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Aquarela de Guita é inspiração de vidaAquarela de Guita é inspiração de vida

Abandonei
a sala antes de projetarem as imagens de cachoeiras, vales, lagos, despenhadeiros e campos floridos, com frases sobre o bem e a eternidade. O mesmo repertório de outras despedidas, a música new age e as pétalas de rosas caindo do alto, enquanto o ataúde era engolido para dentro de um espaço obscuro. Imaginei a morta sentada numa poltrona na primeira fila do velório, olhando a cena com humor cáustico e reclamando.

Por que não escolheram uma canção de Chico Buarque? Melhor se mostrassem minhas aquarelas, ao invés dessas paisagens!

Guita Charifker morreu. Antes que ela virasse sonho eterno, já havia largado a pintura há mais de dez anos e, lentamente, como crepúsculo boreal, a paixão pela vida. Fiel à sua rebeldia exigiu ser cremada, contrariando as leis do povo judeu.

Espalhem as cinzas no jardim de minha casa.

A casa do Amparo, em Olinda, que ela comprou e restaurou com a venda de desenhos e aquarelas. Ampla, alta, caiada de branco, dando para o quintal e os jardins, que haviam sido um horto botânico, há muitos anos. As portas e janelas se abriam para o mundo, acolhedoras às ideias arejadas e às pessoas amigas. Guita e a casa viraram uma mesma entidade generosa e desapegada.

Entre, fique pro almoço. Joaninha fez um doce de banana com frutas do quintal.

(Joaninha, a servidora fiel, partiu um mês antes. Foi abrir a porta do céu e arrumá-lo.)

Guita fala por nada uma de suas frases habituais:

É muita coisa acontecendo.

Muita, nos papéis espalhados sobre a mesa de trabalho e com os pincéis trazidos do Japão por alguém.

Nem lembro quem trouxe, ando esquecida. Envelhecer é péssimo.

Acende um cigarro.

Dizem que faz mal. Eu, hein? Uma coisa tão pequena fazer mal!

E logo em seguida:

Só quero viver enquanto trabalhar. É chato depender dos outros.

Mostrava os pés de jasmim floridos. No fundo do quintal, o cajazeiro secular tombou. Queixava-se das freiras de Santa Gertrudes. Não sei o que elas fizeram, mas eram as culpadas, eu concordava.

O pior é o calor. Sou judia de Olinda, a reencarnação de Branca Dias. Dizem que ela jogou as jóias no rio do Prata. Minha avó perdia tudo o que usava. Um dia, eu saí pro carnaval, e quando voltei pra casa estava sem o anel de brilhante. Não sei quem arrancou do meu dedo.

Um presente do sogro joalheiro.

Seu Samuel me deu muitas joias. Empenhei todas na Caixa do Rio de Janeiro e nunca fui buscar. Eu, hein? Não me acostumo ao calor. Minha família veio da Ucrânia, lá faz bastante frio.

O pai e a mãe chegaram da Europa Central, no porto do Recife, em 1915, fugindo aos pogroms, aos campos de concentração, ao holocausto. Guita nunca tinha certeza do local exato de origem. A geografia na Europa se redesenhou em sucessivas guerras, revoluções e anexações de territórios.

Rosa e Salomão Greiber parecem pequenos, numa foto com Guita e o filho mais novo. Há tanta beleza e harmonia no retrato, dói saber que os dois morreram cedo, vítimas de tuberculose.

O neto lê um necrológio em que lembra o ecumenismo da avó. Ela se declarava uma judia filha de Oxum, devota de Santa Clara, simpatizante de religiões orientais.

Que sua recusa a qualquer tipo de intolerância sirva de exemplo, proclama.
Amém.

Às nossas costas, fecham as portas corrediças e ficamos trancados no cubículo. Vai ter início a solenidade de cremação.

Revejo fotos de corpos amontoados em carroças, levados aos crematórios. Não consigo não pensar nessas coisas. Lacan fala em deslizamentos do inconsciente. As portas fechadas e o crematório me provocam avalanches de lembranças. Fujo da sala claustrofóbica. Lá fora, a tarde se põe linda, alegre como as aquarelas de Guita. Viva a vida! Sempre. Ela diria bebendo o uísque, fumando um cigarro, abrindo a mapoteca onde guardava os trabalhos que escapavam às vendas e aos presentes.

Escolha uma gravura para Avelina.
Não, Guita.
Eu quero dar.

Nas paredes da casa, desenhos minuciosos a bico de pena, figuras antropomórficas, que o tempo e a umidade de Olinda escureciam.

Você é desleixada, Guita. Não basta ser pintora, é preciso zelo, catalogar o que faz. Com quem está o que saiu da mapoteca? Quem anota o destino do que você pinta?
Não nasci com vocação para burocrata. Sou uma artista.

Que pintou no México; em Santa Tereza e na Urca, quando morou no Rio de Janeiro; em Taiba, no Ceará; na ilha de Fernando de Noronha; séries exuberantes no Sítio Santa Clara, em Paulo de Frontin; muito em Olinda. E, bem mais tarde, na paisagem agreste de Chã Grande.

Gosto desse ocre das novas aquarelas.

Ela finge indiferença ao meu comentário. Respiramos as flores do jardim úmido. Há entre nós uma nostalgia lamuriosa. Conto pedrinhas recolhidas no quintal e nas viagens, arrumadas meticulosamente num batente do terraço. Uma ordem obsessiva. A mesa de trabalho se entulha de caixas vazias de chocolate, queijo, biscoitos... Parecem obedecer a um projeto. O mesmo do caixão de pinho, onde gravaram a estrela de Davi, as inicias do nome, e o corpo descansa por último, lacrado, sem chance de ser visto novamente. Um costume judaico que aprecio.

Já vou, grita a velha empregada Joana, no andar de cima.
Até amanhã, responde Guita.

Os sabiás bebem água, escuto a porta bater, aceito um cigarro. Talvez seja o momento de ir embora. Contemplo a mulher com olhos sombreados de azul e batom rosa claro nos lábios. Já não sei que tempo é esse, se ontem, hoje ou amanhã. Distraí-me. Ela fala que não tem vocação para o casamento e que não há mistério em pintar aquarelas, basta água, tinta e paciência. Sorrio e me pergunto quantas vezes escutei isso. Abraço a artista admirável, sinto a força de nossa amizade.

Lembro versos do poeta Assis Lima:

Cabe-nos o presente,
que, por sinal, já passou.”

Despeço-me.

Adeus, Guita, até quinta-feira. 

capa 196
CONTINENTE #196  |  Abril 2017

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