulo para a França, Paris, estudar gravura com Friedlaender. Antes, nossos trajetos foram também parecidos: Sérvulo fazendo parte da Sociedade Cearense de Artes Plásticas, de Fortaleza, e eu do Atelier Coletivo da S.A.M.R., Sociedade de Arte Moderna do Recife. Quando eu estava para voltar, depois desse ano na Itália, Sérvulo, que resolvera demorar-se na França, me chamou para lá. Naquela época, viajar era coisa de rico. Ou marujo.

No Brasil, me diziam na cara que eu não podia falar de pintura porque não conhecia a Capela Sistina nem o Louvre. A Sistina agora eu conhecia. Faltava o Louvre. Aí eu fui. Generoso, Sérvulo. Peguei o trem em Milão. No outro dia de manhã desembarquei se não me engano na Gare du Nort. No topo da escada que dá para a rua estava Sérvulo. Diziam que se você deixar um argentino nu no deserto, no dia seguinte você vai encontrá-lo vestido e com dinheiro no bolso. Cearense tem parte com argentino. Sérvulo dominava Paris. Tinha não sei quantas casas em que eu podia me hospedar sem pagar nada, tomando conta, casas de brasileiros que saíam de férias e precisavam de alguém para ficar na casa. Me arranjou um talão para comer de graça no restaurante dos estudantes no Quartier Latin. Tinha uma rede de informantes para saber onde ficar de graça, como foi o caso de eu me hospedar na casa para estudantes estrangeiros pobres de Madame Morrin, ou Morin, prinuncia-se “morrán” como o cônsul, em Louvain, na Bélgica, durante a Expo 1958 de Bruxelas.

Se não fosse Sérvulo, essa minha viagem de Ali Babá, viagem que os baixa-renda só podem fazer uma vez durante a vida, teria sido bem mais resumida, sem a expressão que tomou a partir desse convite de Sérvulo para ir a Paris e dessa ida a Louvain, que já contei tantas vezes: Madame Morrin na manhã da volta, eu já dentro do carro do marido dela que me deixava todos os dias em Bruxelas, me dando um envelope bojudo de dólares dizendo “para você conhecer um pouco mais da Bélgica”, e deu para conhecer museus e cidades da Holanda, Alemanha, Áustria, Suíça e Espanha além da Bélgica. Minha vida teria tomado outro rumo, eu seria outro, se não tivesse encontrado Sérvulo.

Em 1988 escrevi o texto abaixo Teseu e o Minotauro para a exposição do artista na Itaugaleria, Brasília, reproduzido no livro Sérvulo Esmeraldo, de Aracy Amaral, São Paulo, Pinacoteca do Estado, 2011:

Amigo Sérvulo. Não sei em termos de tipografia o que significa o espaço que me reservas no catálogo, se aí caberá, nessa área, o tamanho do respeito que te tenho em primeiro lugar como artista, sem falar da amizade, do parentesco pelo tipo de vida, sonhos e a coragem de vivê-los, essa palavra arte, de que modo guiou-nos em nossa juventude desde a confluência paulista — parece ontem, não é mesmo? — e já faz 25 anos! —, o enigma da Europa em que te empregarias muito mais a fundo e que não abandonarias sem uma resposta, e como se inscreveu ela, a Europa, na nossa nordestinidade. Cedo compreendeste que não há experiência de arte sem experiência de vida. E assim casaste-te com uma mulher francesa e lá tiveste com ela as tuas filhas ao mesmo tempo em que trabalhavas, com rigor, tua obra, conduzindo-a sem desvios à total nitidez.

Não tenho dúvidas de que, como quer Jorge Luís Borges, sejam artistas como tu os verdadeiros europeus de hoje, no sentido de que são os únicos de cultura europeia com suficientes recuo e isenção para extrair da Europa o sumo que os próprios europeus, por demais comprometidos com a sua europeidade, não seriam capazes de o fazer. E justamente pela existência desse ‘espaço de manobra’ de que não dispõem os europeus — e nem brasileiros ou argentinos ou outros sul-americanos oriundos das chamadas ‘áreas abertas’ (vide Marta Traba), expostas ao bombardeio direto de todas as novidades, o que não é o caso do Nordeste —, por esse ‘espaço’, como dizia, se caracteriza (e não pela representação de coisas típicas) o verdadeiro artista nordestino.

Chamo atenção para o lado ético da obra de Sérvulo e para a lição que ela nos dá a todos nós brasileiros, obra absolutamente isenta de qualquer apelação nordestinesca, porque o genuíno homem nordestino é aquele, citado uma vez por Aldemir, que procura se assenhorar da tecnologia do branco para servir à sua pátria, sem desanimar diante da falta de infraestrutura, inventando seus próprios recursos, criando por assim dizer a partir do nada, herdeiro dos heróis anônimos que consertam máquinas de costura nas calçadas e reinventam motores e chassis de caminhão.

É essa fibra e qualidade nordestina e popular que anima a obra do erudito em Sérvulo Esmeraldo, que em sua volta, nessa verdadeira explosão atual de sua arte, nos mostra o quanto foi útil a sua demora e o quanto tinha e tem para dizer.

Pensando na saga de Sérvulo me lembro da de Teseu e o Minotauro ou, em termos de Nordeste, da de Juvenal e o Dragão. Destemidamente foi lá e voltou intacto das garras do monstro devorador (a Europa) depois de um corpo a corpo de um quarto de século em que se bateu solitariamente nos labirintos da terra estranha, trazendo finalmente de volta a moça — a sua arte —, maravilhosamente experiente e desabrochada, linda como nunca, sem um arranhão.

Ai, Dôdôra, eu também estou assim.

capa 199
CONTINENTE #199  |  Julho 2017

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