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Resenha

"Não há quem vá sufocar um grito de resistência"

Livro recém-lançado de Cannibal dos Santos traz a história dos 30 anos da Devotos, banda de punk rock hardcore do Alto José do Pinho que deu voz às mazelas da comunidade

TEXTO Samanta Lira

06 de Setembro de 2018

Com discurso politizado, grupo fez a classe média subir o morro

Com discurso politizado, grupo fez a classe média subir o morro

FOTO Reprodução do livro/Cepe Editora

Um bairro que carrega desde as raízes – e no próprio nome – a influência da música. José Melo construía e pintava casas, mas era também um excelente tocador de violão, instrumento que na época era popularmente conhecido como "pinho", em referência à madeira. A fama pegou no Alto, e José Melo passou a ser chamado de José do Pinho, originando assim o nome do lugar que é cenário desta história. Em 1988, através de um decreto, a comunidade do Alto José do Pinho, localizada na capital pernambucana, passaria à condição de bairro, mesmo ano em que surgiria a banda Devotos do ódio, formada por Cannibal, Neilton e Cello.

Em três décadas, o som incitante do hardcore foi plano de fundo para letras que deram voz às mazelas da comunidade. O grupo fez a classe média subir o morro e quebrou o estigma de violência das periferias. Matérias de jornais do Sudeste viriam a comparar a cena do Alto José do Pinho com o punk rock surgido em Londres, na década de 1970. Devotos fez história, tratando sobre o cotidiano e focando na transformação social que pode ser feita através da música.

Muitas vezes, porém, a potência da voz, guitarra, bateria e baixo não permitia que as letras fossem compreendidas pelo público. "Tua música é massa, mas eu não entendi nada que tu cantou" foi o mote que incentivou Cannibal a escrever o Música para o povo que não ouve, livro recém-lançado em parceria com a Cepe Editora, que marca ainda sua incursão no mundo da literatura. O projeto gráfico da obra foi pensado de modo que o formato e o conteúdo se mesclam, numa estética inspirada nas fanzines que circulavam no cenário punk na época em que a banda se iniciou. Chama a atenção a tipografia que simula uma escrita datilográfica, o que também ajuda a imergirmos no conteúdo.

Marcus AsBarr, produtor e diagramador do livro, dá início ao passeio pelas três décadas de história e ativismo da banda, costurado por relatos que são contextualizados com imagens dos cartazes de shows realizados pelo grupo e matérias de jornais da época, que abordavam o impacto do que foi Devotos. "Não tentem calar meu grito" dá sequência à leitura e insere Cannibal na narrativa, explanando sobre essa produção musical que carrega a sua própria vivência. O artista nos revela logo de cara que a vontade de criar uma banda não foi um desejo inicial. Foi, na verdade, uma continuidade de sua militância. "Quando conheci o movimento punk, aos 17 anos, não queria fazer música, queria panfletar, participar de passeatas, fazer parte das organizações, mas tocar não! Não queria nem com uma porra!"


Recorte de jornal do acervo da banda é reproduzido como elemento de memória

O inconformismo com a falta de políticas sociais dentro da comunidade foi o que o uniu a Neilton e Cello, motivação conjunta de não só ser músico, mas de praticar ações sociais, interagindo com a população não só como banda. Exemplo disso é a criação da rádio comunitária Alto Falante. Através do livro, Cannibal nos fala de um protesto que foge do ódio e da raiva, e que traz a esperança como fundamento da mudança.

Em seguida, somos presenteados com cerca de 90 letras de músicas, todas escritas por Cannibal. Criações que integram desde o primeiro disco, o Agora tá valendo (1997), até as do que será lançado em breve (O fim que nunca acaba), além de versos que nunca foram gravados. As capas de cada álbum antecedem a apresentação das letras que o compõem, acompanhadas ainda de artes que fazem uma releitura delas, com diversas autorias. Todo o projeto gráfico da banda, bem como as capas, é assinado por Neilton. Até o mês passado, inclusive, a exposição A arte é um manifesto – 30 anos de Devotos, que estava em cartaz no Mamam (Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães), em Recife, permitiu que o público tivesse contato também com esse material artístico.

A organização da obra, que é introduzida pela história de como o grupo se uniu e pela motivação dessa empreitada, para só depois apresentar as letras das músicas, é uma estratégia eficiente de contextualizar a poesia que está por trás. Afinal, uma coisa é ouvir as canções, outra é ler o que não pôde ser dito nos shows. É dar um sentido a tudo o que foi e é produzido. Música para o povo que não ouve é para os fãs da banda, mas principalmente para os que não têm proximidade com o hardcore, e que a partir de sua leitura poderão perceber o poder de transformação dessa cena musical. O livro custa R$ 30.

SAMANTA LIRA é estudante de jornalismo da Unicap e estagiária da Continente

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