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É muito difícil um livro resistir a tanta expectativa. Me lembro de um de Aníbal Machado, autor que tinha feito grande sucesso com o conto A morte da porta-estandarte e, mesmo este, naquela época em que as coisas aconteciam no sul e depois de um ano ou mais é que se sabia aqui, quando fui ler, não sei se porque já tinham me contado tantas vezes, achei totalmente previsível, correndo o boato de que o verdadeiro motivo de tanta receptividade teria sido a candidatura de seu irmão Cristiano Machado à presidência da república, vejam só. Tanto que esse livro que ia sair nem sei se chegou a ser escrito ou publicado apesar de já ter virado um grande acontecimento.

O Diário de Francisco Brennand, pelo menos pela parte que me toca, era torturantemente esperado, situação que se agravava quando saía no jornal algum trecho, comprovando a sua existência, embora me lembrasse sempre da afirmação do artista de somente acreditar no que resistisse a um longo período de ostracismo. Será que chegarei, será que chegaremos, ao fim desse “longo período”? Até que o dia chegou. Não podendo comparecer ao lançamento, procurei saber e deixei na galeria Espaço Brennand, com Andréia, o valor do livro, cem reais, pensando que era só um. Qual não foi a minha surpresa quando ela, dias depois, me devolveu o dinheiro e entregou uma caixa muito bem bolada, com o retrato do Brennand moço de um lado e o Brennand velho do outro, um com a barba menor preta e outro com a barba maior branca, como se dissesse que era o mesmo Brennand, e quatro primorosos volumes de capa dura como eu nunca vi igual. Desses presentes que quando você recebe diz de si para si “eu agora estou feliz”. Já o nome da editora, que parece ter sido criada ad hoc, antecipa o conteúdo do Diário: “Inquietude”.

Preciso dizer que, apesar da imensa expectativa, o que Brennand escreveu ao longo da vida supera tudo o que poderíamos esperar ou imaginar, como se do princípio até o fim nos quisesse surpreender de várias formas, não somente por escapar do relato convencional, se bem que essa primeira parte, viagem à Europa, me interessou de maneira especial, algo que eu sempre quis saber melhor, mas daí envereda por livros e filmes e nem mesmo o nascimento da primeira filha ocupa maiores espaços, como se a vida material fosse ficando longe. A certa altura ele diz, como se lembrando que o mundo existe, “hoje fiz uma coisa útil: dei um pulo, bati palmas com as mãos acima da cabeça e matei uma muriçoca”, não me lembro exatamente da redação nem em qual dos volumes, ou “eu estava escrevendo, ela chegou, tirou a roupa e ficou nua em cima da mesa: penetrei-a ali mesmo”. Dá impressão de que fala mais de filmes e livros do que de arte, embora se sinta o tempo todo que pintura e cerâmica são o lastro em que assenta a sua vida e justifica e faz suportar todos os “horrores”. “O horror! O horror!” é expressão que surge durante todo o Diário, como outras tiradas, colhidas nos seus autores prediletos.

O seu nome de origem inglesa, Brennand, é glosado de várias maneiras, às vezes num só lugar, como na longa carta de uma de suas encarnações, “Prezado Senhor Brenan” (sic), Viriata, de raça negra, nascida num subúrbio do Recife, que se despede em alemão: “Danke Schön”.

Eu sempre pensei nesses estrangeiros e seus descendentes nascidos no Brasil, se não teriam feito melhor negócio ficando lá na sua terra, não por algum tipo de chauvinismo e sim pelo contrário, se não deveríamos tratá-los melhor, para compensá-los das perdas e sacrifícios causados pela mudança de pátria. Este sentimento possivelmente me tenha sido incutido muito cedo, quando menino de Ipojuca, onde não havia estrangeiros, senão os frades alemães, a quem devíamos oferecer sempre o melhor para correspondermos à generosidade de habitarem entre nós. Agora imagine-se essas duas entidades constituindo a mesma pessoa que conflitos de identidades não poderiam causar ao longo da vida, da formação, ora sentindo-se europeu vivendo entre os bárbaros, ora sendo tido, por equívoco, como bárbaro, e isso sem falar de raça, e falando, porque o que vale é a criação. Eu acho que pesa nisso essa busca que chega à insanidade de tantos indivíduos a se digladiarem dentro de um mesmo Brennand, um dos quais falecido, Mestre Brennand.

Outro contraste é a sua adoração por Gauguin por ter se desvencilhado da cultura ocidental, isto é, renascentista, greco-romana, “Grécia, nunca mais”, e ao mesmo tempo a importância da mitologia e do teatro gregos na temática de sua cerâmica.

Em quase duas mil páginas, e isso porque tocou fogo nas que tratavam de uma época, o assunto Francisco Brennand continua em aberto, tanto quanto sua arte originalíssima e inesgotável. Depois de ter ido tantas vezes à Oficina na Várzea vejo que precisava desse guia para poder saber o que estarei vendo, que não vi nada, que não sei nada, que não conheço nada. A primeira coisa que tenho a fazer é pegar de novo esse Diário, de lápis na mão, e ir observando cada pergunta que suscita, assinalando cada livro, filme, autor que preciso conhecer, olhar para cada quadro seu e procurar vê-lo. Como um ontem na exposição de Ranulpho. Como anteontem o ovo magnífico na frente do shopping Rio Mar, de que tirei uma foto para mandar para o filósofo Carlos Cirne Lima que no seu livro Dialética para principiantes tem um capítulo sobre o ovo como origem de tudo, assim como num dos volumes do Diário. Não disse isso por falta de cultura, logo falta de autoridade, mas que tive vontade de dizer, tive, como faz no prefácio Alexei Bueno: “Não temos a menor dúvida ao afirmar que O nome do livro [isto é, o Diário de Francisco Brennand] é a obra maior no gênero do diário já aparecida na literatura brasileira”.

capa 197
CONTINENTE #197  |  Maio 2017

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