×

Aviso

Please enter your DISQUS subdomain in order to use the 'Disqus Comments (for Joomla)' plugin. If you don't have a DISQUS account, register for one here

Hoje o Hotel Cambridge é um imóvel classificado como Habitação de Interesse Social. Fotos: Aurora Filmes/DivulgaçãoHoje o Hotel Cambridge é um imóvel classificado como Habitação de Interesse Social. Fotos: Aurora Filmes/Divulgação

Leia aqui a matéria na íntegra da edição 195 da Revista Continente (mar 2017)

Em
Era o Hotel Cambridge, a diretora Eliane Caffé apresenta uma narrativa na fronteira entre o documental e o ficcional sobre a luta pela moradia

30 de outubro de 2016, domingo, 22h. Na Avenida 9 de Julho, número 210, centro de São Paulo, no saguão de um antigo hotel de 15 andares, centenas de pessoas ouvem com atenção as instruções de uma baiana de 55 anos. Dentro de instantes, homens, mulheres, adolescentes, crianças, brasileiros e estrangeiros marcharão juntos para ocupar 10 prédios no centro e três na zona leste da capital paulistana. É a noite do Outubro Vermelho, ação da Frente de Luta por Moradia, da qual participam diversos movimentos. Carmen Silva é a coordenadora do Movimento Sem Teto do Centro/MSTC que fala à multidão: “Hoje é o segundo turno das eleições e o que queremos é uma política pública que nos beneficie. Vamos lutar pelos direitos. A moradia não caminha sozinha sem educação, saúde ou cultura. E a luta, mais do que nunca, é feita com vocês, e não para vocês. Todos nós, trabalhadores de baixa renda, brasileiros, imigrantes, refugiados do Haiti, do Congo e de qualquer lugar, estamos ameaçados. Não podemos aceitar esse retrocesso que vem aí. Vamos tomar consciência. A hora é essa e é com todos”.

Duas noites depois, Era o Hotel Cambridge (Brasil/França, 2016) era exibido no CineSesc, na programação da 40ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. O longa-metragem da cineasta paulistana Eliane Caffé já tinha uma trajetória laureada: melhor filme pelo voto popular no Festival do Rio, menção honrosa no 64º Festival de San Sebastián (mesmo festival que, em 2015, havia premiado o projeto, ainda em finalização) e o apoio para a pós-produção do Hubert Bals Fund, do Festival Internacional de Rotterdam. A história narrada no filme, que entra em cartaz neste 16 de março no país, pelo selo da Vitrine Filmes, é reflexo das cenas reais transcorridas no Hotel Cambridge – a vida dos moradores da ocupação que, desde novembro de 2012, transformou um edifício abandonado em lar para centenas de famílias.

Conta a diretora que Era o Hotel Cambridge começou quando ela decidiu pesquisar os refugiados em São Paulo. “Queria ver as problemáticas envolvidas nessa questão dos imigrantes que chegavam em busca de refúgio, como era a entrada deles nas ocupações, e queria seguir suas trajetórias, com o intuito de saber como suas vidas iam se assentando no Brasil”, disse Eliane à Continente. “Muitos deles terminavam chegando às ocupações. Atrás dessa bandeira, estão escondidos muitos movimentos especulativos, não éticos, porém, há também os movimentos éticos nesse universo da luta pela moradia. Comecei a buscar a conexão existente entre os refugiados que chegam ao Brasil, em todas as cidades grandes do nosso país, e os trabalhadores de baixa renda. Ambos carecem de uma política habitacional com o mínimo de dignidade humana. Foi a partir daí que entrei na ocupação do Cambridge”, acrescentou.

Eliane Caffé, diretora do filmeEliane Caffé, diretora do filme

 

A narrativa de Era o Hotel Cambridge é um jogo de ficção: partimos de personagens verdadeiros e reais para criar as personas do roteiro, que foram assumindo a sua própria sua voz. A ideia sempre foi fazer uma ficção ancorada numa zona de conflito real. Todo mundo está ficcionalizando, pois mesmo os atores já faziam parte daquele universo, participando das oficinas com os moradores do Cambridge. O filme traz uma sensação híbrida, na fronteira entre o documentário e a ficção. Essa ausência de nitidez na definição – o que é mesmo que determina uma ficção e um documentário? – vem também com o trabalho dos atores e como eles puxam os não atores, muitos deles refugiados verdadeiros e que moram, de fato, no Cambridge. Vejo o filme como parte de uma produção de resistência, a mostrar que, com o golpe e o retrocesso político, existe avanço também. Falamos muito do retrocesso, mas a História não anda para trás. Existem frentes de avanço, com muito empoderamento de vários coletivos e movimentos sociais e de artistas e ativistas que têm encontrado brechas no sistema. Assim, seguem a se expressar, criando uma certa narrativa da resistência.” Eliane Caffé, diretora


Ela passou um ano e meio convivendo com os moradores que haviam reconstruído suas vidas naqueles quartos de um hotel outrora frequentado pela elite paulistana. Organizou oficinas para introduzir o vídeo no cotidiano daquelas pessoas. Coube a Inês Figueiró e Tayla Nicoletti a tarefa de coordenar esses encontros, num primeiro momento, destinados a crianças de 2 a 14 anos. “Eram oficinas de dramaturgia, que íamos fazendo durante o desenvolvimento do roteiro. As crianças criavam pequenos curtas, nos quais elas mesmas faziam tudo”, explicou Inês à Continente, na calçada de frente para o Cambridge – ela também é corroteirista do longa, ao lado de Luis Alberto de Abreu e da própria diretora. “Através dessas oficinas, chegamos aos adultos e logo começamos a trabalhar com os refugiados”, completou Tayla.

FICÇÃO E DOCUMENTO
Em Era o Hotel Cambridge, nomes de estrangeiros, como Isam Ahmad Issa, Qaedes Khaled Abu Thana, Treson Mukendi Muteba e Guylain Muskendi Labobo, dividem os créditos com atrizes e atores como Suely Franco e José Dumont – ator predileto da diretora, protagonista de seus longas Kenoma (1998) e Narradores de Javé (2003) – e com a própria Carmen Silva (uma das líderes do MSTC). É “um jogo de ficção”, na definição de Eliane Caffé, sem se importar com as fronteiras entre documentário e construção ficcional. Aos 15 minutos de narrativa, Carmen, a protagonista fílmica, preside uma assembleia com os moradores para informar a decisão judicial de reintegração de posse. “Se agora nós recuarmos, vamos aceitar a sentença do juiz, então, pessoal, é hora de estarmos unidos e juntos”, brada, seguida de aplausos. Hassam, personagem de Ahmad Issa, intervém: “Eu sou refugiado palestino no Brasil, vocês são refugiados brasileiros no Brasil”. Irrompem vaias e aplausos, e Carmen se pronuncia com voz firme: “Brasileiros, estrangeiros, somos todos refugiados”. Em outubro de 2016, Carmen resumia: “Nós, trabalhadores de baixa renda, estamos cansados de ser atingidos. Não queremos saber quem ganhou a eleição, quem tomou golpe e quem deu golpe, e, sim, que aqui somos cidadãos brasileiros e estamos cansados de ter nossos direitos violados. Vamos à luta. Somos todos iguais”.

Carmen Silva, coordenadora do Movimento Sem Teto do Centro (MSTC)Carmen Silva, coordenadora do Movimento Sem Teto do Centro (MSTC)

 

O filme é um instrumento de divulgação da nossa luta, porque leva para fora o nosso coração, o que somos de verdade. Tira esse mito de achar que os trabalhadores sem-teto são vândalos que ocupam prédios produtivos e mostra a tratativa do Estado conosco. É uma tratativa em que essa instituição não desempenha o seu papel real. Não queremos ser à parte do Estado, e, sim, estar introduzido nele, com direitos e tudo que precisa ser provido para os cidadãos. A importância de ter um filme como esse e o projeto de residência artística no Cambridge, e de ter os artistas acompanhando o Movimento Sem Teto do Centro nessa luta por moradia, é que não temos uma luta específica por habitação, mas por direitos. Arte e cultura são direitos que nós reivindicamos, com a compreensão de que nossa vida não pode ser apenas de casa para o trabalho. A arte é um dos princípios para agir mentalmente, no psicológico, e não só como entretenimento, mas para evoluir a vontade de estudar, de ler, de ter compreensão. Através da arte podemos ter uma compreensão maior do direito para nos tornarmos cidadãos plenos.” Carmen Silva, líder do MSTC

 

Para Eliane Caffé, o filme integra a produção imagética de “resistência”. “É preciso criar uma narrativa diferente. Movimentos de luta pela moradia e a existência desse universo fértil e politizado do Cambridge são fundamentais para mostrar que houve golpe no Brasil, mas que existem avanços também”, pontua a diretora, que mesclou às imagens captadas na ocupação vídeos feitos por coletivos como Jornalistas Livres e Mídia Ninja. “Aproveitamos imagens da reintegração de posse de um outro edifício no centro de São Paulo para configurar a reintegração do Cambridge, que nunca foi reintegrado”, detalha.

Era o Hotel Cambridge é um dos desdobramentos culturais oriundos da ocupação. No bojo da experiência criativa desencadeada pelas filmagens, ocorridas em 2014, a curadora Juliana Caffé, sobrinha de Eliane, idealizou, ao lado de Yudi Raffael, o projeto Residência Artística Cambridge. A partir de março de 2016, os artistas Ícaro Lira, a dupla Jaime Lauriano e Raphael Escobar e Virginia de Medeiros e o escritor Julián Fuks se tornaram parte da diversificada paisagem humana que frequenta, habita e fortalece o edifício. “Estamos em um microcosmo da cidade. O Estado não tem como dar conta dos refugiados e é a ocupação que faz isso. Pensamos em como seria interessante aprofundar a pesquisa sobre as articulações entre arte, política e sociedade, vias com muita força e potencial para, ao serem cruzadas, criar novas possibilidades para a cidade”, comenta Juliana Caffé.

 



Virginia de Medeiros percebe no filme uma “potente tradução do rico universo” que encontrou no Cambridge: “Além da matéria e da arte, existe o lugar da vida e a maneira como também vamos nos construindo nesses processos. Não consigo mais me pensar, como artista e cidadã, fora dos processos de entrega e das questões humanitárias urgentes. Não podia chegar aqui com um projeto fechado, e, sim, me deixar atravessar pelo desejo de viver essa experiência. Era o Hotel Cambridge, para mim, é sobre direitos, amor e união. É sobre conviver com diferentes realidades, diferentes pessoas, bagagens e sonhos, e se deixar afetar por elas. Antes mesmo de iniciar a residência, conheci Carmen e percebi como ela era afirmativa e forte e, ao mesmo tempo, generosa demais. Foi para dentro de uma zona de crack para ajudar as famílias que lá estavam sem ter onde morar. Quero ser uma força também para o movimento. Acredito nessa luta”.

Em novembro de 2016, Era o Hotel Cambridge foi escolhido pelo júri popular o melhor dos mais de 300 longas-metragens da 40ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. O número 216 da Avenida 9 de Julho é, hoje, um imóvel classificado como HIS – Habitação de Interesse Social. O Movimento Sem Teto do Centro venceu o edital 002/2015, lançado pela Prefeitura de São Paulo, e hoje tem “documentação e escritura em cartório” para não ser tratado como uma invasão. “Mas o temor não cessa, porque não sabemos o que se passa na cabeça do atual prefeito. Vivemos à mercê da política partidária e temos que seguir batalhando”, constata Carmen Silva, do MSTC.

A diretora Eliane Caffé não dissocia a sua obra do contexto que a fez possível e, ao mesmo tempo em que se prepara para levar o longa a festivais europeus, monta, junto à Frente de Luta por Moradia, uma estratégia paralela de exibição. “Vamos organizar uma ação conjunta com os movimentos de luta. Queremos levar o filme para ser exibido nas ocupações”, antecipa. No Brasil de 2017, é essencial cavar novos espaços para as narrativas de resistência. Afinal, como dizem os personagens fictícios e os moradores reais do Hotel Cambridge, “quem não luta está morto”.

capa 196
CONTINENTE #196  |  Abril 2017

banner Suplemento 316x314

publicidade revista