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Desenhos resultam de curso livre ministrado por Laerte e o filho, RafaelDesenhos resultam de curso livre ministrado por Laerte e o filho, Rafael

Em 2011,
Laerte me contou que uma das autoras de quadrinhos que mais a instigava naquele momento chamava-se Alison Bechdel. Hoje, Bechel, que é mais conhecida por dar nome a um teste que identifica o quão machista um filme pode ser, era já naquele momento a mais bem-sucedida quadrinista norte-americana. Sua obra se projeta sempre a partir de um lugar autobiográfico, marcadamente construído a partir de experiências muito pessoais, algumas divertidas, mas outras bastante doloridas, do que é ser uma mulher lésbica e do que foi ser filha de um homem gay. Na ocasião, perguntei então a Laerte se ela teria disposição (a palavra, na verdade, foi “coragem”) de fazer o mesmo, descascar-se em sua própria história, tornar públicas questões íntimas que a moviam de alguma forma. E ela respondeu: “Não sei dizer. Mais do que coragem, não sei se teria capacidade de dar esse mergulho”.

Pouco mais de cinco anos depois dessa entrevista, cedida então para um portal de notícias, Laerte ainda não publicou nenhuma história em quadrinhos autobiográfica per se. No entanto, quando olhamos seu trabalho hoje e, particularmente, quando observamos a produção de anos atrás com mais atenção – uma atenção particularmente dirigida para o fato de que a artista passou a se identificar como uma mulher trans já com 57 anos –, é latente a percepção de que, de formas bastante sutis e sofisticadas, Laerte sempre vestiu seus personagens com sua própria pele, indagações e desejos mais profundos. Em várias dessas histórias, é óptica e háptica a presença de um rastro autobiográfico da autora, seja no que diz respeito a suas inclinações e percepções políticas, seja quanto a inquietações pessoais de identidade. O recém-lançado livro Laerte – Modelo vivo, publicado pela editora Barricada, é testemunho disso.



Com nove HQs – sendo apenas uma delas inédita –, essa edição organizada pela própria artista traz histórias que dão conta de palhaços mudos (um arco que chegou a ser adaptado para o teatro em 2008, pelo grupo La Mínima), a irrefreável pulsão autodestrutiva do ser humano, a sociedade que vigia e pune, o terror de ter seu corpo consumido pela máquina do sistema, o horizonte medieval do futuro, o amor pelos quadrinhos. Em todas elas, o questionamento sobre a normatização das coisas como elas são dadas. Mas, em três dessas histórias, é possível ver como, desde sempre, já havia um tema constante na obra de Laerte: o atrito entre o corpo e sua representação social.

Na mais antiga delas, publicada originalmente em 1988, um sujeito que começa a ver penas surgindo em sua pele. As penas que, em um primeiro momento, são indicativos de um privilégio, logo têm seu significado socialmente alterado, quando mudam de cor. Em outra história, de 1989, Laerte faz uma visita à mitologia grega, mais precisamente à parábola do Minotauro, para construir um roteiro estritamente visual de como o confronto entre Teseu e o monstro meio homem meio touro é, também, uma fábula sobre heróis que, ao se posicionarem como tais, podem se transformar em monstros que, abatidos por sua monstruosidade, se transformam em heróis.

Na única HQ inédita do livro, desenhada no começo dos anos 2000, apenas alguns anos antes de Laerte se identificar como uma mulher trans, o roteiro mais pessoal do livro: um homem e uma mulher, isolados e entediados numa ilha, gastam o tempo trocando de corpo. São apenas duas páginas de história, mas já há ali alguém exercitando a ideia de outra pele e outro gênero. Tal como nos quadrinhos sobre o Minotauro, Laerte brinca com a metamorfose dos corpos.

Leia matéria na íntegra na edição 195 da Revista Continente (mar 2017)

capa 195
CONTINENTE #195  |  Março 2017

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