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Imagem de "Lemonade", trabalho audiovisual de Beyoncé. Foto: DivulgaçãoImagem de "Lemonade", trabalho audiovisual de Beyoncé. Foto: Divulgação

[leia na íntegra entrevista publicada na edição de março de 2017 da Revista Continente]

Desde que assumiu,
formalmente, no último mês de janeiro, a presidência dos Estados Unidos, Donald Trump tem sido alvo de críticas de um conjunto cada vez maior de celebridades. De Meryl Streep, passando por Madonna, Ashton Kutcher, Emma Stone, entre outros, parece que, cada vez mais, artistas estão se posicionando politicamente, construindo discursos de resistência em lugares improváveis diante do olhar atento de fãs. A outrora alardeada frivolidade das celebridades passa a ser “ocupada” por falas poderosas em torno da mulher, das minorias, dos imigrantes. Parte desse movimento que hoje se observa mais comum tem na cantora Beyoncé um importante epicentro.

Quando o álbum Beyoncé foi lançado em 2013, trazendo na canção Flawless trechos do discurso feminista da escritora nigeriana e ativista Chimamanda Ngozi Adichie, a pesquisadora inglesa Kirsty Fairclough nem pensava que, três anos depois, lançaria um livro intitulado Beyoncé: celebrity, feminism and pop culture (Beyoncé: celebridade, feminismo e cultura pop, I.B Tauris, 2016). Pesquisadora e conferencista em Mídia e Performance na School of Arts and Media da University of Salford (no Reino Unido), Kirsty sempre lecionou assuntos ligados a Media Studies, Film Studies and Performance Studies. Eis que, diante do “entusiasmo de seus alunos” e interessada em analisar produtos da cultura popular midiática, começou a focar suas pesquisas em debates sobre celebridades. Tornou-se membro do corpo editorial do periódico internacional Celebrity Studies
(Routledge) e passou a dedicar especial atenção à figura de Beyoncé, analisando sua trajetória, contradições e afecções políticas, que resultaram em seu livro. Integrante do Communication, Cultural and Media Studies Research Centre, um dos maiores centros de pesquisa em mídia, cultura pop e entretenimento do Reino Unido, Kirsty Fairclough concedeu esta entrevista para debater tópicos fundamentais nos enlaces sobre política, celebridades e cultura pop.

Kirsty é autora do livro "Beyoncé: celebrity, feminism and pop culture"Kirsty é autora do livro "Beyoncé: celebrity, feminism and pop culture"


CONTINENTE Em sua trajetória acadêmica, é possível perceber uma mudança de foco: há cinco anos, seu interesse era, marcadamente, em séries televisivas como Twin Peaks e Mad Men. Este ano, com a publicação de seu livro Beyoncé: celebrity, feminism and pop culture, percebe-se um foco em torno da figura de Beyoncé e do feminismo. Como se deu essa “virada”?
KIRSTY FAIRCLOUGH Nossas pesquisas envolvem constantes mudanças de enquadramento e foco. Sempre fui interessada pelas análises da cultura popular midiática e tenho pensado sobre como o feminismo e suas representações nas mídias têm afetado os sujeitos. Venho notando que estudantes têm se engajado de maneira singular naquilo que podemos classificar sob a retranca de “celebridades”. Beyoncé parece estar na linha de frente desse engajamento. Nunca fui sua fã, mas passei a me interessar por ela motivada pelo entusiasmo dos estudantes – através de questionamentos em torno de visões de mundo através das representações, dos gêneros, do feminismo.

CONTINENTE Como você define a importância de celebridades para o feminismo?
KIRSTY FAIRCLOUGH A cultura das celebridades contemporâneas tem sido rotulada através do tópico do feminismo. Isso tem proliferado discursos sobretudo em revistas populares, blogs e sites fazendo perguntas do tipo: “Qual a posição de nossa celebridade favorita sobre o feminismo?”. Celebridades mulheres passaram a sentir a necessidade de tornar públicas filiações ou rejeições a certa identidade feminista. Eu diria que esses debates culturais ilustram as relações tênues e tensas entre feminismo e cultura das celebridades, ainda que esses dois “reinos” possam, inclusive, coexistir. Acho que a cultura das celebridades tornou-se um importante lugar para a produção de sentido e de entendimento sobre o feminismo. Sobretudo iluminando o senso comum, que acredita que pautas do movimento feminista estariam “fora de moda” ou fora de sintonia com preocupações de jovens mulheres da sociedade contemporânea. Nesse sentido, o conceito de pós-feminismo tem sido uma ferramenta interessante para pensar de que modo os “quadros conceituais” do feminismo se deram dentro de determinadas culturas e ainda tentar dar conta de inúmeros debates que procuram discutir o que é e o que não é feminismo ou, ainda, quem pode ou não reivindicar fazer parte do que foi (ou é) o feminismo. Pensar, por exemplo, os “mandatos” de algumas celebridades dentro da cultura midiática demonstra que o movimento feminista ainda importa para as instâncias midiáticas e que ressoa marcadamente no público.

CO
NTINENTE
Não há um paradoxo no fato de que Beyoncé é negra, enfatiza sua própria sexualidade para empoderar outras mulheres negras, ao mesmo tempo em que ela pode estar colaborando com o discurso histórico de objetificação da mulher negra?
KIRSTY FAIRCLOUGH Essa é uma crítica que frequentemente recai sobre ela. Concordo que há um paradoxo que precisa de interrogações mais profundas. Se olharmos para quando Beyoncé apresentou sua faixa Formation no Superbowl 2016, um espetáculo audiovisual de dimensões globais, ela radicalmente convocou questões em torno de raça e gênero nos Estados Unidos, referenciando não somente a hashtag #BlackLivesMatter (#VidasNegrasImportam) e o Furacão Katrina, mas também todo o legado dos Panteras Negras e do Black Power de maneira mais ampla. Logo depois do evento, um intenso debate nas redes sociais foi acompanhado pela exibição da performance do Superbowl e do videoclipe da canção Formation. Discursos sobre empoderamento e objetificação foram invocados nesse momento em particular. O clipe apresenta imagens radicais e políticas poderosas que foram concebidas para gerar debate e desafiar ideias em torno das mulheres negras e suas autorrepresentações. Eu argumento que Beyoncé apresenta um desafio aos modos pelos quais as mulheres negras são frequentemente representadas no mainstream. A imagem de uma sulista orgulhosa de sua negritude significando sua representação é desafiadora e raramente vista na cultura popular com tamanha visibilidade. Formation é essencialmente uma narrativa de reapropriação. Num certo momento do vídeo, Beyoncé é vista como a anfitriã de um conjunto de mulheres negras numa típica mansão sulista dos Estados Unidos. Retratos de negros e negras, individuais e coletivos, estão pendurados nas paredes – mostrando uma família numa típica vestimenta rosa africana, enquanto outro evidencia uma mulher de pele muito negra quase se misturando ao fundo da tela da imagem (também negra). Isso pode ser lido como a reivindicação do legado escravocrata sulista, enquanto Beyoncé está frontalmente nos convocando através da imagem de uma senhora negra sob seu guarda-sol e que dança desafiando o status quo. Isso é um descarado “não” em torno do esquecimento da história africana, quando milhares de pessoas foram forçadas a deixar suas terras e emigrar especialmente para o sul dos Estados Unidos, onde a escravidão se estendeu por tanto tempo.

"Beyoncé parece estar na linha de frente desse engajamento", diz Kirsty Fairclough. Foto: Divulgação"Beyoncé parece estar na linha de frente desse engajamento", diz Kirsty Fairclough. Foto: Divulgação

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Você enxerga, portanto, relações entre o videoclipe Formation e a corrente de estudos do feminismo negro?
KIRSTY FAIRCLOUGH Essas imagens do vídeo promoveram abalos em termos de representação do feminismo negro. Temos uma das mulheres mais bem-pagas no mundo do entretenimento se posicionando sobre misoginia, sexualidade, beleza da mulher negra e autoafirmação de um modo nunca antes visto no mainstream. O álbum Lemonade levou esse fato a níveis ainda mais profundos. Por tudo isso, eu diria que Beyoncé deve ser celebrada dentro e fora das esferas do feminismo negro, principalmente por abrir o discurso que ela explora no seu lugar de mulher famosa como agente das destrezas político-financeiras.

CONTINENTE Diante de tudo isso, não poderia haver a leitura de que Beyoncé estaria transformando a sua negritude em commodity?
KIRSTY FAIRCLOUGH É importante não esquecermos que a mensagem política de Beyoncé está, sim, enquadrada em lógicas capitalistas. Suas performances e aparições são pensadas em ordenamento com as demandas dos fãs. Todos os produtos e merchandising da canção Formation estavam disponíveis no site da cantora, assim que o vídeo foi lançado, através de camisetas, tops e bonés. Os produtos, as canções, os vídeos, as performances devem ser tomados, primeiramente, como propaganda de sua materialidade comercial. Os fãs estão “comprando” Beyoncé: o business e seu recém-criado ativismo se tornam um timing perfeito para dar extensão da marca ilimitada que se tornou a própria Beyoncé. Ainda assim, quando esse comércio vem atado com emotivas declarações políticas, é possível que alguns críticos vejam tais performances de maneira cínica e dissimulada. O que Beyoncé parece manusear com exemplar destreza é representar os fãs de maneira crucial, inspirá-los a serem melhores e mais cidadãos, não sem antes e de maneira clara lucrar com eles. Enquanto ela abraça a ideia de que “seu papel na vida é se vingar”, de alguma forma está encorajando seus fãs a romperem a barreira da pobreza, agarrando-se a oportunidades e sendo agraciados financeiramente com o trabalho duro que mantém o seu labor artístico. Ainda que mascare o ativismo através da lógica da monetarização, há algo de familiar e cotidiano que agencia a vida dos sujeitos dentro da dinâmica do capitalismo.

CONTINENTE Você acredita que o cenário mundial está politizando os estudos sobre cultura pop? Qual o papel do pesquisador/acadêmico nesse contexto?
KIRSTY FAIRCLOUGH Sem dúvida! Como poderia ser diferente? É mais vital que nunca interrogar o que está emergindo do mainstream e dos mercados não mainstream também em todos os contextos. O impacto de Beyoncé na sua recente incursão nas questões políticas tem sido poderoso, ainda que surpreendentemente se questione como as mensagens de seus álbuns e vídeos sejam questionadas de forma adequadamente pausada e dedicada. Mas isso não é culpa de Beyoncé, mas um problema em torno do questionamento sobre o poder das celebridades em moldar os debates culturais. Tais assertivas sempre foram e serão questionadas. Sobre nosso papel neste contexto, muito tem sido feito (ao menos no Reino Unido) de produção de conteúdo crítico sobre os produtos dessa natureza. No entanto, percebo que parte desse conteúdo acadêmico sobre cultura pop é visto com desconfiança pelo público. Assim, é mais importante que nunca se engajar midiaticamente para apresentar nossas pesquisas – mesmo diante das dificuldades e interpretações distorcidas que porventura possam gerar.

CONTINENTE Sobre ativismo na cultura pop, há uma constante crítica – muito da ordem de intelectuais que replicam máximas frankfurtianas – de que seria impossível “fazer ativismo” no epicentro da indústria do entretenimento, uma vez que toda estratégia, discurso e posicionamento seriam produzidos sob a égide do capital.
KIRSTY FAIRCLOUGH Tenho que concordar que é difícil pensar na relação ativismo e indústria do entretenimento. Diante do quadro de abalos sísmicos e mudanças sistêmicas na política que tem afetado o Reino Unido e os Estados Unidos nos últimos anos, parece haver ameaças ao nosso trabalho de inúmeros modos. Com o resultado das eleições norte-americanas ainda reverberando e o impacto desconhecido na arte e na cultura, nós vamos ter que gritar (como os ativistas) ainda mais e mais alto.

CONTINENTE Quais os desafios dos estudos de celebridades diante do contexto político mundial de avanço das direitas via Brexit e eleição de Donald Trump?
KIRSTY FAIRCLOUGH Celebridades podem nos dizer muito sobre a vigilância sobre o corpo da mulher, sobre a circulação dos discursos feministas na mídia, assim como sobre a dialética existente entre a própria disputa em torno do termo feminismo e como ele aparece junto a algumas celebridades. Através da investigação de mídias sociais e digitais, pode-se pensar em movimentos de adesão e resiliência a performances. E também das relações entre autoria, ativismo e cultura midiática pós-feminista. Como você pode ver, tenho muitos interesses no campo, sobretudo, tomando a pesquisa como um enfrentamento político.

capa 196
CONTINENTE #196  |  Abril 2017

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