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Foto: Michelle GueirosFoto: Michelle Gueiros

Educadora brasileira conta, em primeira pessoa, a experiência de ser voluntária na cidade de Beira, em Sofala, região central de Moçambique, onde as carências de toda ordem levaram-na a ser útil em qualquer circunstância


Tenho poucas
memórias da minha infância, mas não sei como, desde que comecei a me entender por gente, sabia que havia um mundo além do conforto da minha casa. Tenho 25 anos e decretei liberdade há quase 11 anos. Minha vida era confortável e boa e eu tinha tudo o que uma quase adolescente precisava, mas o mundo me esperava de braços abertos e corri para abraçá-lo. Nele, descobri um abraço que nem sempre foi acolhedor, mas que moldou a pessoa que me tornei ao longo desses anos. Desde 2006, não parei mais. Fiz casas no coração das pessoas e aceitei ser visita. Até consegui parar em alguns lugares, mas nunca tinha conseguido ficar mais de dois anos no mesmo lugar. Não tive problemas em transferir a faculdade, não me incomodava ir para um lugar desconhecido. Sem apego, eu fazia as malas e partia. Recomeçava e continuava me recusando a pintar paredes das minhas cores favoritas e a comprar um guarda-roupa. Malas se tornaram minhas melhores amigas e companheiras. Minha mãe, sempre desesperada, nunca parou de pedir e insistir para eu voltar para casa. Meu pai, o grande incentivador dos meus voos, nunca me pediu para voltar, mas eu conseguia ouvir um: “Vai, voa, cresce, e, se precisar voltar para casa, nós estamos aqui!” nos nossos abraços de despedida. Nunca esqueço uma ligação que, enquanto a minha mãe falava que estava na hora de eu fazer laços e criar raízes, a voz abafada do meu pai do outro lado dizia: “Compra umas fitas para fazer uns laços e umas mudas de árvores que resolve!”. Desliguei o telefone e chorei de saudade.

A decisão de passar um tempo em Moçambique não foi difícil. Já tinha me apaixonado pelo continente africano há quatro anos, quando, depois de concluir a faculdade, resolvi que estava pronta para uma nova aventura e fiz uma viagem para a realização de um trabalho voluntário junto a AIM (African Inland Mission). Voltei para o Brasil com a certeza de que voltaria a essa terra. São Paulo era o meu próximo destino e uma pós-graduação parecia uma boa desculpa para estar em um novo lugar. Concluí a pós em Direção de Arte e descobri que eu amo a arte, e todas as coisas bonitas que eu encontro nela, mas, mais que isso, descobri que amo pessoas, e todos os meus passos me levaram a ser professora, a profissão que me escolheu e que acolheu.

MZUNGU
Lembro que, quando pisei em terras africanas pela primeira vez, uma das primeiras palavras que ouvi foi mzungu. Essa é uma das palavras mais fáceis de se ouvir por aqui. Seja pelas crianças, enquanto correm e acenam para você gritando essa palavra repetidamente, seja pelos mais velhos, que você ouve cochicharem sobre quem acabou de chegar. Mzungu quer dizer homem branco ou mulher branca. Mas, na verdade, ser mzungu parece ter um significado muito além desse. Ser mzungu é ser sempre forasteiro. É quase como o espaço delimitado para aqueles que não pertencem àquele lugar, e que nunca vão pertencer, mesmo depois de muito tempo vivendo ali. Mas o sentimento de pertencimento que venho carregando aqui é tão inexplicável, que todas as vezes em que escuto murmúrios seguidos dessa palavra, eu prefiro imaginar que ela significa “amiga”, e sigo sorrindo.

A vida do lado de cá é uma enorme urgência feita de fatos e de pessoas que me transformam diariamente. Constantemente, tenho a necessidade de ouvi-las e compreendê-las, não apenas de registrar o que eu vejo. Todos as vivências e histórias que venho juntando na minha bagagem são parte não somente de uma compreensão física e cultural desse lugar, mas de não olhar apenas para mim. Hoje, vivo na cidade da Beira, capital da província de Sofala, na região central do país, onde a tragédia humana clama pela minha atenção diariamente, e todos os sentimentos pesam sobre o meu coração com mais intensidade. É um exercício constante tentar compreender coisas incompreensíveis e deixar a mente vagar junto com as experiências diárias. Deixo o mapa do imaginário me levar para mais longe das terras que julgo conhecidas e para mais perto de mim mesma.

Leia matéria na íntegra na edição 195 da Revista Continente (mar 2017)

capa 196
CONTINENTE #196  |  Abril 2017

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