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Resenha

O som do metal

Estreia do realizador Darius Marder, filme ‘O som do silêncio’ conta a história de um baterista que fica surdo. O salto é o ‘sound design’, dos mais intrincados e sofisticados

TEXTO Rodrigo Carreiro

12 de Janeiro de 2021

Riz Ahmed é Ruben, que perde subitamente a audição no meio de uma turnê pelos EUA

Riz Ahmed é Ruben, que perde subitamente a audição no meio de uma turnê pelos EUA

Foto Divulgação

[conteúdo exclusivo Continente Online]

Um baterista de punk/noise/heavy metal (Riz Ahmed, de Rogue one e Venom) perde subitamente a audição no meio de uma turnê pelos Estados Unidos, deixando a banda – uma dupla formada por ele próprio e a namorada Lou (Olivia Cooke), guitarrista e vocalista – sem condições de continuar a atuar. Esse argumento parece fadado a se tornar um melodrama de autoajuda, um musical moderno avantgarde (a música que eles produzem é bastante experimental) ou, talvez, a derrocada psicológica e social de um homem que vê seu ganha-pão arruinado por uma tragédia inesperada. O som do silêncio (Sound of metal, Darius Marder, 2020) bebe da fonte de todos esses tipos de filme, mas transcende-os, tornando-se um estudo de personagem brilhante que possui um sound design dos mais intrincados e sofisticados, tanto técnica quanto esteticamente.

Estreia do realizador Darius Marder, o longa-metragem tem a estrutura narrativa organizada em torno de dois elementos-chave: o ator Riz Ahmed e a pós-produção (ou seja, edição e mixagem) de som. Ahmed, no papel principal, aprendeu a tocar bateria na linguagem dos sinais para liderar o elenco do filme. As nuances de interpretação, incluindo expressões corporais e o olhar, ajudam a compor o personagem, chamado Ruben, em detalhes não verbais, que podem passar despercebidos aos menos atentos: embora pareça calmo e centrado no início do filme, ele se torna subitamente ansioso e à beira do descontrole, especialmente depois que é obrigado a se separar fisicamente da namorada, que praticamente o força a se juntar a uma comunidade de surdos isolada do mundo exterior e com regras rígidas.

Pequenos detalhes enriquecem o personagem e lhe dão vida própria, para além da tela. Ruben, por exemplo, volta a fumar compulsivamente e realiza atividades que não lhe são pedidas, como consertar o telhado. Descobrimos, aos poucos, que ele está naquele lugar porque já foi um viciado em heroína – e, diante da adversidade, voltou a se comportar como um. Aos poucos, ele vai se acostumando à rotina da comunidade e parece resgatar parte do autocontrole. Mas o terceiro ato engrena uma guinada inesperada no enredo e nos leva a um final surpreendente e emocionalmente devastador, incluindo um derradeiro plano em close-up capaz de levar às lágrimas um espectador atento à jornada emocional de Ruben.


A atuação de Riz Ahmed e Olivia Cooke impressiona. Foto: Divulgação

O restante do elenco está à altura da impressionante interpretação do ator britânico-paquistanês. Olivia Cooke impressiona pela mudança física que exibe entre o primeiro e o terceiro atos, dando uma pista de que também enfrentou uma jornada emocional dura. Paul Rici, intérprete do líder da comunidade de surdos, é um espetáculo à parte. Ele protagoniza a mais significativa cena do filme, na qual dá a Ruben a tarefa que terá que cumprir enquanto estiver lá: nada. Literalmente, ficar sentado num quarto sem fazer nada. Esta cena tem uma conexão direta com a bela sequência de encerramento. Mathieu Amalric faz uma participação de luxo, como o pai de Lou.

Com o elenco afiado, coube à equipe de pós-produção sonora, liderada pelo francês Nicolas Becker (ele também ganha o crédito de compositor da música do filme, já que efeitos sonoros, harmonias e melodias são indistinguíveis, seguindo uma forte tendência do cinema contemporâneo independente), criar o sound design do longa. Eles o fizeram ancorando grande parte das sequências no conceito de ponto de escuta subjetivo (esta classificação foi elaborada pelo teórico Michel Chion, embora seja uma criação de outro pesquisador de narrativa audiovisuais, François Jost): nos abundantes close-ups, quando a câmera está próxima ao corpo do ator Riz Ahmed, o espectador escuta exatamente da maneira como Ruben está ouvindo o mundo ao redor.

Nesse sentido, O som do silêncio é presença obrigatória em listas de filmes que trabalham a imersão do espectador no espaço cênico com criatividade e inteligência. Afinal, Nicolas Becker e demais editores de som e mixadores não estão apenas procurando colocar o espectador dentro da cena, mas também dentro da cabeça do próprio Ruben. Além disso, a trilha de áudio progride dramaticamente ao longo da narrativa. O primeiro ato, enquanto Ruben perde a audição, é dominado por zumbidos agudos de microfonia (às vezes muito discretos, como na cena em que os namorados dirigem o ônibus de turnê ao local do próximo show) e pelos tons mais graves, como o bumbo da bateria. Ruben mal consegue ouvir palavras, e apresenta crescente dificuldade em traduzi-las semanticamente; elas se tornam um mero ruído sem sentido para ele. A agonia do personagem é traduzida em sons.

O uso expressivo dos silêncios e tons mais graves domina os planos subjetivos do segundo ato, enquanto tudo se inverte quando o filme ruma ao final: após colocar um implante coclear (depois de uma transação um tanto irresponsável, típica de um viciado, envolvendo o ônibus de turnê e os equipamentos da banda), Ruben passa a escutar sons metalizados e cheios de estalidos, como um rádio analógico, que valoriza as frequências médias para facilitar a compreensão das palavras, mas sacrifica a riqueza sônica da audição humana, eliminando reverberações, reflexões e parte das frequências graves, o que dificulta o modo como Ruben se localiza espacialmente pelas diferentes locações.


Olivia Cooke vive Lou, a namorada do baterista. Foto: Divulgação

Antes disso, enquanto aprende a linguagem dos sinais (e a não fazer nada), o roteiro usa os sons para ampliar a empatia entre o personagem e a plateia: ele compreende vários dos internos – em particular, uma criança de comportamento irascível – e os ajuda no processo de adaptação ao mundo sem sons. A sequência em que Ruben e o garoto-problema se comunicam no escorregador do parque de diversões não tem diálogos, mas é um exemplo da riqueza afetiva do filme, e da capacidade do baterista em criar empatia de maneira natural com aqueles internos mais difíceis, os marginalizados como ele.

Cabe, ainda, uma pequena ressalva à tradução do título para o português. Embora coerente com o pensamento sonoro criado para o filme, o título perde completamente a ambiguidade rica do título original, já que a palavra “metal” carrega muitos significados, literais e simbólicos: remete ao estilo de música de que o baterista é adepto, à busca incessante do músico para realizar o impossível – voltar a escutar da mesma maneira que antes, único modo de voltar a criar canções – e ao tom metalizado dos sons que ele passa a ouvir após colocar os implantes. De certa forma, o título original conecta o primeiro e o terceiro atos do longa-metragem em um trocadilho narrativo genial que a versão em português, infelizmente, deixa de lado.

Sem dúvida, O som do silêncio é um melodrama sem afetações, que evita habilmente as armadilhas lacrimosas dos representantes mais comerciais do gênero, e constitui uma obra altamente recomendada a profissionais e estudantes interessados em atuação, em sound design e em modos de escuta. Mesmo assim, não seria cinema de primeira qualidade se o elemento humano não se sobressaísse com tanta força. Por isso, trata-se de um filme que interessa a todo cinéfilo que aprecia narrativas multidimensionais, ainda que não sejam fãs de música ou não toquem bateria (aliás, praticamente não existe música convencional). Literalmente, é um filme para ver e ouvir – se possível, usando um home theather multicanal, uma soundbar ou fones de ouvido de boa qualidade.

O filme está disponível na plataforma de streaming Amazon Prime Video.



*Um agradecimento especial aos amigos Débora Opolski (UFPR) e Rodrigo Meirelles (Universidade do Arizona) pelas conversas estimulantes sobre o filme.

RODRIGO CARREIRO, professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e do Bacharelado em Cinema e Audiovisual da UFPE, em que cursou Mestrado e Doutorado em Comunicação (Cinema), e bolsista de produtividade do CNPq.

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