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Resenha

Sobre mãe e filho(s)

Dirigido por Gustavo Pizzi e estrelado por uma iluminada Karine Teles, "Benzinho" radiografa os afetos de uma família suburbana carioca a partir do convite para o primogênito ir morar fora

TEXTO Alysson Oliveira

30 de Agosto de 2018

Mãe e filho: Karine Teles e Kostantin Sarris em cena do longa

Mãe e filho: Karine Teles e Kostantin Sarris em cena do longa

FOTO Bianca Aun/Divulgação

Há uma cena, ainda no começo de Benzinho (Brasil, 2018), em cartaz no Recife no Cinema da Fundação, no São Luiz e no Cine Rosa e Silva, que é bastante reveladora e sintetiza toda a ideia do filme. A família está jantando amontoada na pequena mesa, da pequena cozinha, mas todos felizes, até que a torneira que pinga começa a jorrar água. A matriarca, Irene (Karine Teles, de Que horas ela volta?, numa interpretação mais que iluminada), tenta conter a água com as mãos, enquanto o marido, Klaus (Otávio Müller), vai fechar o registro.

O restante do longa é essa cena simbolicamente se repetindo: Irene tentado (às vezes, conseguindo, às vezes, não) conter jorros e impulsos dela e de pessoas ao seu redor. A água também releva-se um elemento importante aqui: simbolicamente, quase sempre, está ligada à maternidade, uma representação do líquido amniótico. Exatamente sobre o que é (entre tantas coisas) o longa de Gustavo Pizzi: sobre a maternidade truncada.

A ruptura acontecerá quando o filho mais velho do casal, Fernando (Konstantinos Sarris), é convidado para jogar handebol na Alemanha. Uma alegria e uma tristeza, especialmente para a mãe. Como lidar com o ninho vazio? Na verdade, não totalmente vazio, pois ainda ficam os outros três filhos – interpretados por Luan Teles e pelos gêmeos Arthur Teles Pizzi e Francisco Teles Pizzi (filhos do diretor e da atriz principal, hoje separados mas ainda parceiros criativos) Há também a irmã de Irene, Sonia, vivida por Adriana Esteves, também numa interpretação inspirada - ela e Karine receberam, respectivamente, os prêmios de melhor atriz coajuvante e melhor atriz no último Festival de Gramado, de Benzinho saiu ainda com os troféus de melhor filme pelo júro popular e da crítica.

Sônia está se separando do marido abusivo (César Troncoso) e também se instala na casa de Irene e Klaus. A casa, aliás, é também outro elemento simbólico aqui – está, literalmente, caindo aos pedaços. Numa das primeiras cenas, ainda antes da explosão do encanamento, a fechadura emperra, e, durante o filme todo, os personagens entram em saem pela janela do quarto do casal. Ao lado dessa casa onde moram todos, no momento, há uma outra, no mesmo terreno. A construção foi interrompida pela falta de dinheiro, no aguardo da possibilidade de concluir a obra. Essa é uma família com sonhos – a finalização da casa nova é o principal deles – mas que, devido a condições sociais, não os consegue realizar.

Nesse sentido, o filme, sagazmente, desfaz a ideia da meritocracia. Será que a vida de Irene não é melhor porque ela não se esforça bastante? Ela e a irmã vivem vendendo marmitas, lençóis e gelinho. Ela estuda para terminar o 2º grau, será que a vida vai melhorar? Klaus tem uma papelaria, onde também vende livros usados, e quer abrir uma livraria – a maior da cidade onde moram, Petrópolis. Se a ideologia da meritocracia funcionasse, todos estariam ricos.

Mas não estão.

Dirigido por Pizzi, a partir de um roteiro escrito por ele e Teles, o filme investiga de maneira sutil processos interrompidos, num país onde tudo parece sempre ser adiado. É a casa que não dá para reformar, e desmorona aos poucos; é a construção que não dá para acabar, porque não tem dinheiro. A saída seria o abandono, como Fernando, se mudando para outro país? O filme, obviamente, não traz respostas, mas acompanha uma classe média na corda bamba que, por muito tempo, acreditou que apenas se esforçar bastava.

A dupla Pizzi e Teles é sagaz o bastante para jogar o peso do filme no emocional dos seus personagens, sem que, assim, percebam estruturas sociais que os prendem nesse purgatório. O retrato dos personagens, que desvenda um cotidiano de maneira quase casual, é carinhoso, e os laços de afeto sobrevivem em meio ao caos. Na verdade, eles que sustentam as pessoas. E elas tentam não desabar quando esses laços são esticados até o limite – especificamente quando o filho irá embora para a Alemanha.

Benzinho é um filme de delicadezas e sentimentos – o que não quer dizer que seja piegas, pelo contrário: sua honestidade é tão brutal que chega a doer. Impossível não chorar e rir (muitas vezes ao mesmo tempo). E traz uma das cenas mais fortes, e, ao mesmo tempo, mais simples que se viu numa tela de cinema esse ano: o ato de se despir de um simples casaco nunca gerou um efeito dramático tão tocante.

ALYSSON OLIVEIRA é jornalista e crítico de cinema do site Cineweb.

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