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Ron Howard dirige filme sobre o período em que a banda esteve em turnêRon Howard dirige filme sobre o período em que a banda esteve em turnê

 

Lá vem mais um documentário sobre os Beatles... É o que muita gente deve ter pensado sobre o lançamento de The Beatles: Eight days a week – The touring years (2016), que entrou em cartaz nas salas de exibição do país, na quinta-feira (3). Quem imaginou “Lá vêm as mesmas histórias que os fãs sabem de cor e salteado”, acertou. No entanto, Ron Howard (Uma mente brilhante, Apollo 13, Anjos e demônios), com sua experiência de quatro décadas no cinema e munido de uma pesquisa minuciosa, conseguiu estender um pouco mais as fronteiras de tudo o que se achava conhecer sobre a maior banda da história, principalmente depois da série Anthology (1995).

Em 1h37, o diretor mergulhou nos bastidores dos anos em que o grupo excursionou já sob a marca Beatles. Antes, como uma banda independente, os músicos tinham feito a legendária temporada de shows em clubes de Hamburgo. Ron Howard foca o período entre 1962 e 1966 – ano em que decidiram parar de se apresentar, porque, devido à gritaria da plateia, não eram ouvidos nem conseguiam se ouvir no palco. E, para completar, a histeria do público já tinha se tornado preocupante e insuportável. Soma-se a isso o fato de John Lennon ter feito a controversa declaração que causou revolta e boicote: a de que os Beatles eram, àquela época, mais populares que Jesus Cristo. Seu humor inglês não foi bem-aceito.

O documentário, repleto de depoimentos antigos e atuais, mostra, em imagens incrivelmente restauradas, a agitada rotina dos músicos, da empolgação inicial dos primeiros shows, passando pela euforia da inacreditável fama mundial até ao inevitável cansaço de toda a maratona.

Boa parte de Eight days a week é voltada à primeira turnê do Fab Four nos Estados Unidos, principal território almejado e conquistado pelos Beatles. Foram 34 dias e 32 shows em 24 cidades. Desses registros, Howard costura momentos impagáveis da cobertura jornalística, como na hora da descida dos músicos do avião, no dia 7 de fevereiro de 1964. Um dos repórteres, fazendo a transmissão, fala: “Um deles está acenando. Vejam ele se mexendo!”. “Um deles” – frase vaga difícil de ser dita hoje no que se refere a John, Paul, George e Ringo.

Mas, ali, a imprensa ainda não sabia quem eram aqueles cabeludos. Um repórter pergunta: “Qual deles é você?” Lennon: “Eric”. O repórter: “Estamos aqui com o Eric [diz para a câmera de TV]. Eric, o que acha…” Lennon interrompe: “Eu sou o John. Era uma brincadeira”. Começava uma longa relação entre esses artistas e a imprensa, que renderia episódios impagáveis que hoje podem ser revistos no YouTube.

Uma vez nos Estados Unidos, os Beatles cumpriram uma agenda inescapável. Dentre os compromissos, a primeira participação no Ed Sullivan Show, em 9 de fevereiro (o grupo retornaria nos dias 16 e 23). A audiência dessa estreia no principal programa de auditório da TV americana foi de 73 milhões de espectadores, só superada, cinco anos depois, pela “chegada do homem à Lua”. Segundo a polícia de Nova York, coincidência ou não, o fato inédito é que não houve registro de nenhuma ocorrência na noite da cidade – para se ter uma ideia do impacto da Beatlemania.

No entanto, enquanto fãs se aglomeravam na frente de aeroportos, hotéis, perseguiam carros, se esganiçavam e esperneavam nos shows, parte da imprensa, incrédula diante do fenômeno, apostava que o sucesso do quarteto seria passageiro. “Bombardeada com problemas ao redor do mundo, a população voltou seus olhos para quatro jovens britânicos com cabelos ridículos. Em um mês, a América os terá esquecido e vai ter que se preocupar novamente com Fidel Castro e Nikita Kruchev”, publicou o New York Daily News.

Em Eight days a week, Howard faz o que outros documentaristas já deveriam ter feito: ir atrás de algumas daquelas fãs dos Beatles. Quem eram? Algumas delas também ficaram famosas, como a atriz Whoopi Goldberg, que relata a surpresa que sua mãe fez ao comprar os ingressos em segredo, e Sigourney Weaver, cujo registro de sua imagem num show dos Beatles é uma verdadeira joia.

Em plena época de segregação racial nos EUA, Whoopi lembra que não pensava sobre a cor da pele dos Beatles. “As pessoas me diziam: 'Quer ser branca?', 'Gosta deles?' Nunca pensei neles como caras brancos. Eram os Beatles! Eram incríveis! Eles não tinham cor. Os Beatles me passaram a ideia de que todos eram bem-vindos”.

E Whoopi estava correta. Em seus contratos nos Estados Unidos, os músicos expressaram que não permitiriam segregação racial nas plateias. Em muitos estados, foi a primeira vez que jovens negros e brancos assistiram, lado a lado, a shows. “O pessoal do Gator Bowl (Jacksonville, Flórida) se integrou pela primeira vez, o que, segundo minha percepção histórica e meus estudos, pôs fim à segregação na maioria dos grandes estádios do Sul”, afirma o jornalista norte-americano Larry Kane, que foi convidado a acompanhar os músicos nessa turnê e pôde testemunhar a generosidade com a qual tratavam todas as pessoas ao redor.

Outro grande e belíssimo momento do documentário é o trecho que mostra a torcida do Liverpool, no intervalo de um jogo entre o time e o Arsenal, no estádio Anfield, cantando, como um gigantesco coral, She loves you. O bando de homens nas arquibancadas, berrando a plenos pulmões a letra romântica, comprovava que a Beatlemania não era apenas atitude de meninas e adolescentes, também tinha a sua grande parcela masculina e adulta, numa época que os rapazes precisavam ter muita coragem para comprar um pôster cheio de garotos.

Em um trecho engraçadíssimo do doc, Ringo conta que, sem poder ouvir o que estava sendo tocado no próprio palco, por conta da gritaria do público no Shea Stadium, em Nova York, só conseguia acompanhar a banda, porque observava as batidas dos pés e o balançado das bundas de Lennon e McCartney, assim descobria em que ponto estava a música.

Diante do resgate de tantas histórias e de belas imagens, que provocam uma renovação no amor por essa banda e suas canções, relembrar a aterrissagem dos Beatles em países e continentes, como a América, é rever o marco de uma mudança na música, na cultura, no comportamento, rever a chegada do futuro.

Serviço
Documentário The Beatles: Eight days a week – the touring years (2016), de Ron Howard
Onde: Recife Delux 2, 20h (exceto seg, ter e qua)

capa 198
CONTINENTE #198  |  Junho 2017

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