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"BR Trans". Bernardo Cabral/Divulgação"BR Trans". Bernardo Cabral/Divulgação

 

Encenações como Gisberta, Joelma e BR-Trans, em sua maioria, monólogos, trazem à cena um repertório calcado na realidade da transfobia, que macula as relações no Brasil

Ao olharmos para a recente produção cênica brasileira, podemos observar, ainda que sob diferentes campos de abordagem, determinadas recorrências temáticas, motivadas principalmente pelas angústias que regem a sociedade no mundo atual. A crueldade e repercussão da morte de Dandara dos Santos (travesti torturada e espancada até a morte em 17 de fevereiro deste ano, em Fortaleza), gravada em vídeo que circula nas redes sociais, joga luz sobre o combate à transfobia, tema que vem encontrando nos palcos lugar de acolhimento e discussão.

Sendo o Brasil o país que mais assassina transexuais no mundo, não são poucos os dados de violência, aversão sem controle, repugnância, ódio, preconceito contra pessoas e grupos com essas identidades de gênero. O olhar sobre tais questões vem sendo posto em cena, em sua maioria, através de monólogos, o que de alguma maneira configura também a angústia pessoal de determinados artistas.

A mais recente estreia sobre a questão é Gisberta, solo do ator Luís Lobianco, dirigido por Renato Carreira, que cumpriu temporada nos últimos dois meses no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB-Rio). O espetáculo reconta momentos dessa brasileira, vítima de transfobia, que teve morte trágica após ser torturada por um grupo de 14 menores de idade, em 2006.

O ator, com mais de 20 anos de carreira, conhecido do público brasileiro principalmente pelo viés cômico, participando do programa Vai que cola, do Multishow, e integrando o canal Porta dos Fundos, mergulha nesse espetáculo através da tragicidade da história em questão. 

Nascido Gisberto, em São Paulo, caçula de uma família com oito filhos, logo após a morte do pai, confessou à família que gostaria de ser mulher, tornando-se Gisberta. Aos 18 anos, com medo da crescente violência contra transexuais na capital paulista, optou por se mudar para a França, onde passou curto período, e logo depois passou a residir no Porto, norte de Portugal, onde viria a falecer.

Ainda que os crimes cometidos tenham sido em países diferentes, Gisberta e Dandara fazem parte de uma mesma estatística. Indo mais além, configuram também o descaso do poder público em relação ao tema. Em Portugal, ao proceder com o julgamento dos acusados sobre o crime de Gisberta, o juiz disse, textualmente, que o assassinato foi “uma brincadeira de mau gosto de crianças que fugiu ao controle”. 

Transformada em música por Pedro Abrunhosa, sob voz de Maria Bethânia, através da Balada de Gisberta, o assassinato dessa brasileira acabou sendo responsável por um novo paradigma para a pauta trans em Portugal. Nos anos seguintes à sua morte, após pressão de militantes e de parte da população, o legislativo português criou uma série de leis voltadas para a igualdade de gêneros, com o objetivo de garantir a pessoas trans maior acesso à justiça, à educação e ao emprego. Além disso, foi aprovada a concessão de asilo a transexuais estrangeiros em risco de perseguição. 

Enquanto isso, os números não param de crescer no Brasil, e talvez a presença dessas obras sobre os palcos tenha ainda maior importância por se configurar como alternativa reflexiva para parte da população. É louvável a atitude de Lobianco, artista que vem tendo grande repercussão em nosso país, por escolher esse tema tão penoso para vestir-se em solo. Diferentemente de grande parte de sua geração, o ator se nega à busca por uma obra “atrativa” comercialmente, como os stand-ups (em grande parte, amparados dramaturgicamente por piadas excludentes e preconceituosas).

Acompanhado de três músicos, que executam a trilha ao vivo, o ator refaz a trajetória de Gis a partir de depoimentos recolhidos de seus familiares, do processo judicial e de visitas aos locais da tragédia. Para ele, o Brasil não aprendeu nada com esse assassinato, uma vez que é um dos países que mais cometem crimes de transfobia e homofobia, num processo que se soma a uma onda conservadora de intolerância com as diferenças. 

“Se não conseguimos mudar as leis que não nos protegem, que a justiça seja feita no teatro, com música e luzes de cabaré. Que venham as identidades de humor, gênero, drama, música, tragédia e redenção. O caso de Gisberta não é conhecido por aqui e decidi que Gisberta vai reviver a partir da arte e será amada pelo público”, diz Luís Lobianco.

Leia matéria na íntegra na versão impressa da Continente de maio 2017 (n. 197) 

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CONTINENTE #197  |  Maio 2017

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