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A iluminação colabora com a construção de "paisagens sonoras". Foto: Tiago Guillen/DivulgaçãoA iluminação colabora com a construção de "paisagens sonoras". Foto: Tiago Guillen/Divulgação


Na condição humana, com toda a sua complexidade e beleza, um dos pontos mais insignes é ter de reconhecer que afirmações só existem por conta de negações, e presenças, graças às ausências. Trazer isso para o campo da linguagem seria, talvez, apontar a sua condição de incompletude. Ir ao teatro, ao cinema, ler um livro é permitir-se suspender. Negar é também carregar afirmações, os opostos não apenas se conflitam, eles se correlacionam. Em trecho de um poema do Livro das semelhanças, a poeta Ana Martins Marques ilustra bem isso:

 

“As casas pertencem aos vizinhos
os países, aos estrangeiros
os filhos são das mulheres que nunca quiseram filhos

as viagens são daqueles que nunca deixaram sua aldeia”

 

A arte possibilita um deslocamento sem necessariamente se dar de forma denotativa. Na noite de sexta (20/1), o espetáculo musical Estesia fez um convite ao público ao longo de mais ou menos 50 minutos: (re)descobrir suas aldeias – origens, memórias e identidades – no palco do Teatro Luiz Mendonça, dentro da programação do 23º Janeiro de Grandes Espetáculos. As cadeiras foram dispostas no palco, bem próximas aos músicos, em um círculo disforme. “Mantenham seus celulares desligados durante todo o espetáculo”, dizia o aviso protocolar do festival pouco antes do início, enquanto ironicamente um dos músicos distribuía celulares ao público colaborador e solicitava que interagisse produzindo sons através de movimentos bruscos com os dispositivos. Isso acabou deixando alguns participantes em dúvida se deviam ou não usar os aparelhos. Aliás, integração entre som, movimento e iluminação, por meio de dispositivos, é explorada em vários momentos ao longo da apresentação.

 

“O nome vem do sentir, a gente conhece mais o contrário, que é anestesia”, explica Miguel Mendes, que desenvolve com os outros músicos Tomás Brandão e Carlos Filho, e o iluminador Cleison Ramos, Estesia, um espetáculo cujo ponto de partida foi a inquietude. “O Estesia é fruto de uma insatisfação, no bom sentido, nossa de não querer fazer apenas shows. Ele mexe com o formato dos shows, é um espetáculo musical, no sentido de ele ter uma direção. A ordem das músicas, os textos das músicas e os silêncios mexem com atuação, mas não é teatro”, afirma Carlos, em entrevista à Continente. Além do projeto, eles desenvolvem outros trabalhos. “Todos nós temos uma carreira além do Estesia. O Miguel é baixista de várias bandas, toca com a Bande Dessiné. Tomás já tocou com o Som de Válvula, Zeca Viana, entre outros. Juntos, eles já fizeram várias trilhas sonoras. Eu canto e componho na Bandavoou”, explica o artista.

EXPERIÊNCIA

É preciso pontuar que por explorar experiências sensoriais para além de uma apresentação estritamente musical, já que se vale de alguns dos componentes da linguagem teatral – iluminação, posicionamento cênico – e ressignica movimentos habituais de músicos no palco, o trabalho faz parte daquele "grupo" de espetáculos no qual só é possível compreender experimentando para, assim, arrematar as próprias impressões. Apesar da narrativa existente, que remete a sentimentos específicos de resignação, resiliência, felicidade, dor, euforia, entre outros, é na compreensão de cada indivíduo em relação aos elementos apresentados que o espetáculo atinge seus pontos mais altos.



A voz de Carlos Filho apresenta contundência e leveza e quando unida a elementos e timbres comuns à música eletrônica e experimental propõe interpretações que lembram trabalhos como o do inglês James Blake ou melodias mais pops, mas tudo perpassado por visíveis influências da música feita no Nordeste. Os reverbes, o baixo de Miguel Mendes, os solos de Tomás Brandão, entre outros momentos, criam experiências novas ao longo dos 50 minutos. Os músicos se movimentam e transitam pelos instrumentos dispostos proximamente, entre eles o teclado, o computador e o violão.


Organicamente, Estesia tem uma unidade musical, mas as faixas não percorrem sempre a mesma linha ou ritmo, o que contribui para a respiração do espetáculo. Em inúmeros momentos, o público se perde observando a iluminação ou fechando os olhos, mas a atenção é constantemente convocada pelas vozes de Carlos, pelo som dos instrumentos ou dos dispositivos. Experiências proporcionadas pelo aqui e agora são diferentes, principalmente em tempos de internet. As facilidades na web ou no celular são realmente significantes do ponto de vista da acessibilidade musical, mas não sei se por nostalgia de um tempo analógico (ou análogo), ainda se guarda um afeto pelo acaso possibilitado pelo live in.

Gravações de sons como bolas de gude ou ferro triscando foram apresentadas com interferências e ritmos improvisados. Entre as várias sonoridades trazidas, a do ferro, por exemplo, pode ser compreendida como um ferrolho abrindo, mas para outra pessoa como um balanço em movimento – além de claro, inúmeros outros significados, ratificando a polissemia da linguagem.


O fato de as pessoas estarem próximas aos músicos e em cima do palco, dividindo as luzes com os artistas, promove sensações de integração e colaboração. Além de ser público e observar, a gente se sente parte do trabalho. As luzes escuras e claras projetadas naquele cubo cênico contribuem para o movimento de ouvir, ver e projetar imagens no pensamento. Essas representações contribuem para a formação de “paisagens sonoras” que encontram na iluminação um aliada. O modo que a culicidade entre plateia e artistas se dá, em Estesia, é espontânea e, sem dúvida, a iluminação de Cleison Ramos na imensidão do Luiz Mendonça, de fato, sensibilizou.


Foto: Tiago Guillen/DivulgaçãoFoto: Tiago Guillen/Divulgação

“O público não está na plateia, está no palco e isso muda muita coisa. Miguel e Tomás trabalham bastante com teatro e já vinham percebendo que, por exemplo, quando a luz incide no público, há um tipo de experiência sensorial muito diferente do público que não recebe essa luz e aí, a gente decidiu dividir isso com as pessoas. No teatro, eles chamam de ‘quebrar a quarta parede’, A gente pegou isso e quis fazer como se tudo fosse um cubo cênico onde todos estão ali, e acabou que ficamos com uma conexão muito maior”, afirma Carlos Filho.


Na apresentação, das diferentes sensações compartilhadas entre os que estavam ali, a possibilidade de reconhecimento do outro devido à imersão em Estesia é enriquecedora. De alguma forma, por mexer com alteridade, até pessoas que não estavam presentes, mas que permeavam os pensamentos e as memórias do público, faziam parte do espetáculo. Cada um tem sua vivência, mas o exercício de perceber, ativar lembranças e se conectar aos outros através da comunicação e da arte, primordiais para a condição humana, já é digno de atenção. Como dito, nas ausências também há presenças. Um respiro nisso tudo que é a existência é saber, apesar dos percalços e das negações do cotidiano, que há uma razão de ser.

capa 196
CONTINENTE #196  |  Abril 2017

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